Opinião

“Eu sempre fiz assim!”

Quem ensina, mais do que qualquer outra pessoa, tem de se “despir” desta forma de pensar, e ensinar aos alunos exatamente o oposto.

Quantas vezes ouvimos esta expressão, dita em tom de exclamação, e até de algum autoritarismo? Esta expressão é o sinal mais evidente das barreiras à mudança, ao desenvolvimento, à melhoria da qualidade da gestão, com o qual muitas organizações se deparam.

E desengane-se quem acha que só algumas empresas, alguns setores de atividades, convivem com este mindset. Esta forma de pensar atua em diversos contextos. Mas, há um onde esta forma de reagir é uma enorme armadilha… O contexto do ensino!

Quem ensina, mais do que qualquer outra pessoa, tem de se “despir” desta forma de pensar, e ensinar aos alunos exatamente o oposto. Ensinar e, sobretudo, mostrar com o seu próprio comportamento. No ensino há a obrigação de inovar nos conteúdos, nas pedagogias, na experiência da aprendizagem, de forma a se dar resposta aos atuais desafios das empresas.

Um gestor bem preparado nunca usará esta expressão, pois terá necessariamente um sólido pensamento crítico que o fará ser capaz de pensar nos problemas, e de articular soluções únicas e lógicas, sobretudo quando se depara com informação imperfeita, ambígua ou em excesso.

Um gestor com pensamento crítico não age por repetição, tradição, isto é, porque sempre fez assim. E as escolas de negócio têm a obrigação de estimular os seus participantes a adquirir, ao longo da formação, competências de pensamento crítico, para que sejam capazes de justificar e argumentar eficazmente, que sejam capazes de testar conclusões de forma a garantirem consistência, que sejam capazes de fomentar processos assentes no “reasoning thinking”.

Nas escolas não podem existir vozes a ecoarem: “Eu sempre fiz assim”. Nos espaços de ensino, o “sempre” deve dar lugar a “será que”. Nos espaços de ensino devem-se questionar metodologias, conteúdos, a forma de fazer as coisas. É tempo de sabermos ligar, nas instituições de ensino, a missão, às competências e aos objetivos das escolas, em ligação com o mercado.

Quando assumimos o “Eu sempre fiz assim” é porque não compreendemos que a gestão é uma arte, muito além do conhecimento. E que a arte é uma atividade humana realizada por meio de uma grande variedade de linguagens, que implica um processo criativo, tentando dar um significado único e diferente a cada obra. Na arte, como na gestão, não há uma única forma de fazer as coisas.

“The trouble with our times is that the future is not what it used to be” 
Paul Valéry