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Sérgio Conceição, o treinador que relançou um FC Porto “à imagem do Norte”

Técnico viverá o jogo oficial número 100, diante do Boavista, a partir da bancada, após castigo disciplinar. Antigo companheiro e ex-jogador elogiam-lhe a entrega e exigência.

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Sérgio Conceição procura somar mais títulos ao serviço do FC Porto LUSA/MANUEL FERNANDO ARAÚJO

“Chegar aqui agora é o concretizar de um sonho, de uma etapa. São estes momentos que me fazem feliz, que me fazem superar, com a minha ambição e qualidade no trabalho. Muitas vezes podem julgar que foram buscar um ex-atleta de raça, de grande ambição. É verdade, são características associadas à minha qualidade de trabalho. É com esse espírito que vimos aqui dar o melhor, sermos exigentes, rigorosos, disciplinados, para, no fim, dar à nossa massa adepta a alegria dos títulos”.

Praticamente dois anos após ter proferido estas declarações, é seguro dizer-se que Sérgio Conceição não defraudou as expectativas de uma massa associativa na qual, de certa maneira, sempre se incluiu. O treinador chegou a um FC Porto que atravessava um período de quatro anos de jejum a nível de títulos — período temporal no qual se contabilizam cinco técnicos — e acabou por ser ele a recuperar as vitórias e os valores do clube, que o próprio contribuiu para sedimentar na viragem de século.

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Conceição prometeu e cumpriu: em Maio, quebrou o jejum de títulos dos "dragões" Paulo Pimenta

Depois de 99 partidas como timoneiro dos “dragões”  - cumpre neste sábado o 100.º jogo, na recepção ao Boavista -, soma 74 vitórias, 15 empates e dez derrotas, contabilizando dois títulos (campeonato nacional e Supertaça). Mas, para além dos resultados, talvez a maior mudança operada por Conceição tenha mesmo sido na vertente emocional do clube. O famoso “mar azul” e a tradicional roda no final de cada partida foram elementos introduzidos pelo técnico para unificar os adeptos e concentrar o apoio em torno do plantel. 

“O FC Porto mudou claramente desde a entrada do Sérgio Conceição. Diria que, de forma muito inteligente, conseguiu montar uma equipa à imagem do Norte. O FC Porto necessitava de voltar a ter capacidade de trabalho, compromisso, entrega. Tudo isso é a base do sucesso. Ele conseguiu dar à equipa essas características”, explica ao PÚBLICO Domingos Paciência, antigo colega de equipa de Sérgio Conceição nos “dragões”.

“Aproveitou jogadores que não tinham lugar”

Sérgio Conceição não poderia ter desejado mais na primeira época enquanto treinador dos portistas: foi campeão nacional e, ao mesmo tempo, impediu um histórico pentacampeonato do Benfica, eterno rival. Terminou a época com 88 pontos, recorde absoluto para os “azuis e brancos”, registou o melhor ataque, melhor defesa, mais vitórias e menos derrotas. Para além disso, chegou aos oitavos-de-final da Champions, fase na qual foi eliminado por um Liverpool que, curiosamente, voltará a encontrar já este mês, na mesma prova.

Para Domingos Paciência, a explicação para o sucesso da época passada é clara: “O Sérgio teve a capacidade de rentabilizar jogadores que estavam emprestados. Num momento em que o FC Porto atravessava restrições financeiras, conseguiu fazer um grupo com atletas que, noutras épocas, não teriam lugar no clube. Caso do Marega e muitos outros.” E o treinador também não se surpreende com o facto de Conceição estar obrigado a viver o derby da Invicta a partir da bancada, confirmando que a emoção à flor da pele é uma “característica da sua personalidade” e do “investimento que coloca na carreira”.

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Sérgio Conceição foi apresentado aos sócios em Junho de 2017 JOSE COELHO / LUSA

Gonçalo Paciência, jogador do Eintracht Frankfurt, foi treinado por Sérgio Conceição na época transacta. Tal como o pai, garante ao PÚBLICO que o carácter de Sérgio Conceição é a principal característica que o distingue dos demais treinadores.

“Não há dúvidas de que é um excelente treinador, como tem vindo a demonstrar. Acho que a grande diferença dele é a nível da exigência e disciplina. Só nele é que isto funciona, também por ter sido uma antiga lenda do clube. Obriga-nos a nós, jogadores, a trabalhar e acaba por mexer connosco. Tanto para o bem, como para o mal”, relembra Gonçalo.

Para além de querer manter a pressão sobre o Benfica, primeiro classificado com os mesmos pontos que os “dragões”, mas em vantagem no confronto directo, a marca simbólica que atingirá no derby oferece razões redobradas a Sérgio Conceição para ambicionar a vitória. Mesmo que as emoções da partida frente ao Boavista sejam vividas a partir da bancada.