Morreu a actriz Bibi Andersson, presença magnífica no cinema de Bergman

Tinha 83 anos e trabalhou durante décadas com o realizador sueco. Era um dos rostos mais reconhecíveis do seu cinema. Persona, um dos títulos mais importantes da filmografia de Bergman, não seria o mesmo sem ela — sem a sua presença e, sobretudo, sem a sua voz.

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Bibi Andersson numa das cenas de Persona 1966 United Artists/Getty Images
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Bibi Andersson (primeiro plano) com Liv Ullmann em Persona, de Ingmar Bergman DR
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Miroslav Zajic / Getty

Começou a sua carreira na publicidade quando era ainda adolescente e quando Ingmar Bergman dirigia anúncios para a televisão. Foi o sabão Bris que os juntou. E assim ficaram durante quase 40 anos, no cinema e no teatro. Era ela a Alma de Persona, seguramente um dos mais importantes dos seus papéis. Bibi Andersson, que morreu este domingo aos 83 anos, integrou o elenco de 90 filmes, 12 deles com o cineasta sueco sentado na cadeira do realizador.

Musa de Bergman e um dos rostos do cinema europeu, Andersson não deixou de trabalhar com realizadores de Hollywood e nunca virou as costas ao teatro. Muito pelo contrário. Também pela sua carreira em palco, notável sobretudo na interpretação do reportório do dramaturgo Henrik Ibsen, recebeu inúmeros prémios.

A notícia da sua morte está a ser avançada pelo jornal sueco Göteborgs-Posten, pelo diário norte-americano The Washington Post e pela agência de notícias EFE. A causa da morte não foi ainda revelada, mas os jornais suecos recordam que Andersson terá sofrido um AVC em 2009 que a obrigou a afastar-se da vida pública e que, desde então, morava numa residência assistida em Estocolmo.

“Ela estava doente há muitos anos, mas é muito triste”, disse ao jornal sueco Aftonbladet Christina Olofsson, realizadora e sua amiga, confirmando que a actriz morrera neste domingo, por volta da hora do almoço. “É como se toda uma era ficasse fora do tempo. Ela era uma grande actriz e uma grande humanista. Mesmo politicamente era muito empenhada. Trabalhava para a cultura e para o homem.”

Para além da sua enorme importância no cinema do seu país, lembrou ao mesmo jornal Jan Göransson, porta-voz do Instituto do Cinema sueco, Bibi Andersson tinha uma “extraordinária reputação internacional”, um “estatuto” semelhante ao de estrelas como Greta Garbo ou Ingrid Bergman. “Por isso diria que, hoje, é todo o mundo do cinema que chora a sua morte.”

Presença magnífica

Bibi Andersson foi uma figura fundamental no universo do cinema de Ingmar Bergman e, com Harriet Andersson ou Liv Ullmann, uma das suas actrizes mais importantes e recorrentes. Fizeram 12 filmes juntos, entre 1955 (Sorrisos de Uma Noite de Verão) e 1973 (Cenas da Vida Conjugal), para além de outras colaborações, sobretudo no teatro.

Dos muitos papéis relevantes que desempenhou para Bergman, onde era sempre uma presença magnífica, sempre plena daquela mistura de luz e sombra que o cineasta captou magistralmente, o mais emblemático será o da enfermeira Alma em Persona (1966), contracenando com Liv Ullmann, numa relação misteriosamente vampírica. Embora Bibi Andersson tivesse sido sempre fabulosa em todo o trabalho com Bergman, esse filme (e o sucesso mundial dele) fixaram-lhe uma imagem. Que atraiu Hollywood e o cinema americano: veio depois a trabalhar com John Huston (The Kremlin Letter) ou Robert Altman (Quintet), nos anos 70.

O ritmo de trabalho em cinema abrandou a partir da década de 80, e talvez os últimos filmes memoráveis que fez sejam A Festa de Babette (de Gabriel Axel, que reunia vários actores bergmanianos) e, já nos anos 90, um filme de Marco Bellocchio (Il Sogno della Farfalla), onde tinha uma pequeníssima “participação especial”.

Sempre Persona

Nascida em Novembro de 1935, em Estocolmo, Berit Elisabeth Andersson, que faria todo o seu percurso de actriz como Bibi Andersson, quis estudar no Teatro Real de Estocolmo enquanto a sua irmã mais velha, Gerd, optava pelo canto lírico na Ópera da capital.

Em 1956 juntou-se aos actores de Bergman no histórico Malmö, um teatro municipal, onde integrou o elenco de The Legend, do realizador e dramaturgo sueco, que viria depois a revisitar numa produção do Teatro Real, sete anos mais tarde. Foi nesse mesmo palco de Estocolmo que assumiu papéis de protagonista em After the Fall, de Arthur Miller, e Who’s Afraid of Virginia Woolf, de Edward Albee.

Quando chegou a Persona, Bibi Andersson já sabia o que esperar de Bergman no palco, no plateau e fora de ambos. Neste filme de 1966 convive de perto — de muito perto — com Ullmann. Ela é Alma, uma jovem enfermeira encarregue de tratar de uma actriz de renome, Elisabet Vogler (Ullmann), que teve um colapso nervoso e deixou de falar no momento em que dava corpo à Electra de Eurípides. Retiradas para uma casa de férias junto ao lago, onde a médica que acompanha a actriz espera que Vogler recupere, as duas mulheres começam a desenvolver uma relação intensa, de grande intimidade e marcada pelo erotismo.

Alma, que está prestes a casar-se, faz inúmeras confidências a Elisabet no intuito de a levar a recuperar a sua própria voz. Conta-lhe das suas desventuras amorosas com um homem casado e, num dos momentos que ficariam inscritos na história do cinema europeu, descreve-lhe uma orgia em que participou, na praia. Relatos pessoais que a actriz depois partilhará, numa carta, com a direcção do hospital em que a enfermeira trabalha, traindo a sua confiança.

Em 2007, falando do processo de trabalho com Bergman e em particular deste Persona, Bibi Andersson recordaria perante uma plateia que se reuniu para a ouvir na Brooklyn Academy of Music que perguntou ao cineasta por que razão insistia em que ela interpretasse o papel de alguém tão ingénuo quando tudo o que ela queria era algo “complexo”, “sofisticado”. E em seguida ensaiou uma explicação para a insistência do cineasta: “Eu e a Liv já tínhamos trabalhado juntas e éramos muito próximas”, recordou naquela noite em Brooklyn, Nova Iorque. “Ele apercebeu-se da nossa amizade e quis… entrar nela.”

Do que não falou foi do contexto pessoal desta rodagem — também Bergman a conhecia na intimidade já que os dois, até ali, formavam um casal. O que aconteceu, então, no plateau, foi que o cineasta voltou a sua atenção para a silenciosa Elisabet/Ullmann. “Ele quase que transformou o filme numa coisa entre um homem e uma mulher! Bom… Quando se trata de duas mulheres as coisas nunca ficam tão complicadas.”