Editorial

A matança desta Páscoa

O fanatismo religioso foi sempre um ópio letal. Não saímos do mundo das trevas e isso vê-se a cada atentado terrorista com fundamentos religiosos.

O mundo está em choque com a selvajaria dos atentados nas igrejas e hotéis no Sri Lanka, que causaram mais de 200 mortos, num dia santo para as comunidades católicas. O terrorismo religioso teve agora como alvo cristãos e católicos que hoje, como há 2000 anos, continuam a ser perseguidos - embora a perseguição aos católicos não seja, nos tempos que correm, o assunto mais mediático do momento.

O fanatismo religioso foi sempre um ópio letal. Foi esta cultura do ódio inter-religiões que marcou a nossa civilização e não saímos, parece que nunca mais saímos, disto. Os homens e mulheres que morreram no Sri Lanka estavam a festejar a ressurreição de Cristo, talvez o dia mais importante para os católicos ou estavam tranquilamente a divertir-se nos hotéis de luxo atingidos. Não saímos do mundo das trevas e isso vê-se a cada atentado terrorista com fundamentos religiosos. Aquilo a que chamamos “civilização” é uma coisa incrivelmente frágil.

Rui, o português que morreu num dos atentados, estava em lua-de-mel. O Sri Lanka, um país crucificado pelos ódios inter-religiosos - nomeadamente entre budistas e muçulmanos - que só há 10 anos saiu de uma guerra civil traumática onde morreram mais de 100 mil pessoas, tinha nos últimos anos conseguido emergir do caos como um paraíso para “férias de sonho". A economia melhorava. Os atentados de 2001 não retiraram pessoas a Nova Iorque, mas nem todos os países têm a força de atracção da capital cultural dos States. Os atentados de ontem fizeram recordar a sangrenta guerra civil que devastou o país até há uma década atrás.

Não é que a tensão entre religiões tivesse desaparecido nos últimos anos. Em Março do ano passado, o governo do Sri Lanka foi obrigado a decretar o estado de emergência para travar atentados contra muçulmanos. As comunidades cristãs também têm vindo a ser ameaçadas. Mesmo assim, a tensão entre religiões não era ultimamente visível a olho nu e o Sri Lanka emergia como um país em que na aparência as diferentes religiões estavam a começar a conseguir conviver em paz.

O mundo mostrou o seu choque, incluindo Trump e as suas fórmulas estúpidas de mostrar choque via Twitter - este é particularmente desastrado.

A única nota de esperança é o facto de pessoas de todas as religiões terem acorrido aos hospitais para doar sangue para os feridos. Dar sangue, a ideia de que temos todos o mesmo sangue, independentemente da religião ou origem étnica, é a origem da verdadeira humanidade. E onde há humanidade, há restos de esperança, em luta contra as trevas de que não nos conseguimos ainda libertar.