Editorial

As leis do sultão e os seus hotéis

O Brunei aprovou a condenação à morte por apedrejamento de homossexuais e adúlteras. Deixar a política só à sociedade civil ou à economia é uma demissão incompreensível do Reino Unido.

O Hotel Dorchester, em Londres, perto do Hyde Park, é um dos vários hotéis de luxo de que é dono o sultão do Brunei. O sultão do pequeno Estado que só deixou de ser dependente do Reino Unido nos anos 1980 foi educado na academia militar de Sandhurst e tem duas condecorações que a Rainha Isabel II lhe colocou ao peito. Esta semana, o sultão, um homem bem visto no Reino Unido, fez aprovar a condenação à morte por apedrejamento de homossexuais e adúlteras, além do corte de mãos e pernas a quem for apanhado a roubar. 

Curiosamente, a descida ao horror da antiga colónia inglesa não causou grande comoção política internacional. Foi uma parte da sociedade civil inglesa que se mobilizou contra o novo código penal, nomeadamente George Clooney e Elton John. O boicote aos hotéis detidos pelo sultão também veio da sociedade civil. Os hotéis são muitos, vale a pena fixá-los: The Dorchester e 45 Park Lane, ambos em Londres; Coworth Park, também na Inglaterra; Le Meurice e Hotel Plaza Athenee, em Paris; Hotel Eden e Hotel Principe, na Itália. Beverly Hills Hotel e Hotel Bel-Air, nos EUA. 

Várias companhias britânicas alinharam no boicote aos lucros do sultão. Também o Deustche Bank decidiu proibir o seu pessoal de ficar alojado nos hotéis do sultão: “As novas leis introduzidas no Brunei violam os mais básicos direitos humanos e acreditamos que é nosso dever, enquanto empresa, tomar uma atitude contra elas”, escreveu dos responsáveis do Deustche Bank em comunicado.

O clássico Dorchester, um símbolo antiquíssimo da Londres rica, está a tentar conter os danos — perante a quantidade de eventos que já foram cancelados. Fez no seu site um comunicado em que proclama os hotéis Dorchester como espaço de liberdade e tolerância, diz que não tem nada que ver com as leis aprovadas pelo seu proprietário no seu país, que são uma questão de “religião e política”. Ora bem, religião e política. É curioso como a política está totalmente ausente deste debate sobre direitos humanos, tendo deixado o espaço todo à economia e à sociedade civil — houve uma manifestação no sábado em frente ao Dorchester. 

Mais: continuam estacionados no Brunei 2 mil militares britânicos que estão naturalmente em pânico com a nova legislação — pelo menos os que são homossexuais. É verdade que o Reino Unido está tão deprimido com o seu ​"Brexit” que lhe resta pouco espaço para pensar noutra coisa qualquer. Mas o Brunei é um país amigo, com quem o Reino Unido mantém relações próximas. Deixar a política só à sociedade civil ou à economia é uma demissão incompreensível.