“Estamos a pagar aos populistas para estarem a trabalhar nos países deles contra a Europa”

Comissário diz que a Europa não deveria pagar aos partidos que têm por objectivo a sua própria destruição

Carlos Moedas é comissário Europeu
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Carlos Moedas é comissário Europeu nelson garrido

O comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, admite que a Europa possa vir a ter “grandes problemas” ao aceitar no seu inetrior quem esteja contra o projecto europeu. “Preocupa-me brutalmente vir a ver comissários nomeados pelos Governos italiano e polaco”, assume.

O antigo governante social-democrata respondia assim a uma pergunta do PÚBLICO sobre a inquietação que perpassa actualmente nas instituições comunitárias acerca dos resultados das próximas eleições europeias e o previsível aumento do peso dos partidos populistas e xenófobos.

Ainda assim, diz Carlos Moedas, pode acontecer que haja alguma inversão no discurso anti-europeu por parte de alguns desses políticos. “Salvini já mudou o discurso, já não diz ‘somos contra a Europa’, mas sim ‘somos a favor, mas temos de mudar tudo’. Mas atenção! Ele mudou o discurso, não mudou a forma de pensar”.

O comissário diz que o Parlamento Europeu abre as suas portas e financia partidos que têm como agenda destruir o próprio Parlamento Europeu. “Não deveríamos aceitar isso. Já hoje esses deputados não vão a uma reunião, não fazem relatórios. É de mais. Gostaria que se estabelecessem regras para que isso não aconteça”. E deu o exemplo de Marine Le Pen que tem assessores que são pagos pelo Parlamento Europeu e que não estão em Bruxelas, mas sim em França a trabalhar contra a Europa.

“Nós estamos a pagar aos populistas para estarem a trabalhar nos países deles contra a Europa. Mas os nossos princípios democráticos profundos travam-nos de fazer alguma coisa para dificultar isso”, disse.

Carlos Moedas deu o exemplo da Eslováquia, onde há deputados que vão vestidos de nazi para o Parlamento e alertou que há pelos menos dez países da União que têm partidos de extrema-direita com discurso anti-europeísta que têm mais de 10% dos votos.

“Temos de saber contar a História”, disse, fazendo alguma auto-crítica ao projecto europeu por não perpetuar a memória e evidenciar perante as gerações mais novas as grandes vantagens da UE. “Os populistas apropriam-se das emoções e no mundo digital aquele que tiver a história emocional ganha sempre, o que tiver a história racional ou factual perde”, afirmou, alertando que o digital é relevante porque hoje em dia já se chamam aos mais jovens a geração dos “pure screens” (ecrãs puros).

Referindo-se ao “Brexit”, Carlos Moedas diz que os conselhos dados aos britânicos pela primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg, num discurso recente, resumem o que ele próprio sente. “Ela recordou aos britânicos que os noruegueses tomaram a decisão de não estar na UE, mas têm de seguir as mesmas regras que os europeus exigem. É um bocado triste pensar que se eu não estiver à volta da mesa possa ser mais soberano do que se eu lá não estiver”.

* O PÚBLICO viajou a convite do Centro de Informação Europe Direct Oeste e Lezíria do Tejo