Nem a separação de famílias na fronteira dos EUA manteve Kirstjen Nielsen no cargo

A secretária da Segurança Interna tentou implementar todas as políticas do Presidente norte-americano, mas o recente aumento de entradas ilegais encurtou-lhe o cargo. Na hora da saída, Nielsen diz que ninguém pode fazer mais se o Congresso e os tribunais não quiserem.

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epa/JIM LO SCALZO

A conturbada relação entre o Presidente dos EUA, Donald Trump, e a responsável pela segurança nas fronteiras norte-americanas, Kirstjen Nielsen, chegou ao fim no domingo, de forma abrupta mas não surpreendente. Nomeada para o cargo em Dezembro de 2017, Nielsen era um dos alvos preferidos de Trump, nas reuniões do seu gabinete e também em público, acusada de fazer pouco para conter a entrada de imigrantes sem documentos e requerentes de asilo.

Apesar das críticas do Presidente norte-americano, a secretária da Segurança Interna dos EUA nunca encontrou consolo no lado do Partido Democrata, e muito menos das organizações de defesa dos direitos dos imigrantes.

Ao longo dos 16 meses em que geriu a situação na fronteira norte-americana com o México, Nielsen foi a responsável por aplicar no terreno a política de separação de famílias, que motivou duras críticas da oposição, e defendeu o uso de gás lacrimogéneo pelos agentes de fronteira contra imigrantes que tentaram forçar a entrada na fronteira entre a Califórnia e o México, em Novembro de 2018.

Mas as ocasiões em que Kirstjen Nielsen cumpriu de forma diligente as instruções do Presidente Trump não foram suficientes para a deixar a salvo de violentas críticas em público – um tratamento que Trump também reservou para o seu primeiro attorney general, Jeff Sessions.

Contra ela, na Casa Branca, estavam o cada vez mais importante conselheiro Stephen Miller e o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton – ambos defensores de políticas ainda mais rígidas na fronteira com o México.

Nos últimos tempos, Kirstjen Nielsen chegara à conclusão de que Trump “estava cada vez mais desequilibrado” nas suas ideias para a segurança na fronteira, com pedidos “irracionais e até impossíveis”, disse o pivô da CNN Jake Tapper, citando um importante responsável na Casa Branca sob anonimato.

Nos últimos dias, o Presidente norte-americano ameaçou encerrar a fronteira com o México e ridicularizou os requerentes de asilo, dizendo que são “animais” e imitando-os com voz e gestos, como se estivessem a chorar por refúgio ao mesmo tempo que planeavam cometer crimes em território norte-americano.

Segundo o jornal Washington Post, um dos pontos de maior tensão entre Trump e Nielsen aconteceu em Maio de 2018, quando o Presidente dos EUA “repreendeu de forma severa” a então secretária da Segurança Interna, que estava no cargo há apenas cinco meses, durante uma reunião “particularmente embaraçosa” – de acordo com outros responsáveis do Gabinete do Presidente que estavam nessa reunião, os conselheiros da Casa Branca “contorceram-se nas suas cadeiras”.

Aumento de entradas

Para Trump, Nielsen não era suficientemente dura na gestão da segurança nas fronteiras, em particular na fronteira a Sul, com o México. Em Dezembro de 2017, quando Nielsen foi confirmada no Senado, o Presidente Trump dizia publicamente que o número de entradas ilegais nos EUA tinha diminuído desde a sua chegada à Casa Branca, mas nos últimos meses os números oficiais têm mostrado que há cada vez mais pessoas a passar a fronteira pelo México – ainda que o número de pessoas detidas esteja longe dos 220 mil registados em Março de 2000, só entre Janeiro e Março deste ano houve um aumento de 58 mil para quase 100 mil, a maioria famílias de países como Guatemala, Honduras ou El Salvador.

A ruptura entre Trump e Nielsen deu-se no domingo, durante uma reunião entre os dois na Casa Branca. Segundo os media norte-americanos, a secretária da Segurança Interna não tinha a intenção de se demitir à entrada para esse encontro, mas no final foi isso mesmo que aconteceu: a notícia foi dada pelo Presidente através do Twitter, de forma curta e seca, e a responsável explicou-a mais tarde.

“A secretária da Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, vai deixar o seu cargo, e eu gostaria de agradecer-lhe pelo seu serviço”, disse Trump, antes de anunciar uma solução provisória: “Tenho todo o gosto em anunciar que Kevin McAleenan, o actual comissário de Segurança na Fronteira, será o secretário de Segurança Interna interino. Confio no Kevin para fazer um excelente trabalho!”

Na carta em que anuncia a sua saída, Kirstjen Nielsen elenca as áreas em que acredita ter deixado os EUA mais fortes do que antes da sua nomeação, e deixa uma mensagem à Administração Trump e aos seus sucessores – se quiserem que a actuação no terreno seja ainda mais dura, então o Presidente terá de assegurar o apoio do Partido Democrata e do Partido Republicano no Congresso, e de esperar uma interpretação diferente por parte dos tribunais.

“Apesar dos nossos progressos na reforma da segurança interna para uma nova era, decidi que é o momento certo para a minha saída. Espero que o próximo secretário venha a ter o apoio do Congresso e dos tribunais na correcção das leis que têm impedido a nossa capacidade de garantir a segurança total nas fronteiras da América, e que têm contribuído para a discórdia na nossa nação. O nosso país e os homens e as mulheres do Departamento de Segurança Interna merecem ter todas as ferramentas e recursos de que precisam para executarem a missão que lhes foi confiada”, disse Kirstjen Nielsen.

Futuro incerto

Para o lugar de Nielsen entra Kevin McAleenan, um advogado de 47 anos que tem feito carreira na Agência de Protecção das Fronteiras. É respeitado pelos líderes do Partido Republicano e do Partido Democrata e é visto como um líder ponderado. Mas essa ponderação, aliada ao facto de ter defendido a política de separação de famílias na fronteira, faz com que o seu futuro como secretário da Segurança Interna venha a ser, pelo menos, tão complicado como o passado de Kirstjen Nielsen.

“McAleenan é um tipo muito inteligente e competente. É muito focado na implementação das políticas, mas não é uma figura ideológica”, disse o antigo director interino da agência de Imigração (ICE, na sigla original), John Sandweg, nomeado pelo ex-Presidente Barack Obama.

“Esta Administração gosta de uma postura dura, com tipos que falam em sound bites, e o Kevin não é assim. Não é pessoa para falar muito, nem para dizer coisas ultrajantes só para passar por duro”, disse Sandweg ao Washington Post.

E se o novo responsável pode não ser a figura ideal para a linha dura da Casa Branca para a fronteira – o que lhe pode valer algumas repreensões por parte do Presidente Trump –, também não será a melhor para os defensores dos direitos dos imigrantes e requerentes de asilo.

Para Ronald Newman, director da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla original), Kevin McAleenan ajudou a sua antecessora a pôr em prática “um capítulo triste e vergonhoso da história da agência”, destacando-se a separação “sem sentido” das famílias. “Ele tem sido fundamental na implementação das políticas de Trump e de Nielsen, e tem gerido inúmeros abusos dos agentes de fronteira.”