Depois, vai-se a ver e nada é o novo programa de late night da RTP (e “a filosofia do país”)

José Pedro Vasconcelos pendurou-se num outdoor no centro de Lisboa para falar do talk-show que se estreia a 3 de Maio e que uma vez por mês sairá da capital.

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Os programas de late night são tradicionalmente espaços interiores, salas de estar com gente à conversa – vai daí que a RTP anunciou o seu novo talk-show de sexta-feira à noite na rua, com o anfitrião José Pedro Vasconcelos lá em cima, colado a um outdoor no centro de Lisboa. Depois, vai-se a ver e nada é o nome do programa que vai completar os finais de noite da RTP1. Terá um convidado central, pequenos “conteúdos quase lunares” que só existirão na Internet e sairá de Lisboa uma vez por mês.

O cenário da tarde desta quarta-feira ajustava-se ao espírito de um dia em que os transportes foram um tema central, com o outdoor em que o apresentador estava pendurado colocado ao lado da entrada do metro e dos comboios de Entrecampos, junto ao gigantesco baldio que antes era a Feira Popular. Os turistas espantavam-se e José Pedro Vasconcelos, com o seu microfone, explicava que a RTP “é como a BBC mas com menos orçamento”. Um carro cheio acenava-lhe na Avenida da República e o anfitrião correspondia com entusiasmo: “É cagar nas novelas!”, ria-se.

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Depois, vai-se a ver e nada completa os fins de noite da RTP1 que já têm Fernando Alvim às terças (Prova Oral), Herman José às quartas (Cá por Casa) e Filomena Cautela (5 Para a Meia-Noite) às quintas nos seus programas late night. No mesmo horário, das 22h30 em diante — Depois, vai-se a ver e nada está previsto para as 23h30 —, os generalistas concorrentes transmitem os seus blocos de novelas e a direcção de programas de José Fragoso quer continuar a oferecer algo diferente. E com a “irreverência” que Fragoso associa ao actor e apresentador agora de regresso a um horário onde deixou marca entre 2012 e 2015, quando 5 Para a Meia-Noite passou da RTP2 para a RTP1.

O novo programa de José Pedro Vasconcelos arranca a 3 de Maio e terá uma duração de cerca de 70 minutos. Será em directo, como explicou ao PÚBLICO o produtor Pedro Cardoso, da Warner, num cenário que tenta ser “mais simples e moderno” mas não fugir à atmosfera de sala-de.estar dos programas do género. Espaço de entrevistas, actuações, a presença do público e a saída de Lisboa e do estúdio para ir ao encontro das “personagens da terra, empreendedores, artistas, indústrias, apelar à economia regional”, serão o menu programa, como resume Vasconcelos do alto do seu cartaz humano.

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Na SIC Radical, na televisão por subscrição, estão alguns dos modelos do late night – os norte-americanos Late Show with Stephen Colbert ou Late Late Show with James Corden, e, na HBO Portugal, Last Week Tonigh with John Oliver. São salas-de-estar com gente à conversa e, como o modelo implantado por Cristina Ferreira nas manhãs da SIC com a sua casa televisiva ou Herman José com o seu Cá Por Casa, mostram quase uma vontade doméstica da televisão.

José Pedro Vasconcelos transita de quatro anos e meio de televisão diurna a falar para “o público muito fiel” da RTP, mais envelhecido, para as noites onde José Fragoso quer apelar às audiências mais jovens e ao potencial digital e até viral. Isso vai ser feito com conteúdos exclusivos para a Internet. “Queríamos muito que a Internet e as plataformas digitais nos servissem para dar uma lua nova do convidado. Um convidado sem luz — como é que ele brilha?”, responde José Pedro Vasconcelos do outdoor. Fazer isso, em televisão, “funciona com o capital de simpatia” do apresentador junto do público, reflecte. E da familiaridade de um telemóvel que vai filmar esses conteúdos. “A disponibilidade encolhe na proporção da câmara. Quanto mais pequeno for o objecto que te está a interpelar, mais fixe se torna a disponibilidade das pessoas.”

O título do programa e a atitude do apresentador — “Tenham as expectativas muito baixas. Não estou no meu melhor momento de forma” – evocam uma maneira de estar que parece geracional no humor, a lembrar os Gato Fedorento e o trunfo que é a auto-depreciação preventiva, mas também uma visão de Portugal pela janela dos chavões. No fundo, a frase Depois, vai-se a ver e nada “encerra em si quer a filosofia do programa, quer a filosofia do país: tudo em Portugal termina com um enorme ‘depois vai-se a ver e nada’, transferimos isso para o universo da comédia e para um espectáculo de final de semana”, sintetiza o anfitrião. “Vamos tentar ver se o nada é um sítio porreiro, que não seja como a Feira Popular.”

Depois, vai-se a ver e nada foi criado por Francisco Abelha, Mariana Roxo e José Pedro Vasconcelos e terá textos dos três autores, bem como de João Quadros, Jorge Amaral, Pedro Ribeiro e Pedro Malaquias. 

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