Nem tudo o que está na Internet fica na Internet

Num exemplo de como o mundo digital pode ser efémero, a Microsoft deixou de vender livros e vai apagar a biblioteca de quem os tinha comprado.

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Esta semana, a Microsoft deixou de vender livros electrónicos. O anúncio foi noticiado com pouca pompa, pela mesma razão que terá levado à decisão da empresa: não eram muitas as pessoas que compravam livros à Microsoft. Os livros electrónicos são um mercado onde a Amazon e a Apple têm posições muito mais fortes.

Os clientes da Microsoft que compraram livros electrónicos vão, a partir de Julho, deixar de ter acesso a eles. Para alguns, pode até ser um incentivo para terminar uma leitura que se arrastava. Para outros, pode ser um bom negócio: a Microsoft vai reembolsar os utilizadores por todos os livros que compraram, o que inclui as obras que foram lidas uma vez e nas quais nunca mais se iria pegar, bem como as compras de impulso que nem chegaram a ser abertas.

Mas o fim do acesso aos livros é também um exemplo de que, numa era de serviços na cloud e em streaming, comprar algo — mesmo que um livro — não significa ter posse (esta é a mesma era em que, em Portugal, se paga uma taxa de cópia privada, que reverte a favor dos autores, na compra de cada dispositivo no qual seja possível armazenar obras, como é o caso dos telemóveis).

Nos livros — cujo valor como objecto os tornou particularmente resistentes à digitalização —, a possibilidade de emprestar ou dispor das versões electrónicas como bem se entenda foi tema de discussão a partir do momento em que o mercado começou a ganhar expressão, graças sobretudo ao Kindle, o leitor de livros electrónicos da Amazon. As empresas até procuraram dar aos utilizadores uma sensação de posse. A Amazon, por exemplo, permite que os livros electrónicos sejam emprestados — durante esse período, o dono perde o acesso ao livro. Quem tiver o Kindle e decida apagar a conta da Amazon também pode ficar com os livros guardados no aparelho. No caso da Microsoft, a leitura era feita no Edge, o browser da empresa, e não havia sequer uma aplicação para Android ou iOS. É por isto que, findo o serviço, vai-se a biblioteca.

Há um outro exemplo recente da efemeridade do conteúdo digital assente na saúde do negócio que o disponibiliza: o MySpace.

Em 2005, nos seus tempos de glória, o MySpace foi comprado pela NewsCorp, um conglomerado de media, por 580 milhões de dólares (seis anos depois, seria vendido por uma pequena fracção desse preço). Naquela altura, o site era um espaço de influência cultural e, entre outras facetas, servia como uma plataforma para ouvir música, à semelhança do que acontece hoje com YouTube. 

Ora, um erro da empresa durante uma mudança de servidores fez com desaparecesse o acervo musical do MySpace, que era uma mistura de canções originais feitas por aspirantes a músicos e de obras pirateadas de artistas conhecidos. Pelo ralo da Internet também foram as fotografias e vídeos de milhões de utilizadores.

Parte daquele acervo musical foi agora recuperada pelo Internet Archive, uma entidade que se dedica a fazer com que aquilo que está na Internet não desapareça.