Um milionário surrealista no recomeço da colecção Livro B

Cientista, compositor e nome cimeiro da literatura fantástica suíça, Maurice Sandoz foi uma das mais fascinantes figuras dos meios culturais europeus de meados do século XX.

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Recordações Fantásticas na nova série colecção Livro B
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A primeira edição portuguesa de Recordações Fantásticas
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O túmulo de Marice Sandoz

O desconcertante humor negro de Maurice Sandoz adequa-se exemplarmente à colecção Livro B, que a E-Primatur agora se propõe ressuscitar, e o lançamento destas suas Recordações Fantásticas vem relembrar um autor cujos últimos livros editados em Portugal datavam já dos anos 50.

Nascido em Basileia, na Suíça, em 1892, o escritor, que viria a participar no movimento surrealista e a tornar-se um autor de culto no domínio da literatura fantástica, era filho do fundador da farmacêutica Sandoz, empresa que é ainda hoje um dos gigantes do sector, e cujo longo historial inclui a descoberta fortuita do LSD em 1938.

Apetrechado com uma exigente formação científica e um doutoramento em química, o próprio Maurice começou por dedicar-se à investigação laboratorial antes de se entregar mais exclusivamente às suas inclinações artísticas, vocação que aliás já corria na família: o pintor suíço Émile-François David era seu tio e o seu irmão mais velho, Édouard-Marcel Sandoz, foi um escultor ligado aos movimentos da Arte Nova e da Art Déco que se especializou na figuração de animais.

Impedido de prosseguir a sua carreira de investigador devido a problemas oftalmológicos, dedicou-se a reunir uma vasta colecção de obras de arte, pedras preciosas, relógios antigos e, sobretudo, autómatos mecânicos fabricados nos séculos XVIII e XIX, hoje conservados no museu de Locle, berço da indústria relojoeira suíça. Ao mesmo tempo iniciava uma discreta carreira musical, compondo obras influenciadas por Debussy e Fauré. Uma suite sinfónica que dedicou a Serge Diaghilev foi apresentada em Montreux, em 1913, sob a direcção do maestro Ernest Ansermet.

Enquanto escritor, publicou poesia e drama, mas é hoje sobretudo lembrado pelos seus contos, e em particular pelas Recordações Fantásticas que abrem este novo volume da Livro B, histórias que se apresentam como recordações pessoais e familiares do autor e que muitas vezes fornecem, como as de G. K. Chesterton, uma explicação racional para fenómenos aparentemente sobrenaturais –​ com a diferença de que, em Sandoz, a realidade é sempre ainda mais improvável e delirante do que a fantasia que vem dissipar.

Com uma enorme fortuna à sua disposição – doava grandes somas para fins sociais e culturais –, as suas obras eram geralmente publicadas em restritas edições de luxo, como sucedeu com a primeira edição das Recordações Fantásticas, de 1936, valorizada com desenhos do seu amigo Salvador Dalí, que este volume da Livro B reproduz. Dalí ilustrou também outras obras suas, como O Labirinto (1941), Das Haus Ohne Fenster [A Casa Sem Janelas], de 1948, ou O Limite (1954).

Grande viajante e dotado poliglota (escrevia em cinco línguas, incluindo português), Sandoz andou por África e pelo Extremo-Oriente, escreveu livros de viagens sobre o México e o Brasil, viveu algum tempo em Nova Iorque, radicou-se durante vários anos em Itália, onde tinha casa em Roma e dm Nápoles, mas também passou uma temporada em Lisboa, em meados dos anos 50, provavelmente no chamado Edifício Sandoz, no n.º 4 da Rua São Caetano, uma das moradas que indicava para recepção de correio.

É provável que não seja coincidência o facto de as três únicas edições anteriores de Sandoz em Portugal datarem justamente desse período. De 1955 a 1957 saíram, ao ritmo de um volume por ano, em cuidadas edições ilustradas com desenhos de Dalí e distribuídas pela Editorial Organizações, Recordações Fantásticas e Três Histórias Singulares, O Labirinto e O Limite.

Maurice Sandoz foi também um generoso filantropo, que criou diversas bolsas e prémios culturais e científicos e distribuiu avultadas somas para fins sociais. O escritor colaboracionista francês Paul Morand, que o conheceu no pós-guerra, quando esteve exilado na Suíça, chamava-lhe “o Luís II da Baviera do Léman”, já que Sandoz tinha um palácio em Burier, junto àquele lago.

No dia 5 de Junho de 1958, Maurice-Yves Sandoz, então com 66 anos, suicidou-se durante um internamento numa clínica psiquiátrica de Lausanne. Três anos antes, tinha feito reconstruir pedra a pedra, numa outra propriedade que possuía na Chardonne, um pavilhão de inspiração neo-clássica, desenhado pelo arquitecto Henri Perregaux, que comprara quando ia ser demolido. Foi aí que o seu irmão Édouard sepultou os seus restos mortais, numa escarpa sobranceira ao Léman.