Miguel Manso
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Miguel Manso

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Os partidos são o povo

Se calhar deveríamos envolver-nos nos partidos, nas suas estruturas, porque, afinal, eles somos nós e nós somos eles. Existe uma simbiose perfeita entre os partidos e a vida do país.

Goste-se ou não se goste, o nosso sistema político é caracterizado por um sistema partidário clássico, que garante a representação das ideias político-sociais da maioria do povo português.

Depois de ler uma crónica que sugeria um modelo de avaliação de desempenho dos deputados e a possibilidade de os despedir trocando-os por outros, escrita por um estimado colega, assaltaram-me à mente razões que possibilitam a orientação de estratégias que, a meu ver, nada beneficiam a democracia. Sem nenhum pretensiosismo, arrogo-me no direito de exercer aqui o contraditório.

Quando temos como objecto de pensamento o sistema político português, não nos podemos alhear de um facto simples, mas extremamente relevante: os partidos representam o povo porque são constituídos por ele. É uma premissa básica que sustenta a nossa forma democrática de organização. As típicas afirmações que traçam uma linha vermelha entre o povo e os partidos são as mesmas que incendeiam os discursos populistas e derivas fascistas que proliferam em grande número.

É certo que o sistema está cansado, sem grande dinâmica e com pouca vontade de fazer coisas, mas a culpa não é da organização democrática, antes dos seus protagonistas que, convenhamos, se têm vindo a repetir ao longo dos últimos 40 anos. E se, em vez de mudarmos de sistema eleitoral, mudássemos os partidos em que votamos?

Parece-me que o melhor instrumento para termos nas nossas mãos o nosso destino é o voto — e é através dele que castigamos quem queremos e, mais importante ainda, votamos em quem queremos. A maior falha no sistema primário, sugerido pelo colega cronista, ou no sistema uninominal, é a personalização da política, a fulanização do poder democrático. Não é por se mudar uma cara que se muda uma política ou forma de pensar. O que mais deveria valer na escolha de um candidato, ou melhor, de um partido, é o seu projecto político, os seus ideais e convicções e nunca o rosto ou a capacidade de vender o peixe.

Não escondo o facto de haver um divórcio significativo entre grande parte das pessoas e o sistema político, mas não o vejo como uma causa em si, antes como um sintoma. É um sintoma de que a vida está de tal maneira embrulhada num vaivém de que não sobra tempo e força suficientes para que nos interessemos verdadeiramente pela realidade. Contudo, o diagnóstico não é tão grave como o que por aí se diz, visto que todos os dias se travam lutas, seja nas fábricas, nas escolas, nas universidades, e todas elas com o propósito político de mudar a vida e as suas condições.

Se calhar deveríamos envolver-nos nos partidos, nas suas estruturas, porque, afinal, eles somos nós e nós somos eles. Existe uma simbiose perfeita entre os partidos e a vida do país.

Eu já tomei partido há alguns anos, sugiro que os descontentes com o sistema façam o mesmo para, no fim, se aperceberem que o povo é o protagonista na nossa história democrática.