Casa Branca planeou libertar imigrantes sem documentos em cidades do Partido Democrata

O plano foi rejeitado pelos directores das agências de imigração e foi denunciado por dois funcionários do Departamento de Segurança Interna. A ideia era “enviar uma mensagem” sobre as chamadas “cidades-santuário”.

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Imigrante sem documentos detido na fronteira do Texas Reuters/LOREN ELLIOTT

Os conselheiros do Presidente Donald Trump pressionaram as agências de imigração norte-americanas, por duas vezes nos últimos meses, a libertarem os imigrantes que são detidos na fronteira em pequenas cidades de maioria do Partido Democrata. O objectivo era retaliar contra os principais adversários de Trump no auge das discussões sobre a construção de um muro anti-imigração na fronteira com o México, em Novembro e Fevereiro.

A ideia foi lançada pela primeira vez no dia 16 de Novembro, num e-mail enviado aos responsáveis de várias agências por uma das mais influentes conselheiras do Presidente dos EUA sobre imigração, Sylvia Mae Davis: seria boa ideia pôr os imigrantes detidos na fronteira em autocarros e enviá-los para “pequenas e médias cidades-santuário"?

Nos EUA, mais de 500 regiões administrativas – entre cidades, condados e estados – limitam a utilização de fundos públicos na ajuda às agências federais de imigração para a identificação, detenção e transferência de imigrantes sem documentos.

O conceito de “cidade-santuário” surgiu nos EUA no início da década de 1980, principalmente no meio religioso, em resposta à recusa do governo federal em conceder asilo a refugiados de países da América Central em guerra civil na altura, como El Salvador ou Guatemala. É também um incentivo a que os imigrantes sem documentos denunciem crimes sem receio de virem a ser deportados.

O estatuto de “cidade-santuário” é contestado pelo Partido Republicano, principalmente desde a nomeação de Donald Trump como candidato à Casa Branca. Em Julho de 2016, no seu discurso na convenção nacional do partido, em Cleveland, no estado do Ohio, Trump deu o exemplo de Kathryn Steinle, uma norte-americana de 32 anos que foi morta em 2015, em São Francisco, por uma bala disparada acidentalmente por José Inez García Zárate, um imigrante mexicano sem documentos que já tinha sido deportado cinco vezes.

Plano recusado

Uma das cidades onde a Casa Branca planeou libertar imigrantes detidos na fronteira situa-se precisamente no estado da Califórnia, no distrito eleitoral representado pela presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, do Partido Democrata. Pelosi foi a principal figura do seu partido na batalha contra a exigência do Presidente Trump de obter mais verbas do Congresso para a construção de um muro na fronteira com o México, que deu origem ao mais longo encerramento de agências e departamentos públicos norte-americanos, por falta de orçamento, entre 22 Dezembro de 2018 e 25 de Janeiro de 2019.

O plano dos conselheiros da Casa Branca foi denunciado ao Congresso em Fevereiro por dois funcionários do Departamento de Segurança Interna, mas só foi conhecido esta sexta-feira, nas páginas dos jornais New York Times e Washington Post.

“Os imigrantes seriam postos em liberdade nas ruas – numa mensagem para os políticos do Partido Democrata que se opõem à política de Trump para a imigração e à sua exigência para a construção de um muro ao longo da fronteira com o México”, diz o New York Times.

No e-mail enviado aos líderes do Departamento de Segurança Interna e dos agentes que fazem cumprir as leis de imigração na fronteira (Border Patrol) e no interior do país (ICE), a conselheira do Presidente Trump explicou o pensamento da Casa Branca: “Foi discutida a ideia de que, se não conseguirmos construir acolhimentos temporários suficientes, os elementos da caravana sejam enviados de autocarro para pequenas e médias cidades-santuário”, disse Sylvia Mae Davis, salientando que a Casa Branca ainda não tinha tomado uma decisão final.

Segundo os funcionários do Departamento de Segurança Interna que denunciaram o plano, os responsáveis pelas agências e departamentos de imigração recusaram a ideia de imediato – não só levantava problemas orçamentais, com custos de transporte inesperados e que não poderiam ser facilmente explicados, como seria alvo de processos judiciais e um possível desastre de relações públicas, à semelhança do que aconteceu com a política de separação de famílias.

"Purga” na Segurança Interna

Em resposta à revelação do plano, a Casa Branca e o Departamento de Segurança Interna enviaram comunicados aos jornais, dizendo que se tratou apenas de “uma sugestão que foi rejeitada, o que pôs fim à possibilidade de mais discussões”.

A porta-voz de Nancy Pelosi, Ashley Etienne, acusou a Administração Trump de um “cinismo e crueldade que não podem ser exagerados”.

“Usar seres humanos, incluindo crianças pequenas, como peões no seu jogo perverso para perpetuar o medo e demonizar os imigrantes é desprezível e, em alguns casos, criminoso”, disse a porta-voz.

Nenhum dos jornais liga directamente o Presidente Trump à ideia da Casa Branca de libertar imigrantes detidos na fronteira em cidades representadas por alguns dos seus adversários do Partido Democrata. Segundo um funcionário do Departamento de Segurança Interna ouvido pelo New York Times, as agências de imigração sabiam que um dos maiores defensores da ideia era Stephen Miller, o principal conselheiro do Presidente norte-americano sobre questões de imigração e uma figura com ligações ao movimento nacionalista branco nos EUA.

Não é também claro se a recusa das agências de imigração em pôr em prática este e outros planos da Casa Branca – como forma de contornar a falta de consenso no Congresso e as decisões judicias contrárias às suas intenções – estiveram na origem da profunda remodelação em curso no Departamento de Segurança Interna.

Na última semana, a secretária da Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, saiu do cargo pressionada pelo Presidente Trump. Pouco depois, saiu também o director dos Serviços Secretos, Randolph Alles, que respondia directamente a Nielsen.

E, na semana passada, o Presidente norte-americano anulou a nomeação do director interino do ICE, Ronald Vitiello, para se manter no cargo até ao fim do mandato. Quando anunciou essa decisão, Trump disse que a agência tem de seguir “um caminho mais duro”.