Opinião

Uma provocação infeliz ao Reino Unido

Convirá nunca esquecer que se é pensável uma União Europeia sem o Reino Unido, sobretudo quando os próprios não querem participar nela, é inimaginável uma Europa sem os britânicos.

1. Numa clara manifestação de confiança na soberania parlamentar, os britânicos costumam dizer que no seu Parlamento tudo se consegue levar a cabo com a excepção de transformar um homem numa mulher. Este adágio parece hoje algo ultrapassado e talvez devesse ser substituído por um outro: no Parlamento britânico tudo é exequível salvo aprovar uma qualquer solução susceptível de resolver o problema do “Brexit”.

À primeira vista tal ocorrência depara-se estranha, mas uma análise mais detalhada do tema permite uma rápida compreensão de tudo quanto tem vindo a suceder. Alguém escrevia, há dias, que o que se tem passado em Westminster constitui uma síntese quase perfeita de Shakespeare, dos Monty Python e da série americana House of Cards.

Este aparente desvario da elite britânica resulta fundamentalmente de dois motivos facilmente explicáveis: por um lado, a contradição entre a opção popular pelo “Brexit” manifestada num referendo nacional e a persistência de um Parlamento onde predominam os deputados anti-"Brexit"; por outro lado, o sucesso do “Brexit” resultou da associação de dois eleitorados radicalmente distintos: os ultraliberais contrários às regulamentações europeias e as vítimas da precarização laboral imposta pelo ultraliberalismo.

Se é verdade que sempre persistiu no Reino Unido um fundo cultural adverso ao projecto europeu, e se não é menos certo que uma ampla rejeição da imigração proveniente dos países do Leste adquiriu uma importância desmedida no contexto da discussão que antecedeu o referendo, a realidade é que os dois aspectos atrás enunciados dificultam o surgimento de uma solução política para o tremendo problema que afecta toda a sociedade britânica.

Há hoje quem pretenda atribuir idênticas responsabilidades pelo presente impasse à União Europeia e aos britânicos. Esse salomónico juízo não dispõe, contudo, da menor validade. Não será por acaso, aliás, que os governos dos restantes 27 Estados-membros, habitualmente predispostos a divergir em quase tudo, se tenham mantido unidos na abordagem deste tema.

Num primeiro momento, vários responsáveis políticos do Reino Unido acreditaram que poderiam dividir os restantes países europeus. Confiaram excessivamente na sua própria capacidade de gerar essas divisões, quer por motivos de natureza económica e comercial, quer por razões de ordem histórica e política. Esse intento inicial falhou. Perante uma União Europeia por uma vez firme, resoluta e una, o Reino Unido viu-se forçado a revelar em todo o seu esplendor as contradições que o percorrem. E assim chegámos à triste situação que vamos presenciando todos os dias: uma primeira-ministra sem autoridade, um Governo desorientado, um Parlamento bloqueado e um país inquieto.

Nas últimas horas, May procurou a ajuda do líder trabalhista, apelando a um entendimento interpartidário que reputa imprescindível nas dramáticas circunstâncias que afligem o seu país. Trata-se de uma decisão arrojada, que merece o devido aplauso. Se falhar esta última perspectiva de entendimento entre as duas principais figuras da política britânica não restará provavelmente outro caminho que não seja o da convocação de eleições legislativas antecipadas. Não é certo que daí resulte um novo cenário parlamentar capaz de garantir a resolução do ingente problema do “Brexit”. Não há, por isso, razões para excessivos optimismos.

2. Por muito que estejamos desiludidos com a posição britânica convirá nunca esquecer que se é pensável uma União Europeia sem o Reino Unido, sobretudo quando os próprios não querem participar nela, é inimaginável uma Europa sem os britânicos. Guilherme de Ockham, Shakespeare, Locke, Hobbes, More, Turner, os dois Bacons (o filósofo renascentista e o pintor contemporâneo), Russell e Churchill, entre vários outros, ocupam lugares insubstituíveis na cultura europeia. Nunca nenhum “Brexit” os afastará da nossa memória comum. Tal como é impossível ignorar o que os Beatles ou os Rolling Stones significaram no imaginário popular do nosso continente.

Por isso mesmo, actos que possam ser percebidos como manifestações de agressividade gratuita em relação ao Reino Unido deveriam ser evitados por parte da União Europeia. Reconhecendo a complexidade do problema de Gibraltar, e a peculiar relação espanhola com o mesmo, considero desafortunada a decisão tomada pelo Conselho Europeu — em vias de ser hoje ratificada no Parlamento Europeu, com o meu voto contrário — de atribuir àquele rochedo e suas adjacências o estatuto de colónia britânica.

Esta cedência à diplomacia espanhola constitui uma verdadeira provocação ao Reino Unido. Já agora, seria interessante saber o que pensam os nossos amigos espanhóis das situações de Ceuta e Melilla ou até mesmo da nossa muito próxima Olivença. Há uma coisa de que ninguém pode duvidar: na mesma altura em que Franco e o seu tenebroso falangismo nacionalista e fascista se impunham por toda a Espanha, os ingleses, sob a liderança de Churchill, lutavam pela perpetuação da democracia liberal. Seria bom nunca esquecer tal coisa.