Crítica

O menino na mão das bruxas

Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt passam à longa com uma comédia de enganos clássica dobrada de pastiche de espionagem série Z; é um filme de maturidade que ainda tem qualquer coisa de imaturo

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Eis finalmente nas salas portuguesas, com um ano de atraso sobre a sua estreia eufórica em Cannes, o muito badalado Diamantino, passagem do enfant terrible Gabriel Abrantes ao formato (mais) longo de parceria com o cúmplice regular Daniel Schmidt. E, sinceramente, o que mais surpreende é como Diamantino é um filme muito mais “tradicional” do que seria de esperar, filiado numa lógica de comédia de enganos clássica, com uma camada de sátira escarninha mas afectuosa da cultura da celebridade. Que o mesmo é dizer, Diamantino é uma comédia - e, ao contrário da maior parte daquilo que em Portugal se quer fazer passar por comédia, quer que o espectador pense enquanto a vê.

Essa surpresa é também aquilo que de mais interessante existe no filme – porque as múltiplas experiências de Abrantes no formato da curta-metragem não dariam a entender o tom docemente inocente, ingénuo, desta longa-metragem (que está mais próxima, por exemplo, da curta de 2016 Os Humores Artificiais). Será em Cristiano Ronaldo que Diamantino Matamouros se inspira, sim, mas torna-se evidente que o que interessa a Abrantes e Schmidt é ver para lá da superfície do ídolo público e perceber o que ela esconde e revela (mesmo que sejam apenas bichaninhos fofecos e cachorrinhos felpudos). Não por acaso, Diamantino é o “menino de ouro” que é também “o menino na mão das bruxas” – ao seu redor há apenas mulheres que, também elas e também todas, têm algo a esconder e confiam em que Diamantino seja suficientemente burro para não perceber que está a ser usado como um peão numa conspiração político-financeira.

Há, então, personagens e actores – Carloto Cotta extraordinário como Diamantino, mas também Cleo Tavares e as irmãs Anabela e Margarida Moreira fabulosas no papel das manas sonsas – mergulhados numa ambiência de burlesco que não raras vezes remete para os inocentes de Jerry Lewis ou para a comédia de boulevard, com todas as suas portas giratórias e confusões de identidade. E a consistência com que tudo decorre, ao longo de apenas 90 minutos, é um ponto a favor de uma maturidade que se parece cristalizar, de uma solidez que começa a instalar-se no cinema do realizador e que as suas últimas curtas já davam a entender. 

O que não invalida que se manifeste em Diamantino aquela que, para nós, continua a ser a grande “pecha” de Abrantes – a duração e a gestão do tempo. Depois de uma primeira meia-hora no ponto, Diamantino derrapa lentamente para um pastiche de espionagem de série Z, feito com alguma desenvoltura mas esvaziando muita da graça e da energia que até aí sentíamos, esticando até ao ponto de ruptura boas ideias que não aguentam tamanha sobrecarga. Por vezes fazer menos é melhor e é por isso que A Brief History of Princess X, a mais curta das suas curtas, nos parecia até agora o melhor exemplo do seu talento. Ainda assim, confirma-se (o que não era necessariamente evidente) que Gabriel Abrantes tem estofo para o formato longo. Ficamos de olho no que virá a seguir.