Ensaio

Nós aqui (também) não temos paisagem

Por sobre este cenário quase arqueológico, paira o imenso dossel de betão por onde deslizam milhares de veículos, milhões de cavalos embutidos em motores.

Foto
Álvaro Domingues

“Dizia eu que a paisagem é uma forma de evidência do lugar que está longe de se confinar a uma visão idílica dos seus componentes. (…) as paisagens literais ou metafóricas representadas dão conta de diversíssimas formas de o humano se auto-perceber. É na literatura que tal também acontece” (1)

Procurando outros assuntos, encontrei este texto de Helena Buesco sobre a paisagem na literatura. Buscando por uma coisa, encontrei outra, como os Três Príncipes de Serendip — de tanto sucesso que Horace Walpole teve com esta história, se cunhou a palavra inglesa serendipity: descobertas afortunadas que aparecem quando se procuram outras. Como Serendip é a denominação dos árabes antigos para o Sri Lanka e o Sri Lanka é Ceilão e Ceilão é a Taprobana, fica esclarecido o maravilhoso que tal lugar encerra, o que aí se pode encontrar e o que está ainda além.

Dizia então a Helena que a paisagem é uma forma de evidência do lugar e dos humanos se autoperceberem pela forma como experienciam, narram, vivem ou representam esses lugares. Certeiro, a literatura é uma forma de pensar que nos faz muita falta.

Neste lugar parece que tudo se derreteu pela sobreposição dos tempos e pela multiplicação dos espaços. No início era um velho caminho, torto e mal calcetado como foram os caminhos ao longo de milhares de órbitas que o planeta conta. Veio depois o caminho da água, pedra sobre pedra para apoiar caleiras (de pedra) por onde corria uma levada. Desta água das pedras se tirou um fio para uma bica. No descanso da jornada, animais e bestas bebiam e descansavam antes de retomar o caminho e a caminhada. Podiam ser os Príncipes de Serendip, fixados no destino da viagem e retidos ali no momento em que uma princesa passou e lhes trocou os planos e as voltas. Vede nobres senhores, disse ela, que bela paisagem que daqui se avista, subi ao aqueduto, subi e esguardai que frondoso vale, o rio ao fundo, os campos de meu pai. E eles subiram. Quando desceram, nem princesa, nem as moedas nos alforges. Em vão procuraram por ela. Tudo o que tinham planeado ficava por ali, por aquela bica dos maus encontros.

Passaram muitos anos, muita enxurrada pelo caminho, mulas, dias de sol escaldante, poeira, viajantes, mulheres que vinham lavar roupa no tanque que havia atrás, gado e procissões.

Certo dia foi uma nervoseira de máquinas que não tinha termo. Escavadoras, camiões, gruas, guindastes. Uma longuíssima e larga estrada começava a sobrevoar o caminho das pedras. Era o gigantesco viaduto. Por força da obra, o aqueduto ia-se desfazendo e as pedras amontoavam-se no estaleiro (os ductos nem sempre se dão uns com os outros quando se misturam com prefixos e perdem o c antes do t).

Concluída e descofrada a obra de arte auto-estradal, o caminho foi reposto, empedrado novo e passeio generoso como mandam as regras do conforto e da segurança de circulação de peões; o aqueduto foi reconstruído numa versão ruiniforme tosca que lhe aumenta a sensação de intemporalidade. Ficaram alguns panos de um muro que havia e a bica, qual pequeno templo desidratado. Atrás do muro existem tanques novos e cordas para estender roupa a secar. Os tanques estão secos e as cordas, vazias, apesar de a corrente de ar e a protecção da chuva favorecerem tais funções. Não há nada que não se acabe.

Por sobre este cenário quase arqueológico, paira o imenso dossel de betão por onde deslizam milhares de veículos, milhões de cavalos embutidos em motores. O caminho está um sossego, nem um cavalo; passa-lhe quase tudo por cima. Entre a caleira de pedra e a cobertura que vai ganhando uma patine cor de ferrugem, fica um desligamento que aumenta a força cenográfica do acontecimento havido neste lugar. O ruído contínuo do tráfego e a reverberação acústica completam os efeitos especiais desta ambiência, da sua luz.

Paisagem não há. Se alguém subir ao aqueduto, não verá o frondoso vale, o rio ao fundo, os campos do pai da tal princesa. Se se esticar muito, é capaz de dar com a cabeça no betão. Das diversíssimas formas de o humano se auto-aperceber, como escrevia H. Buesco, vive aqui uma paisagem ausente sem sinal de visões idílicas. A autora cita Almeida Garrett, para exemplificar algumas tonalidades românticas sobre desencantamentos:

(…) em verdade não sei explicar a impressão que me faz uma ruína neste estado. Desafinam-me os nervos, vibram-me numa discordância e dissonância insuportável. Queria ver estes altares expostos às chuvas e aos ventos do céu — que o sol os queimasse de dia, — que à noite, à luz branca da lua, ou ao tíbio reflexo das estrelas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sobre seus arcos meio caídos. (…) Quero-me ir embora daqui!

Contudo, o que existe é suficientemente potente para convocar imaginários sobre este olhar oblíquo para a intersecção desnivelada, a ruína velha e a nova estrada. Pobre Garrett, escapou-se-lhe o genius loci, desmaravilhou-se o olhar romântico para o lugar. O passado fixou-se, o grande lençol do tempo deixou aqui uma prega esquecida, um poema de pedras velhas que inquieta os humanos e o modo como percebem os mochos, as corujas e muita ratazana que aqui anda.

1. Helena Carvalhão Buescu (2012), Paisagem Literária: Imanência e Transcendência, in C. reis; J.A.C. Bernardes; M.H. Santana (coord), Uma Coisa na Ordem das Coisas — Estudos para Ofélia Paiva Monteiro, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 193-202, p.202