Crítica

Com o teclado nas nuvens

Jetstream é um jogo de puzzle em que, para chegar ao destino, é preciso contornar as adversidades com a massa cinzenta. No final, fica a sensação de que uma porção da criatividade merecia mais desenvolvimento.

Fotogaleria
,Videogames
Fotogaleria

Jetstream coloca-nos a controlar um avião, mas não nos moldes em que estarão a pensar. Não há que memorizar termos técnicos, nem sequer estar atento a pés ou a sistemas de navegação. Publicado recentemente no PC e com versões prometidas para Android e iOS, estamos perante um charmoso e pouco complicado jogo de puzzles, que tem precisamente no rasto deixado pelo avião o cerne de quase todas as suas mecânicas.

Depois de ter terminado a versão para PC, torna-se evidente que a produtora Clockwork Acorn desenvolveu um título que se presta a sessões curtas e esporádicas.

Sempre que começamos um nível, o jogo escolhe onde coloca o nosso avião, com o jogador a conseguir movimentá-lo para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita. É possível ainda anular esses movimentos deslocando a aeronave no sentido oposto. Jetstream é um jogo simples de compreender. As complicações chegam com as variantes e condicionantes dos cenários.

O rasto deixado pelo avião é sólido, ou seja, não o podem cruzar enquanto fazem movimentos pelo céu – aqui apresentado como se fosse um tabuleiro. Além disso, quando deslocam o avião numa das direcções, este só pára para quando encontrar algo sólido: os limites do cenário, o seu próprio rasto, ou nuvens ou obstáculos estrategicamente colocados para testarem a nossa massa cinzenta.

O objectivo de Jetstream é chegar ao destino marcado nos cenários com um ponto encarnado. E são aqueles obstáculos que compõem o nervo das adversidades que teremos pela frente.

No final do jogo, surgem outros factores, como os limites removidos nos cenários, o que faz com que o avião volte à área no lado oposto à saída. Ou nuvens que desaparecem e aparecem consoante os vossos movimentos. Mas o cerne são as alterações ao comportamento do avião. Por exemplo, há pontos no cenário que transportam o avião da entrada para uma saída noutro lugar, como se desafiassem as leis espaciais.

Sem nunca se tornar um verdadeiro pesadelo lógico, Jetstream apresenta ainda partes em que o avião se transforma num veículo terrestre e há nuvens com um cadeado – precisam de passar com o avião por cima da chave para as desbloquear e fazer desaparecer

Nada disto é demasiado penalizador. É tão fácil andar para a frente como para trás. Ou seja, mesmo quando ficam presos num cenário, estarão perante uma obra que instiga a experimentação, não cobrando pelas tentativas que saem completamente ao lado. Isto revelou-se um ponto a favor quando nos últimos dois capítulos se sentiu finalmente que o jogo nos estava a pedir toda a concentração e dedicação à lógica. E quando a produtora tinha oportunidade de manter esta dificuldade para testar verdadeiramente os jogadores, chegam os créditos finais.

Na prática, sente-se a criatividade e a temporização das novas técnicas para que a jogabilidade não fique precocemente estagnada. Porém, essa novidade constante chega em detrimento do aprofundar daquilo que já foi dado a conhecer. Isto pode ser frustrante para os fãs que gostam das mecânicas, mas que estão habituados a puzzles mais exigentes.

Não seria certamente menos interessante se algumas das mecânicas tivessem mais tempo para brilhar. Por exemplo, quando o avião se transforma numa carrinha e tem que percorrer partes dos mapas por terra, é evidente que estamos perante algo que poderia ter mais ramificações. Há muito que resulta bem para duas tardes dedicadas ao jogo, mas há algo que revela quase insegurança no design.

É nos departamentos técnicos que Jetstream sublinha a sua índole tranquila e quase zen. Não só os cenários se apresentam em tons pastel assentes em texturas sólidas e estilizadas, como a banda sonora faz tudo para não perturbar. Até os efeitos visuais dados aos obstáculos contribuem para este quadro – quando o avião cai numa nuvem negra, não há dramatismo, piscando apenas antes de ficar imobilizado.

Este estilo gráfico é um risco, pois qualquer exagero ou deslize e ficamos com uma obra esterilizada e sem carisma. Felizmente, isso não se verifica em Jetstream. Aliás, um exercício que serviu para atestar que a sonoplastia foi pensada para tranquilizar é ter servido como melodia à escrita desta análise sem nunca distrair. Sendo sempre tocada com a mesma base, apresenta temas que não soam sempre ao mesmo.

Jetstream é o pegar na aviação e transportá-la para um género completamente diferente da simulação ou da pilotagem. Ao fazê-lo com uma plasticidade charmosa e apelativa, a Clockwork Acorn aposta nos puzzles sem recurso a calculadora, régua e esquadro. A constante edição da jogabilidade é de saudar, mas com um efeito secundário: algumas mecânicas não amadurecem nem brilham tanto quanto o impacto inicial prometia.