Ensaio

Nós aqui não temos paisagem!

Afinal, o que é uma paisagem? Uma praia tropical? Uma montanha muito verde? Álvaro Domingues, geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, vai problematizar o tema na conferência de lançamento do Museu da Paisagem a 11 de Abril, na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Um debate em torno da musealização, da sustentabilidade e cidadania.

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Fotomontagem: Álvaro Domingues

Por ocasião de uns encontros com alunos de uma Escola Secundária de Vila Nova de Famalicão sobre paisagem (1), aconteceu-me estar no átrio da escola conversando com colegas e alunos sobre a sessão que se seguiria. Havia por ali um cartaz que anunciava o encontro e os alunos iam chegando junto do auditório. Um deles perguntou-me o que é que eu ia fazer à sua escola; respondi, apontando para o cartaz, que iria falar sobre paisagem. A resposta foi quase automática: nós aqui não temos paisagem!

Perante uma resposta tão rápida e desconcertante (pensava), procurei saber então o que é que seria paisagem para aquele jovem aluno. A resposta também não tardou e veio em forma de exemplos e respectivas explicações sucintas com a inultrapassável expressão “tipo”:

— uma paisagem “tipo” praia tropical, está a ver?..., a areia dourada, as palmeiras, o mar calmo a perder de vista, ou

— assim uma grande cidade, tipo, na América ou no Dubai, aqueles arranha-céus muito altos, ou aquelas imagens das séries americanas da Fox ou do AXN, ou

— assim como em Guimarães, tipo centro histórico com o castelo, as muralhas, as praças, os muros em granito, ou

— uma montanha ao fundo muito verde, com neve, com lagos, com vales, tipo campos, casas pequenas…

PÚBLICO -
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O edifício "moldura" no Dubai DR

Isso sim, eram paisagens! A escolha e os exemplos (havia mais) correspondiam claramente a imagens e imaginários em torno de ambientes mais ou menos tipificados, ficcionais, filtrados por aquilo que Alain Roger chamaria representações de paisagem “in visu” a partir de padrões mais ou menos artísticos ou artializados da paisagem. (2) Percebia-se uma atitude quase romântica, de evasão, de exprimir uma curiosidade e também um desejo de visitar essas “paisagens”, essas ambiências reais/imaginadas consideradas extraordinárias. A conversa animava com comentários de outros alunos, as mesmas ou outras imagens e valorações.

Como as vistas eram bastante generosas, tentei trazer a conversa para a apreciação do vale que dali se avistava. Como é comum no Médio Ave ou noutro lugar, a paisagem revela marcas de muitos tempos que nos surgem ao mesmo tempo num relance do olhar: alguns campos (alguns ainda com vinha de enforcado), maciços arborizados, fábricas antigas ainda com as chaminés das caldeiras a vapor, outras fábricas ou armazéns muito recentes, distintos materiais e cores, casas, prédios de habitação, escolas, estradas de calibre variado, auto-estradas, linhas eléctricas de alta tensão, etc. Domina a abundância e a simultaneidade de coisas que não se ajustam às grandes categorias que habitualmente usamos para decifrar o mundo, taxonomias que estes alunos encontram nos manuais: os adjectivos que organizam um léxico de categorizações de paisagem: urbanas, rurais, naturais, industriais, florestais, etc., como se fosse a classificação precisa dos elementos químicos na tabela periódica.

Já na sala e usando a projecção de fotografias de paisagem da área envolvente, percebeu-se uma grande dificuldade em construir critérios de percepção, de validação e de construção de retóricas apropriadas ao entendimento daquilo que ia sendo visto. Antes de tentar perceber filtros de percepção que conotam isto ou aquilo de uma determinada maneira — feio, bonito, importante, banal, desajustado, coerente, etc. —, aconteciam com frequência três situações:

- dificuldades em identificar com maior precisão aquilo que era visto — p.e. espaço verde revela-se como um genérico, cujo divisor comum é apenas o mundo vegetal e a clorofila. Saber o que é um campo, uma área florestada espontânea, um alinhamento de tílias ao longo de uma rua, uma zona de matos, um jardim, a diferença entre pinheiros e eucaliptos, salgueiros, árvores de fruto, etc., parecia não ter muita importância — curiosa situação em que uma expressão técnica supostamente clara, oculta mais do que aquilo que esclarece; não era a única;

- identificando as partes com categorias genéricas, pode-se imaginar o caos que seria identificar o “todo” ou, antes disso, encontrar explicações parciais sobre a ocorrência de uma determinada situação, p.e., a alternância entre áreas muito construídas e infraestruturadas, e os tais espaços verdes; a relação entre vias e edificação; a mistura entre blocos de habitação colectiva e casas com quintal;

- quanto ao uso das categorias ou (pre)conceitos sobre paisagem, a confusão era total. A primeira tentação era partir da classificação para a realidade: urbano ou cidade (não se distinguia) seria um aglomerado denso de construções perfeitamente destacado da envolvente (rural, está claro); rural, envolvia a noção de terra trabalhada — campos —, mas tornava-se pouco claro se a categoria floresta, maciço arborizado, quintal, matagal, etc. fazia ou não parte do dito rural. Qualquer que fosse a situação, o problema base resulta do facto dessas categorias serem tomadas como mutuamente exclusivas, e situadas em lugares diferentes; ao contrário, na situação em causa, diferentes signos da urbanidade ou da ruralidade misturam-se. Como essa mistura vem já da industrialização do séc. XIX, o assunto era familiar, mas havia uma discrepância total entre o que vem nos livros escolares, as conversas do dia-a-dia, e o simples acto de confrontar essas situações com a realidade presente, questionando-as. Os manuais escolares e um tipo de ensino muito pouco crítico, baseado na acumulação de informação sobre questões genéricas tidas como universais e até modelos-tipo de resposta para efeitos de definição de objectivos e correcção de testes e exames, ensarilham de vez a questão. A referencialidade e o carácter regulador que os ideais-tipo contêm, faziam também com que, não sendo esses referentes de normalidade reconhecíveis, tudo fosse considerado incompreensível e, portanto, caótico. Era quase a situação perfeita daquela afirmação atribuída a Einstein: teoria é quando sabemos tudo, mas nada funciona; a prática é quando tudo funciona, mas não sabemos porquê; nós aqui juntamos teoria e prática: nada funciona e não sabemos porquê!

Alain Bourdin usa a expressão o triunfo dos conceitos vagos (3) (espaço verde, cidade, campo, vias, sustentável, resiliente, descarbonização, paisagem, etc.) para caracterizar, nestes e noutros campos de conhecimento, a fragilidade com que se pretende construir conhecimento e comunicação sem pensar que a elasticidade e a polissemia desses pseudo-conceitos são o contrário do rigor e da clareza que deveríamos encontrar nos verdadeiros conceitos. Se a isso acrescentarmos a parcialidade de certas racionalidades que destacam objectos e respectivos modos de uso ou de existência do contexto mais geral e complexo a que pertencem, é o desastre. Por exemplo: face ao desígnio da descarbonização, deve deixar-se de usar o automóvel convencional porque produz dióxido de carbono (o mesmo para as vacas e para o metano). Se a descarbonização é a da atmosfera do planeta com toda a imensidão, diversidade, contraste e contradição que o caracteriza, como se reparte a geografia da produção do CO2 ou do metano?; quem e onde devia seriamente descarbonizar atendendo ao peso da sua parte? etc. A ecologia ultra-simplificada reduzida ao somatório de gestos individuais, fica esvaziada da ecologia política fundamental à equação do problema. Dir-se-á então não produzirás CO2 como quem diz não matarás, ou não cobiçarás a mulher (ou o homem) do próximo, e por aí ficamos em termos de moral e bons costumes que nada garantem, nem no carbono, nem no resto.

Seja no meio científico ou nas conversas de todos os dias, o conceito vago de paisagem corresponde a duas situações: ou se comporta como uma categoria (falsamente) auto-explicativa e, portanto, as explicações vão acompanhando o fluir da comunicação; ou a polissemia não tem fim e então a paisagem é aquilo de que se fala quando se fala de paisagem e está a questão resolvida. Qualquer incursão essencialista irá esbarrar nas diferenças entre os manuais de pesquisa das essências; qualquer ilusão de transformação da paisagem num facto ou em factos, irá conduzir à questão de que, de facto, quando se fala de paisagem, fala-se de assuntos que vão envolvendo factos, pseudo-factos, relações de sentido, leituras, polémicas, as mais diversas.

Em alternativa, em vez de se procurar uma meta-definição para paisagem, deve-se antes questionar para que serve “a paisagem”: Anne Sgard (4) diz que paisagem é um dispositivo político, envolve jogos mais ou menos tensos de confronto entre modos de ver, de pensar, de valorar…, os vários fragmentos que compõem a narrativa paisagística — rios, casas, árvores, fábricas, nuvens, sons, ambiências, cor… —, e os muitos interesses que estão em jogo consoante as partes em presença, os que tomam a palavra, os que se calam ou os que nem sequer são chamados a discutir.

Não existem instâncias absolutas de legitimação para a paisagem. Na própria Convenção Europeia da Paisagem (Florença, 2000), afirma-se logo nas disposições gerais que “Paisagem” designa uma parte do território, tal como é apreendida pelas populações, cujo carácter resulta da acção e da inter-acção de factores naturais e/ou humanos.

A questão não podia ser mais difusa, contudo, é claro que outorgar às “populações” o papel principal na definição do que é uma paisagem, retira o monopólio aos saberes instituídos e respectivas autoridades, tal como abre um campo ilimitado de atenção para as paisagens ordinárias e não apenas para as extraordinárias. No entanto, logo de seguida diz-se que o “Objectivo de qualidade paisagística” designa a formulação pelas autoridades públicas competentes, para uma paisagem específica, das aspirações das populações relativamente às características paisagísticas do seu quadro de vida.

Fica por esclarecer novamente o recorte político das populações (entendendo por essa designação a população residente), uma vez que, como é natural, haverá diferentes indivíduos e grupos sociais em presença com olhares completamente distintos e até antagónicos; sem deixar de referir que muitos conflitos em torno de paisagens (seja lá o que isso for) partem exactamente do confronto entre interesses locais (das ditas populações ou colectivos, os que por suposição mantêm um vínculo mais directo com as transformações do território) e outros interesses.

Como questiona Anne Sgard a propósito da tensão existente na Suíça sobre a paisagem Alpina (tão insistentemente usada como marco identitário nacionalista, como arquétipo da paisagem de montanha): Que espécie de paisagem temos em comum? Abordada enquanto bem comum, a paisagem implica definir um perímetro e não apenas um sítio, mas, acerca do comum: que colectivo? Qual a escala? Que valores comuns? Que legitimidade ao afirmar esses valores comuns? Que projecto? Que formas de regulação (gouvernance)? O bem comum corresponde a uma categoria a ser preenchida pelo uso, a negociação, o conflito. (5)

O conjunto de reflexões sobre a construção do comum — aquilo que define a própria colectividade, os seus valores, os vínculos, os modos de regulação e partilha do comum —, em torno dessa Paisagem Alpina, chega a ser para Bernard Debardieux um impossível bem comum da Suíça e dos Suíços. A consulta pública que foi feita a propósito da contenção da residência secundária dos projectos turísticos nos Alpes (2012), dividiu a meio a Suíça (6). Estamos muito longe de Obermann (1804), a história que Étienne P. de Senancour conta a propósito do jovem aristocrata que vai viver para os Alpes, um mundo romântico, pitoresco e por vezes, sublime. Estamos muito longe também de Chateaubriand (7): Estas montanhas não são aquelas que existem tal como pensamos ao vê-las; são as montanhas como as paixões, o talento e a musa desenharam-lhe as linhas, coloriram os céus, as neves, os picos, os declives, as cascatas iridescentes, a atmosfera leve, as sombras suaves e imprecisas (…). É o viajante que fala, o desejo de contemplação, de emoção estética. Os pastores das alpages deviam ter outras experiências e outras palavras.

Encaixilhe-se então a paisagem. Encaixilhar é um modo de estabilizar o acto de dar a ver, de escolher uma perspectiva, de fazer coincidir ao olhar de muitos, um modo de ver, um regime dominante de visibilidade. Claro que depois se pode mudar a posição do caixilho, ampliar, usar o caixilho para outra paisagem e, afinal, manter a atenção — coisa que os meus jovens alunos não faziam — sobre questões que nos dizem respeito e que, por isso, constituem a matéria preciosa da construção de uma esfera pública de discussão, de um lugar-comum. De outra forma, a política, o sentido desse comum e o valor do debate vão-se esvaziando e retorcendo para outros assuntos e interesses sabe-se lá de quem. Vamos pois à paisagem!

1. Tratava-se de um projecto — Território Casa Comum — envolvendo uma exposição, debates, visitas e publicações sobre as representações do território em Vila Nova de Famalicão. Cf. Domingues, Álvaro; Travasso, Nuno (2015), Território Casa Comum, Porto: FAUP

2. Alain Roger (2007), Court Traite du Paysage, Paris: Ed Gallimard.

3. Alain Bourdin (2010), L’urbanisme d’après crise, Paris: Éditions de l’Aube (trad portuguesa, Livros Horizonte, 2011)

4. Anne Sgard (2011), Le partage du paysage, Grenoble: Géographie. Université de Grenoble.

5. Anne Sgard (2018), En montagne avec le paysage, un laboratoire du bien commun ?. In: Les carnets du paysage, 2018, vol. 33, p. 106-119, p.116 https://archive-ouverte.unige.ch/unige:106020

6. Bernard Debarbieux (20143, “Le paysage alpin, impossible bien commun de la Suisse et des Suisses ?”, 

Journal of Alpine Research

Revue de géographie alpine [En ligne], Hors-Série, URL http://journals.openedition.org/rga/2285

7. François-René de Chateaubriand (1848-1850), Mémoires d'Outre-Tombe, ed. Jean-Claude Berchet, Paris, Classiques Gamier, 1989-1998, Livro 35º, cap. 16, t lV, p.160.