Hospital de Santa Maria já tratou 33 reclusos com hepatite C

Médicos terão agora de fazer uma segunda análise para confirmar a ausência do vírus. Se assim for, doentes ficam curados. Experiência portuguesa foi apresentada numa conferência sobre saúde nas prisões promovida pela Organização Mundial de Saúde.

Hospital de Santa Maria
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Rui Gaudencio

Em Junho do ano passado uma equipa do Hospital de Santa Maria com quatro médicos, duas enfermeiras e dois assistentes chegava de manhã cedo ao Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) para avaliar 61 reclusos. Destes, 33 fizeram o tratamento para a hepatite C com os mesmos medicamentos inovadores que já curaram mais de 12 mil doentes. Os primeiros resultados não podiam ser melhores: em todos eles as análises deram negativas para a presença do vírus. Terão agora de fazer uma segunda análise para confirmar que ficaram curados.

Foi esta experiência que o médico Rui Tato Marinho, coordenador da equipa C-Free Prison (em tradução livre prisão livre de hepatite C) e director do serviço de gastroenterologia do Hospital de Santa Maria, apresentou há pouco mais de uma semana, na Finlândia, na 6.ª conferência Saúde na Prisão, promovida pela Organização Mundial da Saúde. O especialista fala de uma “medicina restaurativa” que traz ganhos para os reclusos e para os profissionais de saúde. “Chamei-lhe sistema de win-win, porque eles ganham pois têm acesso à saúde e nós ganhamos porque acaba por ser uma experiência humana fantástica”, afirma ao PÚBLICO.

O projecto faz parte do modelo acordado em 2018 entre os ministérios da Justiça e da Saúde que leva as equipas de saúde às prisões para realizarem consultas e rastreio de hepatites virais e VIH e que começou com a parceria entre o Hospital de São João e a prisão de Custóias. A avaliação da equipa do Hospital de Santa Maria aos 61 reclusos foi feita durante duas manhãs. A média de idades dos detidos era de 45 anos, 71% tinham tatuagens, 88% história de consumo de drogas injectáveis, 93% eram fumadores e 23% tinham fibrose avançada ou cirrose.

“Colocámos 33 reclusos em tratamento e no fim estavam negativos. Temos de deixar passar três meses para voltar a repetir a análise e confirmar se o vírus se mantém negativo”, disse Tato Marinho, explicando que a maioria dos doentes fez dois meses ou três meses de tratamento. Se na segunda análise os resultados se mantiverem negativos, estes doentes são considerados curados.

O médico explica que aqueles que não têm cirrose “ficam curados para toda a vida”. Já “os que têm cirrose ou fibrose avançada deviam fazer uma ecografia de controlo de seis em seis meses, para toda a vida, por causa do risco de cancro de fígado. Na próxima deslocação ao EPL, a equipa vai levar um ecógrafo portátil para através da ecografia avaliar aqueles que tinham a doença mais avançada. Mas Rui Tato Marinho gostava de fazer mais. “O que gostava de fazer, porque sei que quase todos vão ficar curados, era uma pequena sessão na prisão e dar-lhes um diploma, onde se explica àqueles que têm cirrose que têm de fazer ecografias de seis em seis meses.”

Em resumo: humanizar

“É uma maneira de dar um toque positivo às pessoas. Cura-se uma doença, as pessoas sentem-se melhor, podemos aconselhar a que não fumem tanto”, salienta. Em resumo: humanizar. “O hospital ir à comunidade é uma filosofia mais moderna e nós quisemos fazer isso com a prisão. Poupámos 200 visitas ao hospital e a deslocação de cerca de 500 guardas”, diz, referindo que como o sistema prisional está mais vocacionado para as deslocações a tribunal, muitas vezes a saúde é secundarizada. A par disso, limita a exposição dos presos que quando se deslocam ao hospital têm de ir algemados e acompanhados por guardas. O próximo passo é as consultas de telemedicina.

A experiência portuguesa, refere, foi bem acolhida na conferência, onde a defesa dos direitos humanos teve particular importância. “Foi a sexta reunião e acho que vai crescer a importância do tema da saúde nas prisões. Até porque os presos em alguns países estão a ficar mais velhos e mais doentes.” De oradores estrangeiros ouviu o relato de prisões com equipas médicas e de outras com programas de cessação de tabagismo. Sobre o que se poderia fazer em Portugal, Tato Marinho lembra que o país tem “mais de 40 prisões e são diferentes, umas com mais e outras com menos detidos”. “Acho que não pode haver um modelo igual para todas. Se calhar há prisões onde se justifica haver um médico de medicina interna com ligação a um grande hospital”, sugere.