Paulo Pimenta

Pampilhosa perdeu a sua fábrica histórica: era mesmo inevitável?

Câmara da Mealhada demoliu antiga Fábrica das Devesas da Pampilhosa por questões de segurança. Historiador Francisco Queiroz fala da perda de uma das mais belas e relevantes “peças” do património industrial português. Assunto é discutido esta quinta-feira na autarquia

Para o presidente da Câmara da Mealhada, Rui Marqueiro, era uma questão de segurança. Para o historiador Francisco Queiroz foi uma decisão “miserável” que destruiu “a galinha dos ovos de ouro da Pampilhosa”. Para a associação de defesa do património local, nem tudo está perdido. A polémica instalou-se na Mealhada a semana passada, quando o edifício central da antiga fábrica das Devesas na zona centro do país foi demolido por ordem municipal. Esta quinta-feira, o assunto será debatido numa reunião de câmara extraordinária. No lugar da antiga fábrica deverá nascer um parque de estacionamento.

Quando os relatos de “perda de sustentabilidade” do edifício junto à linha ferroviária chegaram a Rui Marqueiro, o socialista pediu uma avaliação do problema. Dessa, explicou ao PÚBLICO, saiu a conclusão da existência de “perigo de atingir a catenária”, o sistema de distribuição e alimentação eléctrica aérea do caminho-de-ferro. “Se algo acontecesse ali era da nossa responsabilidade”, comentou para logo confirmar a ordem saída do seu gabinete depois de consultada também a Infra-estruturas de Portugal: “Foi demolida uma parte. Ficaram duas torres, onde estão os painéis de azulejos e algumas imagens com mais valor. Estamos a tentar não demolir isso.”

PÚBLICO -
Foto
Câmara diz que a fachada estava em risco e podia “atingir a catenária” Paulo Pimenta

Para a autarquia, a polémica não passa de um “movimento político”. E as acusações de destruição de património são ilegítimas: “A fábrica foi comprada em ruínas e estava em ruínas. Nem estava classificada. Que as pessoas gostassem dela é outra coisa.”

Francisco Queiroz, estudioso de património há mais de 25 anos, faz uma avaliação diferente. E sem eufemismos: a demolição do corpo central do edifício, datado de 1900, é “miserável e absurda”. Em vídeos e fotografias partilhados nas redes sociais, diz ter visto um dos episódios “mais tristes dos últimos anos” no que a destruição de património diz respeito. E recorda, para início de conversa, que definir o que tem ou não valor patrimonial “não cabe aos autarcas”. Ainda que houvesse um “perigo eminente” de ruir, sugere, a solução teria de ser outra: “Fazer uma demolição controlada, retirando primeiro o que lá está, e reconstruir depois.”

PÚBLICO -
Foto
Imagem dos primeiros anos do século XX DR/ Francisco Queiroz

A Câmara da Mealhada comprou em 2011 a antiga fábrica, já em mau estado de conservação, e anunciou a intenção de ali erguer um núcleo museológico e fazer um parque de estacionamento de apoio à estação de comboios. Nessa altura, Rui Marqueiro ainda não estava à frente dos destinos da autarquia e, quando lá chegou, em 2013, diz ter encontrado um vazio. “Projecto em concreto nunca houve”, afirmou: “A única coisa que subscrevo é fazer naquele espaço um estacionamento.”

Actas de várias reuniões camarárias mostram, no entanto, haver planos de mais. A 26 de Dezembro de 2013, por exemplo, deliberou-se por unanimidade “aprovar a proposta de intervenção preconizada pelo ITECONS”, onde se definem os “edifícios a demolir e fachadas a preservar”. No programa estratégico de reabilitação urbana da Pampilhosa, de Maio de 2018, são mencionados os planos para requalificação do “vazio urbano” da área industrial da antiga fábrica. Não se equaciona a construção de um núcleo museológico. Mas além do estacionamento e de um atravessamento aéreo da linha de caminho-de-ferro, existe a ideia de fazer “contenção” ou “tratamento” das fachadas do edifício, “permitindo afirmar a imagem urbana associada à memória e identidade sociocultural da Pampilhosa”.

Por agora, o plano parece estar posto de lado. O GEDEPA - Grupo Etnográfico de Defesa do Património e Ambiente da Pampilhosa foi surpreendido pela acção das máquinas. Em reunião com Rui Marqueiro, foram informados sobre o “perigo eminente de queda da fachada” e a impossibilidade de a preservar. E no local confirmaram o mau estado da mesma. Sem argumentos técnicos para debater essa visão, explicou ao PÚBLICO João Pedro Marques, do GEDEPE, bateram-se para que o património mais importante não se perca de vez. “O forno, ainda da construção inicial, e os túneis por onde se fazia a alimentação da fábrica” são para o grupo local os dois elementos de maior relevo. Com eles e outros elementos, defendem, poderá ser pensado para ali um “núcleo museológico que preserve a memória do barro em Pampilhosa”.

PÚBLICO -
Foto
Zona demolida tinha sido construída em 1900 Paulo Pimenta

Francisco Queiroz recolhe elementos históricos sobre esta sucursal da Fábrica das Devesas de Gaia, “a mais importante do país em materiais de construção”, há já duas décadas. Habituou-se a apreciá-la nas viagens de comboio, a ouvir comentários de gente intrigada (“Que palácio é este?”), visitou o seu interior. “Muita gente diz que o património industrial não é bonito. Aquela era a prova de que isso não é verdade.”

Em Gaia, há um projecto de transformação da Fábrica das Devesas num museu da cidade e da cerâmica, onde haverá também estacionamento, mas subterrâneo. O PÚBLICO questionou a autarquia sobre datas do início da empreitada, mas não obteve respostas. 

Catalina Lupan não podia estar mais de acordo. Durante dez anos, passou pela antiga fábrica quase todos os dias, deixando-se encantar com a beleza e a história do espaço sem imaginar ainda fazer dela objecto de estudo. Agora, estudante no mestrado de reabilitação da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, tinha decidido estruturar a sua tese à volta daquele espaço. “Ia começar este Verão”, contou.

A degradação da estrutura, diz, mostrava já uma “negligência” com muito anos. Mas a morte antecipada era, ainda assim, evitável. Para aquele território imaginou o aparecimento de um centro interpretativo, com um museu da cerâmica, a história do edifício e das pessoas que por lá passaram. Para Catalina, nascida na Pampilhosa há 23 anos, ver o “património ser maltratado” é motivo de tristeza e apelo à acção. Por isso, depois de reflectir, decidiu manter o objecto da tese: “Ainda que seja uma proposta utópica, do que poderia ter sido e já não será.”