Sondagens mostram Espanha a caminho de um beco sem saída político

Os números relativos às eleições de 28 de Abril revelam o equilíbrio entre direita e esquerda que provocou três governos e duas eleições antecipadas em quatro anos. Partidos lançam-se na sedução do voto urbano indeciso.

Albert Rivera já garantiu que o Ciudadanos não viabilizará um Governo de Pedro Sánchez
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Albert Rivera já garantiu que o Ciudadanos não viabilizará um Governo de Pedro Sánchez Juan Medina/Reuters

A Espanha arrisca-se a acordar num impasse político na manhã de 29 de Abril. As sondagens põem sistematicamente os socialistas à frente, mas sem capacidade para formar uma maioria de esquerda para governar. À direita, um Partido Popular (PP) longe de outros tempos, um Cidadãos, que surge um pouco abaixo ou acima da sua última votação em legislativas, e um Vox de extrema-direita que aparentemente está a perder algum gás, também não parecem capazes de formar uma maioria para governar.

Esta quinta-feira, o barómetro das sondagens compilado pelo El País mostra o PSOE a recuperar terreno e a assumir uma liderança confortável em relação ao PP, permitindo voltar a equilibrar as intenções de voto entre a esquerda e a direita.

As variações nos números das sondagens não ajudam a clarificar o cenário das legislativas do dia 28 de Abril, até porque os institutos de pesquisa estão a braços com um fenómeno que afecta os modelos usados para calcular as intenções de voto. “O problema já não são as pessoas que não sabem muito bem, mas aquelas que dizem hoje que vão votar num partido e amanhã afirmam que votarão noutro”, disse o director de Investigação e análise da empresa de sondagens Sigma Dos, José Miguel de Elías, citado pelo site RTVE.es.

Se já é habitual contarem com 25% de eleitores indecisos a esta distância de uma votação, como podem as empresas aferir resultados fiáveis, com as habituais margens de erro, se o inquirido responde em quem vai votar, com a ressalva de que poderá mudar de ideias até lá?

Sete em cada dez eleitores estão decididos a ir às urnas no domingo, 28, mas, desses sete, há 20% que não faz a mínima ideia sobre o partido a votar. São estes decididos indecisos quem acabará por definir o resultado, podendo contribuir para manter o impasse da falta de uma maioria para governar ou optando por uma solução clara de governo.

Sinal de que ao centro poderá estar a virtude da equação, o líder do Cidadãos, Albert Rivera, ao mesmo tempo que insiste numa coligação com o PP para as legislativas (negando a possibilidade de qualquer entendimento pós-eleitoral com o PSOE), elabora uma lista para as europeias em que coloca a ex-socialista Soraya Rodríguez e o ex-presidente autonómico das Baleares José Ramón Bauzá em lugares elegíveis, bem como Maite Pagazaurtundúa, dos liberais da União, Progresso e Democracia (UPyD).

Cidadãos e UPyD assinaram um acordo eleitoral em que os liberais abdicam de se apresentar nas urnas com a sua sigla, integrando algumas das listas do partido de Rivera.

O PP considera o gesto do Cidadãos tardio, porque as listas estão fechadas. Registam o compromisso público de Rivera de não apoiar a investidura de Pedro Sánchez, caso os socialistas sejam os mais votados sem maioria para governar, embora o considerem um gesto de distanciamento estratégico para capturar o eleitorado ao centro que está desencantado com o PSOE. Até porque Casado chegou a oferecer a possibilidade de os dois partidos partilharem listas para o Senado e candidaturas únicas no País Basco, tendo sido rejeitado.

O susto da vaga de direita

A possibilidade de uma grande vaga de direita em Espanha, depois do resultado alcançado na Andaluzia (onde PP e Cidadãos governam com apoio parlamentar do Vox, de extrema -direita, depois de 36 anos de domínio socialista) parece assustar uma parte moderada do eleitorado que não se quer ver confundido com falangistas, saudosistas da ditadura, neo-nazis e outros radicais de direita que se abrigam no Vox.

A sondagem das sondagens do El País mostra como a soma entre PSOE e Unidos Podemos (que, desde a moção de censura que derrubou o Governo do PP o ano passado, apoia parlamentarmente o Executivo socialista) tem vindo a diminuir aos poucos. Era de 12% há um ano, passou a 9% em Dezembro e agora está em 5%. O aproximar da data das eleições está a levar o resultado para o mesmo impasse de 2015, sem uma maioria clara, que resultou em três Governos em quatro anos e duas eleições antecipadas.

Pedro Sánchez, depois de um mês de Março passado em pré-campanha em cidades mais pequenas e zonas rurais, a tentar mobilizar um eleitorado que muitas vezes se sente abandonado pelos partidos, prepara agora uma ofensiva urbana para captar o maior grupo de eleitores indecisos que estão nas grandes cidades. Como disseram fontes socialistas ao eldiario.es, “quatro ou cinco assentos parlamentares podem ser determinantes” numa disputa tão equilibrada.

Mas os socialistas não estarão sozinhos nesse campo de captação de votos essencial na campanha eleitoral que começa oficialmente no dia 12 de Abril. E, aparentemente, as estratégias são semelhantes, pelo menos no que diz respeito à imagem. PSOE e PP optaram por deixar de lado os seus símbolos para apostar no coração como imagem de campanha. O dos Populares leva as cores de Espanha e assemelha-se quase a uma nuvem sobre as letras do partido. O PSOE optou mesmo por assumi-lo como logótipo em vez da rosa e do punho.

O Unidos Podemos, a coligação entre o Podemos e a Esquerda Unida, mantém o mesmo coração que estreou nas eleições de 2016 e o Cidadãos continua a usar o seu coração espanhol-catalão-europeu. Como explica o desenhador gráfico Modesto García, citado pelo La Vanguardia, “com um panorama político tão agitado, parece muito normal que quase todos os partidos estejam a pensar na sedução dos seus eleitores, no embelezamento da sua imagem”.

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