Assis reconhece que familygate “gera algum desgaste” no PS

PS continua a descer nos estudos de opinião ao contrário do PSD, que cresce nas intenções de voto dos portugueses. Socialistas admitem que nomeações de familiares podem ajudar a explicar a descida nas sondagens, mas acreditam que em Outubro isso não vai pesar tanto.

Francisco Assis
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Público/Rui Gaudêncio

Os efeitos das relações familiares directas e indirectas no Governo podem estar a reflectir-se nas intenções de voto dos portugueses. Os socialistas continuam na frente, mas com uma tendência de perda, como evidencia o mais recente barómetro da Aximage para o Jornal de Negócios e Correio da Manhã, publicado esta sexta-feira, que mostra o PS a descer e o PSD a subir. A um mês das eleições europeias, os dois partidos estão com uma diferença de sete pontos percentuais.

De acordo com o estudo, o PS surge com 34,6% das intenções de voto. Já o PSD recolhe um resultado surpreendente: 27,3%. Estes números mostram uma queda continuada do PS, com menos 1,7 pontos percentuais em relação ao mês anterior, enquanto o PSD sobe 3,4%. No âmbito deste estudo, os inquiridos foram questionados sobre o impacto das nomeações familiares no Governo e 62% criticam a escolha de parentes para gabinetes ministeriais. Ontem, o escândalo das nomeações fez mais uma baixa no Governo: João Ruivo, assessor da secretária de Estado do Desenvolvimento Regional e marido da secretária de Estado da Cultura​, pediu a demissão.

Para o eurodeputado Francisco Assis, “é provável que, momentaneamente, o assunto das famílias, que é uma questão complexa, esteja a gerar algum desgaste”, mas, ao mesmo tempo, garante que o tema “não penalizará o partido a ponto de alterar substancialmente os resultados eleitorais”.

Sublinhando que os inquiridos no âmbito das sondagens “não conseguem distinguir uma coisa da outra”, Assis explica em declarações ao PÚBLICO que, “o que se responde numa sondagem, é diferente daquilo que se responde no momento do voto” porque “no momento do voto há uma densidade da decisão muito maior”. 

O cabeça de lista dos socialistas às europeias de 2009 e 2014 precisa que “no momento decisivo as pessoas vão votar em função das alternativas e a verdade é que hoje não há grandes alternativas ao PS”. Além disso, Francisco Assis aponta resultados objectivos nalguns aspectos da política governativa que, na sua opinião, são positivos e que favorecem os socialistas como a “questão do défice orçamental, a preocupação em manter Portugal completamente ligado ao projecto europeu e o prestígio de António Costa na Europa”.

Álvaro Beleza, dirigente nacional do PS, admite, por seu lado, que “o PS talvez estivesse mais confortável nas sondagens sem o caso das relações familiares. Não estranho que o PS tenha dificuldades, mas não as valorizo”. O médico lembra que as nomeações de familiares no Governo não são uma questão nova e recua aos Governos de Cavaco Silva para, assim, desvalorizar o impacto que o assunto tem nas sondagens. “Nos Governos de Cavaco Silva também existiram relações familiares e ele teve duas maiorias absolutas. No fundo, a história repete-se um pouco”, declara como que antecipando uma vitória eleitoral do partido nas legislativas de Outubro.

Ataque a Paulo Rangel 

Em declarações ao PÚBLICO, Álvaro Beleza diz compreender a estratégia de António Costa de puxar pelo Governo – “este tem sido um bom Governo” –, mas critica as escolhas para o Parlamento Europeu. “Para mim, a melhor solução teria sido Francisco Assis. É culto, é erudito, é corajoso, tem sentido de humor, vai contra a corrente e põe ferida nas alturas certas”, afirma, comparando o perfil de Assis ao do fundador do PS. “Mário Soares é o monstro [político] por não ter andado a favor da corrente”. 

E o que pensa o dirigente nacional Hugo Pires? O coordenador do grupo de trabalho parlamentar sobre habitação desvia a discussão sobre os efeitos das relações familiares no Governo – “nunca ouvi dizer a ninguém que fulano A, B ou C era incompetente ou não tinha perfil para o cargo” – e foca-se na “política de casos montada pela direita”. “A direita, não tendo nada para dizer sobre as eleições europeias, montou uma política de casos e tenta surfar as espumas dos dias”, acusa o deputado socialista, eleito por Braga.

Hugo Pires não poupa o cabeça de lista do PSD às europeias e recorre à gíria futebolística para dizer: “O dr. Paulo Rangel é o caceteiro de serviço do PSD”. 

Quanto às relações familiares no Governo, o dirigente socialista destaca a “disponibilidade do primeiro-ministro e secretário-geral do PS para limitar as nomeações directas, numa alusão ao projecto de lei que o partido entregou esta quinta-feira no Parlamento e que impede nomeações familiares até aos primos nos gabinetes de apoio aos titulares de cargos políticos. “Há uma disponibilidade do primeiro-ministro para se sentar e falar sobre isso, mas o dr. Paulo Rangel e o dr. Rui Rio não querem falar sobre o tema porque se não deixam de poder alimentar a políticas de casos”, concluiu o socialista, dizendo que o partido está mobilizado para as eleições de 16 de Maio.