Esta fotografia de duas gorilas órfãs com o seu cuidador, num parque na República Democrática do Congo. tornou-se viral
Foto
Esta fotografia de duas gorilas órfãs com o seu cuidador, num parque na República Democrática do Congo. tornou-se viral DR

A explicação da selfie de um guarda com duas gorilas órfãs

A fotografia de duas gorilas órfãs com o seu cuidador num parque na República Democrática do Congo tem feito as delícias dos internautas, mas há quem se questione sobre o porquê de os primatas imitarem os comportamentos dos humanos. Não é por diversão: é porque reconhecem quem cuida deles.

A fotografia de duas gorilas do Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo, com um guarda-florestal, tem corrido o mundo nos últimos dias. Na fotografia, publicada na página de Facebook dos patrulheiros, as duas gorilas órfãs, chamadas Ndakazi e Ndeze, estão de pé e atrás de um dos seus guardas e parecem estar a imitar a postura sobre as duas pernas dos seus cuidadores.

À BBC, Inocente Mburanumwe, vice-director do Parque Nacional de Virunga, afirma que na selfie os primatas parecem humanos, mas que não é comum que os gorilas se apoiem apenas sobre duas patas. “Só quando estão muito curiosos é que eles têm que se levantar para ver o que se passa”, diz. No entanto, o facto de terem crescido dentro de um espaço que acolhe gorilas órfãos e de terem sido criados junto de seres humanos faz com que aprendam a imitar alguns comportamentos.

Depois da publicação dos guardas-florestais arrecadar mais de 42 milhões de likes e de se tornar viral nas redes sociais, o Parque Nacional de Virunga decidiu esclarecer através no Facebook que a fotografia é real. “Estas ‘moças’ gorilas estão sempre a agir de forma descarada e esta é a fotografia perfeita para mostrar as suas verdadeiras personalidades. Além disso, não é nenhuma surpresa vê-las sobre os dois pés porque a maioria dos primatas fica confortável a andar na vertical durante curtos períodos de tempo”, pode ler-se na publicação.

Ao The Washington Post, Roberta Salmi, directora do Laboratório de Ecologia Comportamental de Primatas da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, explica que os primatas são conhecidos por usarem posturas em pé para várias tarefas na natureza, como chegar a frutas das árvores, atravessar riachos ou para estabelecer o seu domínio. 

Já Frans de Waal, primatologista e professor de psicologia na Emory University, nos EUA, explica ao mesmo jornal que os animais em geral tendem a imitar quem cuida deles, reproduzindo expressões faciais ou posturas. É ainda mais provável que este comportamento ocorra devido às semelhanças entre os corpos do humanos e dos primatas. 

O primatologista explica que os gorilas imitam o comportamento humano “não por diversão”, mas porque “se identificam com quem cuidam deles”. “Os macacos são naturalmente imitativos e isso é frequentemente impulsionado pelo apego”, acrescentou Frans de Waal.

Ndakazi e Ndeze foram levadas para o orfanato de gorilas do Parque Nacional de Virunga no Verão de 2007, depois de as suas mães serem mortas em incidentes de caça furtiva. Segundo o que conta o vice-director do parque à BBC, aquando da sua chegada, uma das gorila tinha cerca de dois meses e outra cerca de quatro meses de idade. Desde essa altura, têm sido criadas pelos guardas.

Sobre a imagem que se tornou viral, o Parque Nacional de Virunga reforça a ideia de que “os gorilas estão num santuário fechado para órfãos” e que “os guardas têm muito cuidado para não colocar em risco a saúde dos mesmos”. “As circunstâncias em que a fotografia foi tirada foram excepcionais uma vez que nunca é permitido abordar um gorila no seu estado selvagem”, garante o parque na sua publicação.

Na República Democrática do Congo, o futuro do gorila está em risco. Os conflitos, a actividade mineira e a caça reduziram a população em 80% nos últimos 20 anos. Uma estimativa da população em 2016 mostra que em menos de duas décadas o número de indivíduos desta subespécie passou de 17.000 para 3800.