“Tiroteio” da Judiciária Militar na comissão de Tancos

Oficiais do mesmo órgão de polícia criminal falam de facções no seu seio e têm versões diferentes do que se passou em Tancos. A começar pelo achamento.

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O capitão João Bengalinha na sua audição LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Esta terça-feira, no dia da maratona das audições da comissão parlamentar de inquérito a Tancos, houve “tiroteio” entre oficiais da Polícia Judiciária Militar (PJM). O major Pinto da Costa que, tal como o sargento Lage de Carvalho é arguido no processo, falou aos deputados à porta fechada e defendeu-se apontando acima.

O alvo foi o ex-director daquele órgão de polícia criminal, o também arguido coronel Luís Vieira, e o responsável de investigação criminal da PJM aquando do furto, coronel da Força Aérea Manuel Estalagem. Este ripostou, acusou o arguido major Vasco Brazão, que fora poupado por Pinto da Costa, e estranhou comportamentos de Luís Vieira, no que foi corroborado pelo capitão João Bengalinha, substituído à frente das investigações por Brazão por indicação de Vieira. No encadeamento das perguntas, as portas fechadas abriram à compreensão.

“Nem sei o que responder, jamais daria uma orientação dessas aos meus investigadores”. Com esta frase, o coronel Manuel Estalagem argumentou, horas depois de o major Pinto da Costa ter sugerido instruções verbais, não escritas, portanto sem rasto, do chefe da área criminal da PJM para continuarem a investigar autonomamente quando, por despacho da Procuradoria-Geral da República, tal tarefa cabia à PJ.

O envolvimento do oficial Pinto da Costa aparece ainda antes do assalto. A PJ ter-lhe-á comunicado, em Abril, a informação de que estava em preparação um roubo de armamento militar no norte e centro do país. Ele nega e a 4 de Julho de 2017, numa reunião à porta fechada em Tancos com a presença do Presidente da República, o director Luís Vieira acusa a PJ de não ter passado essa informação à PJM que, depois, a tramitaria às Forças Armadas. O relato é do capitão Bengalinha, que testemunhou o episódio.

Das audições desta terça-feira, conclui-se que o major Pinto da Costa percorreu o país no âmbito de uma investigação de tráfico de munições entre Albergaria e Tomar e com constantes visitas ao Algarve, de onde são naturais João Paulino e Paulo Lemos, o Fechaduras, detidos e acusados de roubo, que o bom senso optou por não levar a depor aos deputados.

Aquando do achamento do material roubado, o oficial aparece na Chamusca com uma carrinha Mercedes Vito, que só saía da PJM com a autorização de director. Este, Luís Vieira, comparece no baldio onde se descobriu o material furtado acompanhado por Vasco Brazão, oficial de piquete semanal à PJM. O coordenador da área criminal, coronel Manuel Estalagem foi informado de madrugada. “Fui posto à margem e nunca fui informado do material que apareceu. Nessa noite fui posto à parte”, relatou à comissão. 

Também não foi obra sua o afastamento do capitão João Bengalinha, o investigador. “Mandaram-me de férias contra a minha vontade, o coronel Luís Vieira disse-me que estava muito cansado”, relatou. Tirou uns dias, voltou e tinha sido substituído no caso pelo major Vasco Brazão. No regresso das férias normais, Brazão informou-o de diligências no Algarve. “Bengalinha, não posso responder que diligências foram por ordem do coronel Luís Vieira”, relatou o capitão que abandonou Tancos e concentrou-se noutras investigações. “O major Brazão não teve despacho de nomeação”, recorda o coronel Manuel Estalagem. “Não houve despacho de competências ao major Brazão”, soma o capitão João Bengalinha.

Ganha consistência a versão de que a PJM continuou a investigar por sua conta um processo atribuído à Judiciária, sem qualquer cooperação com esta polícia. Numa actuação que terá começado a 29 de Junho, o dia imediato ao roubo. “Não gosto de falar em facções, mas pensariam que eu estava a cumprir o despacho de cooperação institucional e seria persona non grata para o que se estava a preparar”, ponderou esta terça-feira o oficial Bengalinha. Referia-se, assim, ao achamento.