Música, natureza e surpresas é no Tremor

Dar a conhecer os Açores a quem vem de fora e trazer o mundo a quem vive nas ilhas. A partir desta terça-feira, e até sábado, há mais uma edição do festival Tremor, com Colin Stetson, Bulimundo ou Lafawndah.

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O espectáculo de abertura foi construído em diálogo pelo colectivo ondamarela, a Escola de Música de Rabo de Peixe e a Associação de Surdos da Ilha de São Miguel EDUARDO COSTA/LUSA

Já ninguém se espanta na ilha de São Miguel. Concertos no meio da floresta, junto de quedas de água ou de piscinas de água quente, ou mesmo noutras ilhas – como aconteceu no ano passado, quando um dos acontecimentos-surpresa do festival teve lugar em Santa Maria –, já constituem parte da normalidade do Tremor. Mas ainda assim certamente que haverá lugar para espantos. Há sempre. E a sexta edição do festival, da responsabilidade de António Pedro Lopes, de Luís Banrezes e da editora e promotora Lovers & Lollypops, não irá ser diferente.

As experiências inusitadas e os locais exóticos, as deslocações diárias até um local mantido em segredo para se assistir a uma actuação já fazem parte do ADN de um acontecimento que se tornou indissociável da descoberta da ilha de São Miguel. Hoje com uma identidade estabilizada, é sinónimo de sucesso, encontrando-se previamente esgotado. Claro que não é um evento de massas. É um festival de escala humana que, ao longo de cinco dias, propõe músicas de vários hemisférios, residências artísticas, exposições ou performances.

Na sexta edição que esta terça-feira se inicia, mais de 50 artistas ocuparão as principais salas de Ponta Delgada e da Ribeira Grande, assim como espaços informais, lojas e pontos de interesse cultural. Tal como aconteceu em 2018, o Tremor estende-se de novo – mas agora já sem a componente surpresa, na próxima sexta-feira – à ilha vizinha de Santa Maria, num circuito de actividades que contempla visitas turísticas e concertos pela inglesa Natalie Sharp ou pelos portugueses Sunflowers.

Em Ponta Delgada, destaque este ano para as apresentações do excelente saxofonista e compositor americano Colin Stetson (terça-feira, Auditório Luís de Camões), para o rock instrumental e experimental dos americanos Grails (quarta-feira, Auditório Luís de Camões) ou para a histórica formação cabo-verdiana Bulimundo (sábado, Coliseu Micaelense), expoente do funaná. Nesse último dia, atenções viradas também para a tranquilidade folk da americana Haley Heynderickx (Igreja do Colégio), para as canções pop electrónicas da brasileira Maria Berardo (Ateneu Comercial), que procuram o ângulo inusitado, enquanto as letras interrogam questões de sexo e género, ou para o rock cósmico dos americanos Moon Duo (Coliseu Micaelense).

Antes, na sexta, na Ribeira Grande, atenções viradas para a solenidade da portuguesa Lula Pena (Museu Vivo do Franciscanismo), ou para a pop electrónica futurista, com algo de ritualístico, da oriental Lafawndah (Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas), ou ainda para o hibridismo electrónico festivo dos brasileiros Teto Preto (Teatro Ribeiragrandense). Os portugueses Pop Dell’ Arte, o cantor-compositor Jacco Gardner, o concerto-bingo com comes e bebes, dos rappers dB e Balada Brassado, no âmbito das residências, a proposta performativa e imersiva do Instytut B61 ou as várias apresentações de Lieven Martens (ex-Dolphins Into The Future) serão outros dos muitos motivos de interesse deste Tremor.

Fora dos palcos haverá a inauguração do trabalho colaborativo de Renato Cruz Santos e Duarte Ferreira, uma exposição que liga fotografia e som, ou o projecto fotográfico do espanhol Rubén Monfort, que documenta os colectivos populares de dança de castanholas das despensas de Rabo de Peixe. Apesar de esgotado, o festival propõe uma série de actividades de acesso livre, condicionada à lotação dos espaços – caso do espectáculo de abertura, construído em diálogo pelo colectivo ondamarela com a Escola de Música de Rabo de Peixe e a Associação de Surdos da Ilha de São Miguel. É esta terça-feira, pelas 19h, no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. E estão todos convidados.