Portugueses dependurados, crânios, autocarros: A Paixão segundo Romeo Castellucci no CCB

Paixão segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach, chega esta semana ao CCB pelas mãos do encenador italiano. Asséptica como um laboratório, cirúrgica como um espelho sobre Lisboa, conta com a Orquestra e o Coro Gulbenkian e o maestro Michel Corboz.

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É, então, branca, A Paixão segundo Castellucci Nuno Ferreira Santos
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A Paixão Nuno Ferreira Santos
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O Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB) vai ser uma grande tela em branco para o encenador italiano Romeo Castellucci onde caberão crânios, autocarros, portugueses dependurados e o Evangelho. A Paixão segundo Romeo Castellucci é uma encenação cirúrgica como a superfície de um espelho a mostrar Lisboa a si mesma. Asséptica como um laboratório que analisa e encena uma das obras-primas da música sacra que é Paixão segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach, está no CCB esta terça e quarta-feira.

Em plena Semana Santa, Lisboa recebe A Paixão com a Orquestra e o Coro Gulbenkian em palco para interpretar este oratório sobre o sofrimento e sacrifício de Cristo. Michel Corboz é o maestro e Ana Quintans a soprano e Marianne Beate Kielland a meio-soprano. Piersandra Di Matteo assina a dramaturgia, Sílvia Costa assina a colaboração artística e Inês Correia e Tânia Afonso encarregaram-se da pesquisa e adereços em Portugal (cada encenação é site specific e inclui objectos que funcionam como vocábulos próprios da cidade onde se desenrolam as cerca de duas horas e meia de espectáculo). Todos ajudam a contar uma história basilar da cultura ocidental e a interpretar Bach, esse compositor “fortemente europeu — temos um forte sentido de identidade em torno de Bach”, nota Romeo Castellucci ao telefone com o PÚBLICO, dias antes de subir o pano.

Castellucci não está interessado em saber se as suas peças são chocantes — mas que quer uma reacção, quer. Quando a sua encenação d’A Paixão chegou a Hamburgo, em 2016, escrevia a revista Der Spiegel que a sua reputação o precedia e fazia temer o pior. Mas esta peça não traz consigo a escatologia ou os temas fracturantes que marcam a carreira do encenador italiano. Traz outras inquietações. “Não gosto da palavra ‘provocador’, é uma coisa estúpida”, diz o encenador italiano sobre um dos epítetos que normalmente o acompanham. “Prefiro muito mais a palavra ‘escândalo’. Porque vem do grego ‘skandalon’, que significa uma pedra no caminho que tem de se ultrapassar. Um obstáculo. Gosto dessa ideia de que uma imagem tem o poder de nos fazer parar, de nos fazer pensar e reconfigurar a nossa atenção, o nosso olhar, o nosso ouvido”, reflecte.

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Romeo Castellucci Luca Del Pia

No fundo, e também com A Paixão, ele só quer ser uma pedra no caminho do público. “A única forma de fazer teatro hoje é ter contacto com o espectador. O teatro é a única linguagem artística a que podemos chamar ‘arte de contacto’. Sem contacto não há teatro e o espectador não é só o destino do teatro, mas o seu reflexo, o outro lado do próprio teatro. Por isso é muito importante que o corpo de todos os espectadores seja alvo do que alguns chamariam provocação, de que não gosto, ou de escândalo, de que gosto. Mas na verdade não quero saber dos rótulos no meu trabalho.” Produzindo imagens nesta sua visão d’A Paixão, na verdade quer rejeitar qualquer tentativa de ilustrar, como defende Piersandra Di Matteo. A necessidade de interpelar o público é de maior importância quando se trata de Bach e da violência implícita na Paixão de Cristo.

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A peça "Purgatorio", baseada na Divina Comédia de Dante, foi levada por Castellucci ao Festival de Avignon em 2008 Boris Horvat/AFP (arquivo)

“A Bíblia é um livro que fala de violência do princípio ao fim”, considera Castellucci, “a forma como vemos Jesus é sob a luz da violência”. Mas acredita que foi terno com a violência desta história de sofrimento e morte de Cristo, apesar de “o teatro também ser violência”. Essa ternura é ter convidado 13 portugueses com idades compreendidas entre os 11 e os 77 anos a dependurar-se à vez em palco para ilustrar o excerto do Evangelho de São Mateus que representa como Jesus é crucificado no Gólgota. É que o peso dos condenados à crucificação causava a morte por asfixia e é nesse aspecto fisiológico, técnico quase, da morte na cruz — que constitui “o clímax de qualquer violência no imaginário colectivo” — que interessou a Romeo Castellucci.

Os figurantes (em cada país são homens, mulheres e crianças naturais dessa região) suportam o peso do seu corpo durante o máximo tempo possível. “Sem estereótipos. Não há sangue. A boa violência é a que consegue esconder-se. Ser crucificado significa sermos donos do nosso corpo. Somos crucificados pelo nosso corpo na nossa vida. O nosso corpo não foi escolhido por nós”, diz o encenador ao telefone a partir de Itália.

É, então, branca, A Paixão segundo Castellucci. Até a orquestra e o coro usam branco, num palco branco, num fundo branco. A forma como diferentes adereços entram em palco tem a delicadeza de um leiloeiro antes de vender um obra-prima ou de um patologista no laboratório mais tóxico. É, naturalmente, uma referência iconográfica. “O ambiente asséptico consegue rodear melhor a ferida. Conseguimos ver as crostas, conseguimos ver os pedaços e a fragilidade de um ser humano. O branco, claro, é o branco do cordeiro”, explica Romeo Castellucci. Gosta de brincar com as referências, com o vocabulário cirúrgico ou religioso. Exemplifica: “Antes de entrar em cena, o maestro tem de lavar as mãos – como um cirurgião ou como um padre, se quisermos.”   

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Ensaio de A Paixão no CCB Nuno Ferreira Santos

Isso implica consequência para o espectador, que assiste à procissão de entrada de objectos carregados de imagens — o crânio de um homicida-suicida recolhido no Instituto de Medicina Legal de Lisboa que é a vinheta para Judas que vende Jesus por 30 denários, o autocarro da Isidoro Duarte que desliza palco dentro quando Entre os Apóstolos, reunidos no Cenáculo, Jesus institui a Eucaristia. São-nos mostradas informações sobre empresas de limpeza e cordeiros embalsamados, oferecem-nos uma partida de luta grego-romana, expõem-se máquinas de lavar e dados sobre o nascimento de bebés. O sangue “de Jesus” é analisado por especialistas, um amputado português conta a sua história. Sempre com Bach, a orquestra e o coro a preencher os espaços. Ou será ao contrário?

Romeo Castellucci tem uma “curiosidade antropológica”, admite, pela forma como os diferentes públicos recebem a sua encenação, visto que ela quer ser um espelho frente a eles, frente às suas cidades. Esta Paixão “será um retrato de Lisboa através dos seus habitantes e podemos dizer que é uma espécie de reflexo da comunidade segundo a narração dos evangelhos. É uma narração para o povo, para a cidade”.