,Nadav Kander: Corpos: 6 mulheres, 1 homem
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Nadav Kander: a poesia para além da fotografia

Há várias formas de tentar perceber o que é um ser humano. E Nadav Kander ainda não as esgotou. A sua fotografia leva-nos a olhar para além de nós. Este é um portfólio poético sobre a condição humana.

Se trocarmos a palavra fotografia pela palavra poesia torna-se tudo muito mais fácil e belo. É o próprio Nadav Kander quem sugere esta substituição para que o seu trabalho seja compreendido sem hesitações. Nada mais simples do que o exercício semântico para absorver a complexidade de uma obra que sonda a condição humana e que projecta “levar as pessoas a olhar mais longe e mais profundamente”.

O fotógrafo israelita, crescido na África do Sul e a viver em Londres, obteve o prémio de carreira na 12.ª edição dos Sony World Photography Awards, a maior competição do género a nível mundial — cujos prémios se dividem por dez categorias principais, 62 prémios nacionais, e nas quais participaram candidatos de 195 países. A escolha deste ano pela sua outstanding contribuition para a fotografia é alguém cuja obra “não é uma mensagem sobre o significado da vida”, mas sim o “questionamento da existência humana e, particularmente, da sua vulnerabilidade”.

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Nadav Kander

Na retrospectiva que desde esta quinta-feira (e até 6 de Maio) está exposta na Sommerset House, em Londres, onde foi distinguido na véspera, o vocabulário de Nadav Kander extravasa a fotografia e explora a poesia na forma como aborda uma das suas expressões mais frequentes: a condição humana. E como partilhamos nós os nossos sentimentos.

Coerência e desvio

O artista comprou a sua primeira máquina aos 13, influenciado pelas máquinas que a avó guardava num armário lá de casa, e a sua primeira fotografia digna desse nome foi captada pouco tempo depois. Quando Kander olha para essa imagem abstracta de um insecto não tem dúvidas de que, desde esse momento e até às suas séries mais conhecidas, sempre existiu um trajecto coerente. “Sem desvios”, sublinha a negrito.

Em trabalhos como Dark Lines — The Tames Estuary (que ainda não deu por terminado) ou Yangtze — The Long River há uma preocupação omnipresente pela “história da humanidade, pela psicogeografia [que Guy Debord, o seu criador, definia como sendo a total “dissolução das barreiras entre a arte a vida”], por Joseph Conrad ou Charles Dickens”.

Um olhar perscrutador como quando na adolescência, na África do Sul, olhou e fotografou um simples insecto. O olhar sereno de Kander mistura no mesmo poema a fúria do grande rio Yangtze (esta série reúne imagens de seis viagens em cinco anos), e a furiosa intervenção humana no seu leito e nas suas margens, com a actividade humana mais prosaica. “Tento olhar sempre para além de nós”, explica; olhar sempre para mais longe”.

É precisamente isso o que explora numa série intitulada Bodies 6 woman. 1 man, onde os corpos humanos são destituídos de qualquer sensualidade e apresentados como objectos esculturais, nos quais reconhece a influência de Rothko, Bacon ou do fotógrafo norte-americano Edward Weston.

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Kander é também conhecido pelos seus retratos, de rostos famosos como os de Barack Obama, Boy George, a tão icónica foto de David Lynch, Dennis Hopper, ou até de uma interpelativa imagem de Donald Trump de costas (quase) voltadas para a objectiva. Kander foi também o autor da série Obama’s people, publicada no The New York Times, um registo exaustivo de quem acompanhou o ex-presidente em Washington.

O que move Kander é essa procura pelo desconhecido, num percurso que não tolera desvios, mas que exige sempre multidiversidade. Há várias formas de tentar perceber o que é um ser humano. E Nadav Kander ainda não as esgotou.