Opinião

O fabuloso destino de Bernardo Silva

Os calções cor-de-rosa com que aterrou em Manchester para encarar o frio britânico, em 2017, e o guarda-roupa de que se serve habitualmente (Ilkay Gundogan chegou a dizer que o colega de equipa se veste como um avô) são os únicos “defeitos” que, em tom de provocação, são apontados a Bernardo Silva. Este fait-divers serve somente para se perceber quão consensual é hoje o jogador português, dentro e fora do balneário do City. É um esbanjador de classe e, de longe, o activo do plantel que mais elogios tem merecido do treinador - e Pep Guardiola está muito longe de ser um treinador qualquer.

A admiração do catalão pelo criativo português remonta aos embates entre Mónaco e Manchester City na Liga dos Campeões. Foi nessa altura que se decidiu a pedir a sua contratação e, desde então, Bernardo Silva tem superado as expectativas. Guardiola já se pronunciou inúmeras vezes sobre os méritos do atacante lisboeta, tendo também já desvendado qual o primeiro atributo que procura num jogador quando aborda o mercado - a capacidade de se relacionar com os colegas e com a equipa técnica.

É evidente que, a este nível, todos os restantes pré-requisitos estão também preenchidos, a começar pelo talento ímpar e pelo valor acrescentado que o reforço pode gerar para a ideia de jogo preconizada. Mas a importância que é dada pelo catalão à capacidade de os seus atletas se submeterem ao interesse colectivo é um sinal de inteligência, um alerta de quem sabe com que linhas se cosem os egos num clube movido a milhões de libras.

“Portugal pode estar orgulhoso. Bernardo é uma jóia, como jogador e como homem”. “É impossível deixar Bernardo Silva de fora. É Bernardo e mais dez jogadores.  Aquilo que ele tem feito ao jogar pelo meio (...) tem sido perfeito”. Ou, mais recentemente, após o triunfo sobre o Tottenham: “Quando vemos quão altos e fortes eles são nos duelos... nós sofremos, com excepção do Bernardo Silva. Não sei o que é que ele comeu”.

É difícil encontrar um atestado mais credível do peso que o internacional português tem no fabuloso City 2018-19. Os recursos técnicos já não eram novidade para ninguém, mas em Inglaterra Bernardo ascendeu a outra dimensão: ganhou uma incrível capacidade de defender sem bola, de activar a pressão, de disputar bolas no choque. Não deixou de ser um jogador de estatura modesta (1,73m) para os padrões da Premier League, mas no ideário de Guardiola a questão da métrica é uma questão menor. E a cirúrgica leitura de jogo em movimento que o criativo oferece aos “citizens” é uma arma poderosíssima.

Não é por acaso que está entre os nomeados para o prémio de melhor jogador da época em Inglaterra, pela Associação de Futebolistas Profissionais, fazendo parte ainda da lista de candidatos ao galardão de melhor jovem da temporada. Ele, que aos 24 anos tem uma maturidade que ultrapassa largamente o cartão de cidadão (e o altruísmo que mostrou ao entregar a Phil Foden a distinção de melhor em campo, no fim-de-semana, está aí para o provar), é já uma das figuras incontornáveis do campeonato mais apetecível e entusiasmante do planeta.

O prazer que retira de cada recepção, de cada assistência, de cada linha de passe que descobre certamente que ajudará a esta imparável afirmação de qualidade, mas é com a bola colada aos pés que Bernardo expressa a sua arte na plenitude. As movimentações de fora para dentro, normalmente numa equação de “extremo” de pé trocado (ainda que considerar Bernardo um extremo neste modelo seja altamente redutor), não têm paralelo no City actual. Especialmente porque é difícil encontrar alguém que coordene de forma tão perfeita a condução a alta velocidade com um diagnóstico tão preciso do jogo e do que ele pede a cada momento.

“São muito poucos os extremos que dominam o espaço-tempo de maneira correcta. Quando um extremo se coloca por dentro, é atacado por todos os lados e existem poucos que sabem jogar por ali, que sabem receber e atacar bem”, apontava Guardiola ainda nos tempos do Bayern. Pois bem, o técnico catalão encontrou uma dessas raridades.

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