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Reportagem

Eles (re)descobriram Marvão, agora querem dá-lo a conhecer ao mundo

Uns tinham família na terra raiana, outros vieram refazê-la no campo. Apaixonaram-se por Marvão e agora querem dá-lo a conhecer ao mundo: a pé, a cavalo, de bicicleta pelos carris do comboio ou do passado histórico da região.

Susana Torgal e Lenny Macleod
Adeus, comboio. Olá, Rail Bike

Duas rampas de madeira vencem o desnível entre o armazém e as linhas de carris e é por ali que Susana e Lenny descem as “bicicletas” – estruturas largas de quatro rodas, dois assentos e pedais. Os clientes já estão a chegar para mais um passeio ao longo do antigo ramal de Cáceres, encerrado à circulação ferroviária em 2012, e não há tempo a perder.

Susana Torgal e Lenny Mcleod conheceram-se em Barcelona, ela portuguesa, ele neozelandês. Mudaram-se depois para Lisboa, onde Susana liderou o Café Tati durante sete anos, juntamente com o sócio, Ramón Ibañes. Muitas das coisas que hoje preenchem o bar da Rail Bike Marvão vieram daquele espaço no Cais do Sodré, encerrado no final do ano passado. “O frigorífico, a bancada, os livros, alguns quadros, a balança”, vai enumerando Susana. “Tínhamos de ter um edifício para guardar as rail bikes e receber as pessoas e pensámos em abrir um bar também, para completar um pouco o negócio.”

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Tudo começou há cerca de três anos. Primeiro a vontade de sair de Lisboa, depois as férias em Marvão, a seguir a ideia: “E se puséssemos aqui umas bicicletas?”. O protótipo veio dos Estados Unidos, onde encontraram um projecto semelhante, seguiram-se muitos meses de contactos com as Infra-Estruturas de Portugal. “Isto não existia em Portugal, por isso é que também demorou muito tempo.” Em Outubro do ano passado, o primeiro passeio nas novas bicicletas saiu da antiga estação ferroviária de Beirão-Marvão.

Nas memórias do contrabando, contam-se chinesas, castanhas e café

Existem dois percursos disponíveis, sempre de ida e volta: o trajecto completo vai até à estação seguinte, em Castelo de Vide, onde é feito “um grande piquenique” antes do regresso; a segunda opção segue pela linha de caminho-de-ferro “até uma ponte que está a meio caminho entre as duas estações”, um “sítio impressionante”, garante Susana, porque “a ponte é alta, bonita e está num vale muito bonito, de onde já se vê Castelo de Vide”.

Se tudo correr bem, o casal quer investir em motores eléctricos para ajudar na pedalada, mas para já é tudo vencido à força de pernas. “Para lá é mais a subir, para cá é mais a curtir.”

Maria Romo
Pela serra no dorso dos Caballos de Marvão

No início, tinham apenas “cinco ou seis cavalos”, um por cada membro da família. Hoje são 17. “Gostamos imenso, os meus filhos montam desde pequeninos”, conta Maria Romo, enquanto nos apresenta a quinta e os cavalos.

O Dardo é dos primeiros a aproximar-se, muito mimado, intromete-se no meio da conversa a pedir festas. Estamos rodeados de equídeos, passeiam-se livres entre nós, no montado para lá da estrada nacional. “A quinta estava toda caída, tivemos de reparar tudo. Fomos pouquito a pouquito. Estamos sempre em obras.”

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Maria Romo e a família mudaram-se para Portugal em 2007 e hoje em dia é daqui que parte a maioria dos passeios da Caballos de Marvão. “Começámos a trabalhar em Valência de Alcântara [cidade espanhola mais perto da fronteira], porque vivíamos lá naquela altura, mas começámos a pensar em ter cavalos aqui também em Portugal e vimos que, efectivamente, havia mais negócio aqui.”

O marido, José, é médico em Marvão. Maria e a filha, Sara, estavam desempregadas. Lançaram-se neste projecto em 2012. “No início não pensávamos que íamos ter tanto sucesso porque sabíamos de cavalos, mas não sabíamos nada do negócio.”

Não é preciso saber montar para fazer um dos passeios – “os nossos cavalos são muito meigos e obedientes” – e vai sempre pelo menos um guia a acompanhar o grupo. Parte dos percursos pode incluir troços em estrada, mas a maioria do trajecto é feito por caminhos de terra ao longo da serra de São Mamede, no encalço de velhas histórias do contrabando, pela fronteira com Espanha ou seguindo a antiga rota utilizada pelos judeus sefarditas.

Joaquim Carvalho
Antes de Marvão, a romana Ammaia

Quando o muladi Ibn Maruan começou a erguer um assentamento defensivo em Marvão, lá bem ao fundo, no alto de uma encosta sinuosa, no século IX, já se referia a Ammaia como “a das ruínas”. Ainda haveria população a viver aqui, tanto que Marvão (cujo nome seria inspirado no muladi fundador) era descrita apenas como “fortaleza de Ammaia”.

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Mas a antiga cidade romana, cujo apogeu terá sido entre os séculos I e II, já se encontraria “em decadência”, conta o arqueólogo Joaquim Carvalho. Terá sido posteriormente abandonada, esquecida, sucessivamente soterrada pelos férteis campos agrícolas do vale da Aramenha.

No século XVI, já os terrenos pertenciam ao bispado de Portalegre, as velhas ruínas eram conhecidas na região como “a pedreira dos bispos”. Daqui saiu matéria-prima para a construção das muralhas de Marvão e de Castelo de Vide, do “casco moderno de Portalegre”, de igrejas, palácios e casas particulares. Na sala da colecção epigráfica, vêem-se muitas lajes com parte das inscrições muito gastas, quase apagadas. Durante décadas, foram degraus, bancos, soleiras de portas, até terem sido entregues à Fundação Cidade Ammaia, constituída em 1995.

No restaurante Mil Homens, a tradição “vem com manual de instruções”

No entanto, as investigações arqueológicas que aqui foram feitas com recurso a técnicas geofísicas permitiram fazer uma “radiografia” ao terreno e descobrir que, debaixo dos nossos pés, existe ainda toda uma cidade a erguer-se das ruínas, com “quarteirões muito bem delimitados” por ruas desenhadas à esquadria, onde viveriam entre seis a nove mil pessoas. Lá fora, um painel informativo mostra a dimensão daquilo que não vemos.

São muito poucos os vestígios romanos que se vislumbram entre as ervas. Apenas a porta sul, parte do fórum e das termas foram para já dessoterradas pelos arqueólogos. Assim como centenas de artefactos, recuperados pelos investigadores ou colhidos pelos agricultores ao longo dos anos durante a lavoura dos terrenos. Lucernas, moedas, cerâmicas, bijuteria, peças em vidro.

Parte do espólio encontrado desde então está disposto nas salas do museu por onde nos guia Joaquim Carvalho. Natural do Minho, Joaquim foi estudar História e Arqueologia para Coimbra e integrou a equipa da universidade que aqui iniciou as primeiras escavações. Nunca mais partiu e é hoje director de campo na fundação.

António Marques
Canoagem num Alentejo old school

Estava António Marques de férias em Búzios, no Brasil, quando descobriu que futuro queria. “Fiquei apaixonado pelo tipo de vida que o dono do sítio onde fiquei alojado levava.” Chinelos nos dedos, poucas preocupações, praia à porta. Recebia os hóspedes, guiava-os em actividades pela região e aproveitava o resto do tempo. “É isto que eu quero fazer”, reencena agora António ao volante do jipe que nos leva até à Barragem da Apartadura.

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Dez anos depois daquela viagem ao Brasil, António decidiu abandonar o emprego como engenheiro mecânico e trocar Peniche pela aldeia dos pais, Vale de Rodão, no concelho de Marvão. Começou por reconstruir a primeira casa da família, depois outra. Agora está prestes a abrir um novo alojamento local, na antiga escola primária da localidade, a mesma onde a mãe deu aulas pela primeira vez. “Comprei [o edifício] mais por ela, para dar-lhe ânimo.” Além dos quatro quartos, vai ser ali a sede da empresa para actividades e eventos.

Para já, a oferta da Old School Alentejo Tours divide-se entre excursões de carrinha (máximo oito pessoas) até cidades como Évora, Elvas, Cáceres ou Estremoz, onde costuma levar turistas ao sábado, “por causa do mercado”; passeios pela região em jipes antigos recuperados (outra das paixões de António) – neste caso, por Marvão, Castelo de Vide ou, mais raramente, por troços fora de estrada na serra de São Mamede; caminhadas e passeios de caiaque ou de stand-up paddle na Barragem da Apartadura, com piquenique incluído.

“Ali para a frente começa a afunilar e é uma paz”, garante António, apontando um dos braços do lago artificial. Desta vez, não há tempo para um passeio de caiaque pela Apartadura, mas o caudal está mais baixo do que é costume e permite vislumbrar parte de uma antiga eira, um dos vestígios mais visíveis do casario que ficou submerso durante a construção da barragem, no início dos anos 1990.

António Melara Nunes
Recuperar a tradição do azeite

“Quase toda a gente que cá trabalha, já teve familiares aqui”, começa por contar Daniela Raposo, uma das responsáveis pelas visitas guiadas no Centro de Interpretação do Azeite, instalado num antigo lagar da aldeia de Galegos. No caso de Daniela, foi o avô que viu laborar as velhas máquinas que ela agora nos mostra, suspensas desde que o lagar fechou. Com uma única excepção.

Há umas semanas, as três pedras cónicas de granito que pisavam as azeitonas voltaram a rolar e é por isso, aponta Daniela, que parecem “descoloradas”. “Tivemos aqui um almoço de antigos lagareiros e desafiámo-los a pôr o lagar a trabalhar, mas sem azeitonas”, conta. “Foi um espanto para todos nós porque ninguém sabia que ele ainda ia mexer depois de tanto tempo fechado.”

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A empresa agrícola é mais antiga, criada pelo bisavô de António Melara Nunes numa data que não é possível precisar, mas o lagar, apuram os registos, é de 1953. Até à campanha de 1999/2000, era aqui que muitos produtores de azeitona da região vinham transformá-la em azeite. Cada depósito final ainda guarda o número atribuído a cada cliente. “Antigamente não pagavam pelo serviço. Havia uma quantidade de azeite que ficava cá para, mais tarde, o lagar vender para outras marcas.” Como a Gallo, revela Daniela, que chegou a vir buscar azeite quando ainda estava a desenvolver a marca.

Há dez anos, os herdeiros decidiram retomar o negócio da família Melara Nunes. Construíram um lagar moderno nas traseiras do edifício, lançaram uma marca própria de azeite (Marvão) e avançaram com a recuperação do antigo espaço para transformá-lo num Centro de Interpretação do Azeite, aberto a visitas há cinco anos.

“O [nome] lagar-museu é mais fácil para o turista, mas a ideia aqui é convidar as pessoas a sentarem-se, a experimentarem um bocadinho a nossa história e a perceberem o que era o olival tradicional e as suas virtudes”, descreve António Melara Nunes. A visita completa inclui degustação, num “reeditar daquilo que eram os almoços dos lagareiros”, onde não faltará o bacalhau ou o bolo de azeite.

Um supper club em Marvão? Sim, e serve petiscos pedidos

A Fugas viajou a convite da Câmara Municipal de Marvão