Canção a canção, prancha a prancha, Helder Moutinho caminha até ao novo disco

Helder Moutinho começou a gravar o seu próximo disco ao ritmo de uma canção por mês e a publicá-las em single, com vídeo e uma BD a acompanhar. Aqui se revela a primeira.

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PEDRO GRANADEIRO/NFACTOS

Um ano depois de rever o seu percurso fadista em Escrito no Destino, espectáculo que estreou no São Luiz e na Casa da Música, Helder Moutinho começa agora a desvendar, uma a uma, as canções que integrarão o seu próximo álbum, a editar em 2020. Está a gravá-las também espaçadamente, uma por mês, à medida que as vai divulgando – em locais diferentes, podendo variar músicos e convidados. Para cada tema, haverá um vídeo e uma prancha de banda desenhada, a cargo de Tomás Rosa. No final, canções, letras e banda desenhada darão forma a um livro-disco.

PÚBLICO -
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TOMÁS ROSA

Porquê este método? Há uma primeira razão, prática, como explica ao PÚBLICO: “Tanto nos espectáculos como na minha casa de fados, quando vamos propor às pessoas a compra de um CD, dizem-nos que já não têm leitor de CD; os carros, agora, também já não têm. E até mesmo quando lançamos um CD, as rádios só tocam um ou dois temas, as pessoas acabam por nunca ouvir o disco todo. Concluí que a melhor forma de fazer com que as pessoas ouçam o trabalho é ir lançando.”

Na prática, é o regresso a uma realidade que já existiu há décadas. “Gravar um tema, lançá-lo e pôr as pessoas a ouvir: aqui está um single. Era uma coisa que havia dantes, quando as editoras lançavam singles e só depois faziam os LP.”

Neste caso, o sistema é idêntico ao que esteve em voga nos anos 1950-60, mas em fases cadenciadas. “É dar às pessoas a oportunidade de irem ouvindo, durante um ano, os temas todos que vão fazer parte de uma compilação; que será um CD mas também será um livro, com as ilustrações, os textos, a traduções dos textos e a música. E o livro é uma coisa em papel, um objecto, que pode interessar às pessoas de uma outra maneira.”

Este método, diz Helder, reflecte também a sua relação com a música: “Nunca gostei de fazer nada que não pudesse ser considerado uma obra. Gravar por gravar nunca foi a minha intenção. Por isso é que só gravo de tempos a tempos, porque gosto sempre de fazer qualquer coisa para ficar para as pessoas. Elas vão ter tempo para ir ouvindo, mês a mês, durante um ano, podendo no final ficar com a compilação de tudo.”

Dizer adeus e regressar

Com cinco discos em nome próprio (Sete Fados e Alguns Cantos, de 1999; Luz de Lisboa, de 2004; Que fado é este que trago?, de 2008; 1987, de 2013; e O Manual do Coração, de 2016), o último dos quais foi muito bem sucedido junto do público e da crítica (Gonçalo Frota atribuiu-lhe cinco estrelas no PÚBLICO), Helder gravou o primeiro tema para o novo disco no Lux Frágil, em Lisboa, com Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, Miguel Silva na viola de fado e Ciro Bertini no baixo acústico.

Nunca parto inteiramente, assim se chama a canção, tem música de Manuel Paulo (da Ala dos Namorados) para um poema de João Monge. Sobre ela, escreveu Helder Moutinho um pequeno texto. Assim: “Adeus é uma palavra infinita, não tem tempo, e a sua realidade é efémera. Podemos dizer adeus e parecer que é para sempre, mas depois reencontramo-nos no dia seguinte. Dizemos adeus à nossa infância, aos nossos amores, às nossas grandes amizades, aos momentos mais importantes das nossas vidas. Mas regressamos sempre... Dizemos adeus aos nossos entes queridos, mas dizemos também que eles não morrem porque ficam sempre naquele lugar do pensamento onde se reúnem todas as reacções do ser humano. Aquelas que nos fazem sorrir e gritar de alegria, chorar e gritar de raiva ou de uma dor tão grande que não nos deixa conter as lágrimas. E depois, tudo o que isto nos transforma. Neste epicentro que atrai e acolhe todas as emoções que vamos guardando. O Coração... Aquele que nos prende a todos os momentos da nossa vida...”

Pelo lugar e pela acústica

Os próximos temas ainda não têm lugar certo de gravação, embora o músico hesite entre uma determinada igreja em Caxias e um palácio em Oeiras. “Ainda estamos na dúvida. Há temas que vão ser gravados na minha própria casa de fados, outros no Museu do Fado ou no Museu da Rádio, na Antena 1. O sítio tem a ver com o espaço, por causa dos vídeos, mas tem de ter boas condições acústicas para a gravação.”

Nas gravações, a base será composta pelos músicos que acompanham Helder Moutinho: Ricardo Parreira (guitarra portuguesa), André Ramos (viola de fado) e Ciro Bertini (baixo), com variações, ou convidados, em função do tema e do tempo.

O áudio de Nunca parto inteiramente, cuja letra aqui se publica em exclusivo, junto com a BD que nela se inspirou, será revelado pela Antena 1. E o vídeo será dado a conhecer nas plataformas digitais no dia 26 de Abril. A gravação do disco será feita numa co-produção da MWF – Music Without Frontiers com o Museu do Fado e tem o apoio da Sociedade Portuguesa de Autores.