Dah! Mas quem é que não conhece Billie Eilish?

Aos 17 anos a americana Billie Eilish teve uma ascensão meteórica, mas o seu universo e música é mais ousada do que é habitual nos territórios do estrelato juvenil.

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Billie Eilish, 17 anos, e um universo que nada tem de apaziguador

Apenas um ritmo electrónico, uma linha de baixo encorpada, umas notas de teclado para encontrar alguma harmonia, um ambiente algo nostálgico e uma voz adolescente segredada, num tipo de produção caseira, sem grandes artifícios.

São assim a maior parte das canções de Billie Eilish no álbum de estreia When We Fall Asleep, Where do We Go? E são francamente boas, conseguindo desvendar em simultâneo um universo interior, com tanto de grotesco como de belo, ao mesmo tempo que nos permite especular sobre um possível retrato social de uma certa adolescência global.

Começamos pela música porque por norma o que se escreve sobre ela inicia-se sempre pela idade, 17 anos, ou pelos números e feitos: a ascensão meteórica ao estrelato, os milhões de vezes que a sua música foi ouvida nas plataformas de streaming, os espectáculos esgotados pelo mundo – em Setembro, estará em Lisboa, na Altice Arena há muito lotada – as participações nos programas de TV americanos mais badalados ou os 15 milhões de seguidores no Instagram. Hoje é uma celebridade adolescente reconhecida.

Se ainda não percebeu de quem estamos a falar, existe uma boa hipótese de já ter mais de 35 anos e não ter filhos ou sobrinhos. Ou então vive noutro planeta. Como diria Billie Eilish: “Dah!” Já quem tem filhas, como no caso de Dave Grohl (Foo Fighters, Nirvana) e Flea (Red Hot Chili Peppers), que se tornaram entusiastas da cantora, as hipóteses de não estar a par do fenómeno são reduzidas.

Ela que aos 13 anos, na companhia do irmão Finneas O’ Connell, quatro anos mais velho, compuseram no seu quarto de Los Angeles a lânguida balada Ocean Eyes. A canção, agora multiplatinada em muitos países, não foi a primeira que puseram na plataforma SoundCloud sem grandes expectativas. Antes já tinha havido, por exemplo, Fingers crossed, a primeira canção soturna que compôs, aos 12 anos, sobre amor em tempos de apocalipse e zombies.

Desde então os seus seguidores foram-se multiplicando, reconhecendo-se na música, entre a pop electrónica e o trap, nas letras crípticas, na estética bizarra dos vídeos e numa autoconsciência própria de quem já cresceu com a Internet consolidada, estando sempre em rede social. Depois há ainda o visual andrógino, a atitude de quem acha que a existência é um tédio e um mundo que faz lembrar a poesia de Mira Gonzalez (outra adolescente, autora do excelente livro I Will Never Be Beautiful Enough to Make us Beautiful Together), misto de desconexão, solidão e depressão, mas tudo pontuado por observações lúcidas.

Não falta quem defenda a tese que ela constitui a enésima variação da história da celebridade desenhada a régua e esquadro pela indústria da música. E do outro lado da barricada quem argumente que ela tem vindo a vingar porque, precisamente, não corresponde ao padrão dos ídolos juvenis, longe do modelo da inocência ou da sedução, permitindo-se ser taciturna, depressiva, analítica, vulnerável, assombrada pela morte, mas também sem receio do confronto – “I do what I want when I’m wanting to / My soul so cynical”, canta em Bad guy. Algures, no meio, residirá a verdade.

Uma coisa é certa, o mundo de Billie Eilish, que é também o nosso, não é apaziguador, devolvendo-nos um realismo sujo, uma espécie de solilóquio individual sobre a canseira do quotidiano, as pequenas frustrações que remoem, a intoxicação do dia que dá lugar à anestesia da noite, o amor visto como poder ou obsessão destrutiva.

Ela diz que uma das suas grandes influências é o rapper Tyler, The Creator, e na verdade tanto para ele como para ela, as redes sociais são o seu bairro, e o quarto de dormir o seu estúdio. Mas é em Lorde que se pensa de forma mais imediata quando se tenta cartografá-la. Parece existir a mesma autonomia criativa, o mesmo tipo de observações sociais e até a mesma aura gótica, para além da aposta numa sonoridade descarnada, que projecta muito espaço.

Quando as canções são dinâmicas em termos rítmicos (Bad guy, Bury a friend), ou expõem contrastes vincados (You should see me in a crown, Wish you were gay, My strange addiction) os resultados são sempre convincentes, sendo-o por vezes menos quando se entra em territórios mais plácidos ou pesarosos. Às vezes existem sons maquinais, ou a voz é distorcida, por entre linhas de baixo reforçadas, enquanto outras vezes se ouvem simples acordes acústicos que se dissolvem por entre mantos atmosféricos.  

Até agora, apesar de todos os seus feitos, parecia estar ainda na sua bolha, criando música com o irmão, recebendo o apoio discreto da família e formando uma rede de milhões de seguidores por esse mundo fora, representando uma cultura juvenil que se identifica com ela. De seguida começa o teste de como irá lidar com um sistema que tende a digerir tudo o que é inicialmente singular, para de seguida o devolver ao mercado em configuração uniformizada.

Para já, escancarou-nos a porta da sua mente, que parece ser a de muitos outros adolescentes como ela, e fê-lo em grande estilo.