“A mulher do próximo”. Quando nomeações de mulheres de ministros de Cavaco foram notícia

O Independente revelava em 1992 que mulheres de governantes de Cavaco Silva pertenciam ao mesmo governo que os maridos. PS recorda episódio para contra-atacar oposição... e Cavaco Silva.

Capa do jornal O Independente, utilizada no livro "O Independente - A máquina de triturar políticos"
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Capa do jornal O Independente, utilizada no livro "O Independente - A máquina de triturar políticos"

As nomeações de familiares para cargos nos governos são história antiga. Em 1992, o extinto jornal O Independente titulava em capa “A mulher do próximo”. O título encabeçava uma notícia que contava que mulheres de governantes do primeiro executivo de Cavaco Silva tinham sido nomeadas para cargos no mesmo executivo, mas noutros ministérios. O caso foi recordado pela secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, num debate na SIC Notícias, depois de Cavaco Silva ter dito que tinha passado os seus Governos a pente fino e não ter encontrado relações familiares.

O caso está a incomodar os socialistas que consideram que as nomeações familiares podem prejudicar o partido já nas eleições de Maio. Contudo, no interior do PS há também um sentimento de injustiça por estar a ser feita uma campanha negra sobre o caso, quando os casos de familiares no Conselho de Ministros eram conhecidos desde o início do executivo - Eduardo Cabrita e a mulher Ana Paula Vitorino e Vieira da Silva e a filha Mariana Vieira da Silva.

Ana Catarina decidiu, por isso, contra-atacar, recomendando a Cavaco Silva que fosse ler O Independente de 7 de Fevereiro de 1992. Na capa do jornal, que tantas dores de cabeça deu a Cavaco, lia-se: “Ministros e secretários de Estado empregam as mulheres no Governo”.

“É uma investigação feita pelo doutor Paulo Portas [na altura, na direcção do jornal], em 1992, que revelava bem quais eram as escolhas do primeiro-ministro Cavaco Silva”, disse Ana Catarina Mendes.

O episódio relatado pelo jornal foi recordado no livro O Independente - A máquina de triturar políticos da jornalista do PÚBLICO, Liliana Valente, e do jornalista do Expresso, Filipe Santos Costa. No livro, os autores recordavam que as mulheres destes governantes “trabalhavam todas” no Governo. “Umas já lá estavam, outras entraram de fresco, mas, apesar da ‘endogamia do poder’, nenhuma trabalhava no gabinete do marido”.

Em causa estavam as mulheres de ministros e secretários de Estado que nomeavam as mulheres entre si. Fernando Nogueira, Dias Loureiro, Arlindo Cunha, Marques Mendes e Luís Filipe Menezes eram os principais visados.

O primeiro caso relatado era o da mulher de Fernando Nogueira. Enfermeira de profissão, Maria dos Anjos Nogueira, mulher do ministro da Presidência, era adjunta do secretário de Estado da Saúde, Martins Nunes, requisitada ao hospital onde trabalhava. A mulher do então ministro já tinha feito parte do Ministério da Saúde, no mandato anterior, liderado por Leonor Beleza, que chegou a passar pelo mesmo Governo que o irmão, Miguel Beleza, enquanto ministro das Finanças.

Por sua vez, Fernando Nogueira tinha no seu gabinete como nomeada Maria Cândida Menezes, que chegou ao Governo mais cedo que o marido, Luís Filipe Menezes, que no segundo Governo de Cavaco Silva viria a ser secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares.

No que toca a mulheres de ministros, o jornal contava a história de Dias Loureiro, mas aqui a situação era diferente. Fátima Dias Loureiro trabalhava como adjunta de Santana Lopes, na secretaria de Estado da Cultura, mas explicava que já era “quadro da função pública” e que trabalhava naquela secretaria de Estado anteriormente.

Já a mulher de Luís Marques Mendes, então secretário de Estado da presidência do Conselho de Ministros, era a verdadeira história de uma novata nas lides governamentais. Sofia Marques Mendes era adjunta do secretário de Estado da Agricultura, Álvaro Amaro, agora dirigente de Rui Rio. 

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Por sua vez, a mulher de Álvaro Amaro, Celeste Amaro, estava no gabinete de Marques Mendes. Segundo o jornal “estreou-se nos serviços sociais da Presidência do Conselho de Ministros” e explicava ao jornal: “As coisas são difíceis para qualquer mulher de um membro do Governo. Tem de se servir de mãe e pai. E ninguém que seja profissional quer deixar de trabalhar. Acontece o mesmo com algumas amigas minhas que estão na mesma situação”.

O gabinete do agora comentador da SIC tinha ainda Paula Teixeira da Cruz como assessora, então casada com Paulo Teixeira Pinto, que tinha sido recém-nomeado subsecretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, trabalhando os dois, dizia o jornal, “paredes meias”.

Outra das mulheres de governantes que estava “na mesma situação” era Margarida Cunha, casada com o então ministro da Agricultura, Arlindo Cunha. Era secretária de Couto dos Santos, então ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares.

Os relatos do jornal incluíam ainda a mulher de Carlos Encarnação, Maria de Sousa Encarnação, que trabalhava com Sousa Lara, quando este era subsecretário da Cultura e o marido secretário de Estado da Administração Interna. 

Confiança pessoal

A lista era extensa e contava ainda com outras nomeações entre outros familiares, como irmãos que moravam juntos e trabalhavam em gabinetes diferentes. O jornal escrevia que estas relações eram explicadas “pela confiança pessoal”. “A lógica é que não há melhor guardião dos segredos de um ministro do que a mulher de outro ministro”. Além disso, recordava o jornal, alguns destes casos prenderam-se com uma junção das famílias, separadas entre o Porto e Lisboa. Uma das nomeadas, mulher do então secretário de Estado da Administração Interna, Carlos Loureiro, chegou a desabafar que quando o marido aceitou o cargo foi na condição de “virem os dois para Lisboa”.

Além das ligações mais directas, o jornal referia que havia outras relações nos gabinetes. Casos que passaram despercebido ao antigo Presidente da República sobre os seus governos. Cavaco Silva criticou esta quarta-feira “a prática de jobs for the boys” como “muito negativa para o país” e referiu ainda: “Por curiosidade, fui verificar a composição dos meus três governos durante os dez anos em que fui primeiro-ministro e não detectei lá – espero não me ter enganado – nenhuma ligação familiar”. 

As nomeações de familiares para o Governo têm sido uma dor de cabeça para António Costa nas últimas semanas, com notícias sobre várias nomeações de familiares dentro dos gabinetes. A última notícia, do Observador, dava conta que o secretário de Estado do Ambiente tinha nomeado um primo para seu adjunto. O caso resultou na demissão do governante.