Será o futuro da cosmética vegan e cruelty free?

A preocupação com o ambiente, mas também com os animais, leva a que mais pessoas optem por produtos diferentes. O mercado está a crescer.

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Nelson Garrido

A tendência vegan está a crescer e a indústria alimentar tem vindo a adaptar-se às novas tendências de consumo. Mas não é a única. Outras estão a seguir-lhe o exemplo, como é o caso da cosmética, o que não é sinónimo de que os produtos de beleza vegan sejam mais benéficos para a nossa pele, alerta dermatologista.

O ano 2019 é o ano do veganismo, garantiu a The Economist. Segundo a revista britânica, 25% da população dos EUA, entre os 25 e os 34 anos, identifica-se como vegan ou vegetariana. No Reino Unido, o número de pessoas que optam por este estilo de vida terá aumentado em 700% nos últimos dois anos.

Segundo o último estudo realizado pela Nielsen, em 2017, o número de pessoas vegan em Portugal rondava as 60 mil, mas estima-se que esteja em amplo crescimento. 

Aderir ao veganismo significa procurar “reduzir o impacto negativo sobre os seres vivos sencientes através das suas escolhas de consumidor”, explica Nuno Alvim, da Associação Vegetariana Portuguesa ao PÚBLICO. Estas escolhas abrangem não só a alimentação, como também a área do “vestuário e calçado, da farmacêutica e cosmética, o boicote a espectáculos que utilizem animais – circo, touradas – e, em geral, o boicote de produtos ou serviços em que exista exploração animal para fins económicos”, esclarece.

No que diz respeito ao sector da cosmética começam a aparecer novas marcas vegan e/ou cruelty free (sem crueldade) e as grandes multinacionais reinventam-se para criarem gamas amigas do ambiente. A Dove, por exemplo, é uma das gigantes no mercado da cosmética que aderiu ao selo cruelty free da PETA. Por seu lado, a Garnier apresentou recentemente uma linha bio – à base de produtos biológicos – e vegan, amiga do ambiente. A marca anunciou que tem a certificação da Ecocert Greenlife, que garante que os produtos não têm conservantes, silicones, químicos e corantes sintéticos. 

Além das grandes marcas, há outras que contribuem para que o mercado português conte já com uma oferta ampla de produtos de cosmética vegan e/ou cruelty free. A diferença entre estes dois conceitos é que um produto cruelty free não é testado em animais, ao passo que um vegan "pressupõe que não houve testes em animais e oferece também a garantia de que o produto não contém qualquer ingrediente de origem animal”, esclarece Nuno Alvim. 

De acordo com um estudo da Associação Vegetariana Portuguesa, o comércio ligado ao veganismo, que incluiu lojas e restauração, aumentou 3000% entre 2008 e 2018. Inês Avelar é uma das empreendedoras que investiu numa marca de cosmética vegan durante este período. 

Há cinco anos, descontente com a eficácia de alguns produtos de beleza que encontrava no mercado e com a quantidade de ingredientes nocivos que estes contêm, Inês Avelar – formada em Audiovisual e Multimédia pela Escola Superior de Comunicação Social – decidiu fazer o seu primeiro desodorizante com apenas três ingredientes (óleo de coco, bicarbonato de sódio e amido de milho), na cozinha da sua casa. Após várias experiências caseiras surgiu a Miristica Biocosmética Vegana com o objectivo de “oferecer alternativas saudáveis e muito mais éticas e sustentáveis para cuidar da pele no dia-a-dia”, descreve ao PÚBLICO. 

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Miristica

O mesmo aconteceu com Cátia e Rita Curica, criadoras da Organii, que surgiu, em 2009, de uma necessidade de encontrar soluções para as alergias provocadas pelos produtos tradicionais. A Organii assume-se como uma marca cruelty free e maioritariamente vegan – não o é totalmente porque existem alguns produtos de algumas marcas que contêm cera de abelha, mel ou própolis. Apesar disso, a grande maioria dos produtos são veganos, como os da marca Unii lançados recentemente.

De acordo com o Eurobarómetro de 2015, a nível europeu, cerca de 59% dos consumidores admitem estar dispostos a pagar mais por um produto que não tenha sido testado em animais ou que tenha em consideração o bem-estar animal. Tanto Inês Avelar, da Miristica, como as irmãs Curica, da Organii – Cátia é farmacêutica e Rita é arquitecta de formação –, admitem que o número de clientes que procuram os seus produtos vegan/cruelty free tem aumentado ao longo dos anos. 

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Organii

“Muitas pessoas têm esta preocupação e por vezes têm dificuldade em saber se os produtos são vegan ou não, ou se são cruelty free e adaptados a si, ao seu cabelo, ao seu tipo de pele. Na Organii é muito fácil encontrar soluções variadas com estes critérios e por isso as pessoas procuram-nos com esse intuito e quando precisam de ajuda”, dizem as criadoras da Organii. 

Os clientes da Miristica, conta Inês Avelar, “mesmo que não sejam veganos, ficam chocados quando descobrem que determinados ingredientes [dos produtos tradicionais] provêm de animais e quando se deparam com os testes que são efectuados em animais e o sofrimento que estes implicam”, e vão à procura de alternativas, testemunha.

Este tipo de produtos, que parecem estar a conquistar os consumidores europeus, tendem, além da preocupação com o bem-estar animal, a “adoptar práticas comerciais mais sustentáveis e a utilizar preferentemente materiais de embalagem amigos do ambiente”, salienta Nuno Alvim.

A cosmética vegan e cruelty-free é a mais indicada para a nossa pele?

Para Inês Avelar, pela “ausência de determinados aditivos sintéticos e detergentes”, os cosméticos Miristica "são muito bem tolerados nos diversos tipos de pele, sendo bastante procurados por pessoas com pele sensível e reactiva, pele atópica, eczema ou psoríase”. 

Mas, cosmética natural ou orgânica não é sinónimo de cosmética vegan. E na opinião da dermatologista Daniela Cunha e de Marta Ferreira, autora do blogue A pele que habito, a segurança e eficácia de um determinado produto não está relacionada com a sua origem. 

“A opção por produtos vegan em detrimento daqueles que contêm ingredientes de origem animal trata-se essencialmente de uma questão moral, e que tem toda a legitimidade nesse âmbito”, explica Marta Ferreira, formada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade do Porto.

“Os efeitos que um determinado ingrediente exerce sobre a nossa pele dependerão essencialmente da interacção entre as moléculas contidas no ingrediente (todos eles são químicos) com os tecidos cutâneos e/ou suas secreções”, acrescenta a bloguer. 

Cosmética vegan também não significa, assim, neutralidade para a pele, uma vez que “os produtos podem conter substâncias às quais um indivíduo pode ser alérgico (tal como em produtos com outra origem) ou os efeitos produzidos pelos seus componentes serem prejudiciais a uma patologia específica”, acrescenta a dermatologista Daniela Cunha.

Em suma, “os produtos vegan não são totalmente benéficos nem totalmente prejudiciais. É necessário saber adaptar os produtos às situações específicas para os quais se pretendem utilizar, preferencialmente recorrendo a opinião especializada”, resume a dermatologista.