Opinião

A nova censura

O verdadeiro racismo reside na ideia de que só os negros podem representar o papel dos negros e só os brancos podem representar o papel dos brancos.

Philippe Brunet é um consagrado helenista e encenador teatral francês insuspeito de qualquer simpatia por teorias racistas. No passado dia 25 de Março a Sorbonne preparava-se para acolher uma representação de As Suplicantes, de Ésquilo, com encenação de Brunet e que tinha como actores e actrizes dezenas de estudantes.

Pouco antes do início da representação, dezenas de outros estudantes, acompanhados dos chamados activistas anti-racismo, irromperam pela sala insultando e humilhando os jovens participantes do elenco e impedindo a realização do espectáculo. Qual o motivo para tão inesperada manifestação de intolerância e violência?

A acusação de que Brunet não havia recorrido à participação de nenhuma mulher negra para representar as figuras das Danaides, as mulheres egípcias de pele negra que na obra de Ésquilo rumam à Grécia em busca de asilo. Na ausência de qualquer negra no elenco estudantil, Brunet recorreu à maquilhagem e à utilização de máscaras, como era, aliás, prática corrente na Antiguidade clássica. Tal foi suficiente para ser acusado de estar a retomar as práticas do blackface, um procedimento — esse sim racista e repugnante — que se levou a cabo durante muitas décadas, sobretudo nos Estados Unidos. O blackface constituía uma humilhação dos negros no contexto de uma sociedade profundamente racista.

Este acontecimento, afinal de contas tão típico dos tempos que atravessamos, revela até que ponto o extremismo e a estupidez podem envenenar preocupações sérias e correctas.

Já aqui escrevi sobre a importância histórica do movimento geralmente designado por “politicamente correcto”. Contudo, este episódio chama-nos a atenção para o risco do surgimento de uma nova forma de censura, especialmente perigosa porque pretensamente fundamentada na prossecução de causas justas. Que ser humano decente e bem-formado pode aceitar um olhar complacente para o fenómeno histórico do blackface? Que espírito imbuído da mais elementar noção da dignidade humana não está disposto a revoltar-se contra qualquer manifestação de racismo? O perigo associado ao comportamento destes activistas radicais é precisamente o de em simultâneo conspurcarem nobres propósitos e lançarem uma pérfida confusão.

Philippe Brunet, espírito sagaz e superior, relembra que “o teatro é o lugar da metamorfose e não o refúgio das identidades”. Ele sabe do que fala. Culto e inteligente, conhece a história do teatro no mundo ocidental e compreende plenamente que o verdadeiro racismo reside na ideia de que só os negros podem representar o papel dos negros e só os brancos podem representar o papel dos brancos. Isso seria a negação absoluta da liberdade, da ambiguidade inerente a todas as manifestações de criatividade e de inteligência e da própria noção da representação enquanto oposto de uma simples expressão hiper-realista.

Não estamos a falar de um assunto lateral ou de importância menor. O teatro, e em particular a tragédia, é consubstancial à cultura ocidental. Mais do que isso, como lembrava recentemente Jacqueline De Romilly, “a tragédia nasceu e morreu com o grande momento da democracia ateniense. Uma e outra coincidem”. A recusa da máscara significa a anulação da própria essência do teatro. Essa anulação debilita um dos pilares referenciais da nossa civilização.

A antropologia ensina-nos que um dos aspectos mais interessantes da identidade humana radica justamente na potencialidade da desmultiplicação criativa dessa mesma identidade. Pela cultura o homem escapa em grande parte aos determinismos biológicos e instala-se no campo da liberdade. No mundo ocidental o teatro é por definição a metáfora dessa liberdade. Liberdade essa que não corresponde estritamente ao império da vontade, antes se aproxima de noções como ambiguidade, imponderabilidade e, recuperando as sábias palavras de Brunet, metamorfose. A máscara, ou a maquilhagem, sua expressão contemporânea, abrem o humano para um conjunto de novas possibilidades imaginativas e intelectuais.

Em nome de um anti-racismo básico, infantil e inculto, um bando de energúmenos invadiu a Sorbonne e impediu a representação de uma obra que constitui uma ode à inteligência humana e à dignidade do outro e um eloquente repúdio da violência masculina e da subjugação da liberdade individual.

Poucos dias depois de tão funesto acontecimento somos confrontados com nova manifestação da indigência mental coeva. De visita a Paris, dois académicos americanos depararam com umas pinturas da autoria de Hervé Di Rosa num corredor da Assembleia Nacional Francesa. Este artista conhecido por associar os universos da arte popular, da banda desenhada e da ficção científica é o autor de uma vasta tela que ilustra, no Palais Bourbon, sede do Parlamento francês, a decisão legislativa de abolição da escravatura, ocorrida em 1794.

Hervé Di Rosa destaca-se, entre outros traços, por atribuir amplos lábios vermelhos às suas personagens pictóricas, o que traduz um simultâneo apelo ao imaginário das artes populares e da banda desenhada. Chamado a conceber uma tela sobre alguns dos principais momentos da história legislativa francesa, optou por salientar a decisão da abolição da escravatura e, fiel ao seu reconhecido e singular estilo, desenhou as figuras de dois escravos libertados com as características que são peculiares à sua obra. Isto bastou para que os dois académicos norte-americanos entendessem que tal significava um desrespeito pelos escravos e imediatamente lançassem uma petição online exigindo a retirada da referida pintura.

Estes dois episódios, ambos ocorridos em Paris, revelam o quão perigosa é esta nova censura que lenta e insidiosamente vai silenciando a inteligência e a criatividade no mundo ocidental. Não há liberdade sem ironia, sem uma elevada dose de ambiguidade interpretativa, sem polémica. O extremismo e o simplismo constituem as maiores ameaças ao que de melhor o contexto civilizacional ocidental foi capaz de construir. Os puritanos das mais diversas obediências têm em comum o mesmo ódio a tudo o que escape à unidimensionalidade das suas mentes estreitas.