O fungo assassino que já dizimou populações de 500 espécies de anfíbios

Já se sabia que a doença causada pelo fungo quitrídio era das principais causas da diminuição das populações de anfíbios. Agora percebeu-se qual tem sido o seu impacto à escala global.

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Rã-marsupial-de-helena (Gastrotheca helenae) Aldemar A. Acevedo

Há uma doença infecciosa que tem atormentado anfíbios em todo o mundo: chama-se quitridiomicose e é causada por um fungo. Mas quantas espécies de anfíbios foram afectadas por esta doença? Num artigo publicado na última edição da revista científica Science, refere-se que já causou o declínio de 501 espécies de anfíbios e que 90 delas já estão “presumivelmente extintas”. Também se considera que a quitridiomicose é a doença que provocou a maior perda na biodiversidade até agora. 

Quando o fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis) infecta a pele de várias espécies de rãs, sapos e outros anfíbios causa a quitridiomicose – que também pode ser provocada pelo fungo Batrachochytrium salamandrivorans, que afecta salamandras e tritões. Esta doença afecta a capacidade de os anfíbios regularem a água e pode levá-los à insuficiência cardíaca. Como o fungo passa de animal para animal e se espalha rapidamente na natureza, tem contribuído para o declínio de algumas espécies.

Embora tenha sido identificado pela primeira vez nos anos 70, o quitrídio só foi reconhecido como um fenómeno global associado ao declínio de espécies de anfíbios nos anos 90. No ano passado, desvendou-se que a estirpe mais agressiva deste fungo terá surgido na península da Coreia no início do século XX.

“Apesar de ter aumentado a compreensão que temos deste fungo, os cientistas só tinham sido capazes de supor a escala dos danos causados pelo Batrachochytrium dendrobatidis nas populações de anfíbios de todo o mundo”, escrevem Dan Greenberg e Wendy Palen, da Universidade Simon Fraser (Canadá) e que não participaram neste trabalho, num comentário ao estudo também na Science.

Para ter dados à escala global, uma equipa internacional de cientistas usou um conjunto abrangente de dados sobre o declínio do número de anfíbios em todo o mundo para quantificar o impacto da quitridiomicose na biodiversidade.

Percebeu-se então que a quitridiomicose causou o declínio de pelo menos 501 populações de espécies de anfíbios. Como há mais de 7000 espécies de anfíbios descritas, isto representa cerca de 6,5% dessas espécies. Além disso, 124 delas tiveram diminuições graves (mais de 905) nas suas populações e 90 já estão extintas ou “presumivelmente extintas”. “Isto representa a maior perda de biodiversidade documentada atribuída a um agente patogénico e coloca o B. dendrobatidis entre as espécies invasivas mais destrutivas, quando comparado com os roedores (que ameaçam 420 espécies) e gatos (que ameaçam 430 espécies)”, lê-se no artigo.

Apesar de estar presente em 60 países, no estudo salienta-se que as maiores diminuições ocorreram em populações de anfíbios da Austrália, Mesoamérica e na América do Sul. Concluiu-se ainda que o pico no declínio das populações aconteceu nos anos 80.

A equipa traçou ainda o perfil das espécies atingidas de forma mais grave: “O declínio foi maior em espécies com corpos maiores, que estão presentes em regiões regularmente húmidas e fortemente associadas a habitats aquáticos perenes”, lê-se no artigo.

“Doenças altamente virulentas na vida selvagem, incluindo a quitridiomicose, estão a contribuir para a sexta extinção em massa na Terra”, reage Ben Scheele, ecólogo da Universidade Nacional Australiana e primeiro autor do trabalho, num comunicado da sua instituição. “A doença que estudámos causou extinções em massa por todo o mundo. Perdemos algumas espécies realmente espectaculares.”

A perda da rã dourada

“Estamos a falar de uma doença com uma letalidade sem precedentes e com um espectro de hospedeiros extremamente amplo, isto é, capaz de infectar centenas ou milhares de espécies”, considera Gonçalo M. Rosa, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Instituto de Zoologia do Parque Regent (Londres), que não fez parte deste trabalho, mas que tem estudado o impacto deste fungo nos anfíbios em Portugal.

O investigador refere que têm sido publicados vários estudos que descrevem os impactos desta doença a nível regional como na América Central ou na Serra da Estrela. “Este estudo traz uma perspectiva espacial e temporal da perda de biodiversidade de anfíbios causada pela quitridiomicose a uma escala global, como que juntando várias peças de um puzzle”, afirma.

“O estudo pinta uma vez mais a quitridiomicose como uma das doenças mais impactantes em termos de perda de biodiversidade”, destaca ainda o investigador. “São números bastante elevados mesmo quando comparados com os de outras doenças altamente infecciosas de fauna selvagem.” Dos valores apresentados pela equipa, o investigador sublinha que, passadas várias décadas, cerca de 40% das espécies que sofreram declínio continuam a ser afectadas pela doença.

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Rã-dourada-do-panamá (Atelopus zeteki) Gonçalo M. Rosa

Gonçalo M. Rosa esclarece que não é “fácil atribuir uma doença como único responsável pela extinção de uma espécie.” Ou seja, a quitridiomicose pode contribuir para a extinção de uma espécie em conjunto com outros factores de pressão como a destruição de habitat, as alterações climáticas ou espécies invasoras.

Um caso de uma espécie “presumivelmente extinta” e analisada neste trabalho é a rã-dourada-do-panamá (Atelopus zeteki). Apesar de se fazerem buscas frequentes, esta rã não é detectada na sua zona de ocorrência desde 2006. “O seu desaparecimento coincidiu com a chegada do quitrídio à sua área de distribuição.”

Ben Scheele assinala que só na Austrália 40 espécies de rãs diminuíram as suas populações devido a esta doença nos últimos 30 anos. “A globalização e o comércio de espécies selvagens são as principais causas desta pandemia global.”

Por sua vez, Gonçalo M. Rosa também indica o comércio e diferentes actividades humanas como os principais responsáveis pela dispersão desta doença. E avisa: “Fracas ou inexistentes medidas de biossegurança acabam também por colocar em risco a saúde humana, permitindo uma chegada fácil de certos agentes patogénicos a lugares e populações nunca antes expostos e, por isso, sem quaisquer defesas naturais.”

E em Portugal?

Quanto a Portugal, o primeiro surto registado de quitridiomicose foi observado na serra da Estrela em 2009 e causou o declínio de cerca de 70% da população do sapo-parteiro (Alytes obstricans) nas zonas mais elevadas da serra. Até agora, devido a esta doença, não se extinguiu nenhuma espécie em Portugal.

E o que se pode fazer para se minimizar os efeitos desta doença? “Temos de fazer tudo o que for possível para parar futuras pandemias fazendo um melhor controlo do comércio de espécies selvagens em todo o mundo”, responde Ben Scheele no comunicado. Para se reduzir o risco de dispersão desta doença, Gonçalo M. Rosa indica que é urgente tomar medidas de biossegurança efectivas, assim como um maior controlo do comércio de espécies.

O investigador explica que é possível curar a doença em laboratório com banhos com soluções antifúngicas (por exemplo), mas que este método não pode ser usado em populações selvagens. “Várias formas de mitigar o problema na natureza têm sido testadas, mas com pouco sucesso até à data”, lamenta. “É necessário um maior investimento nesta área bem como na monitorização de populações selvagens.”

Gonçalo M. Rosa adianta ainda que é difícil documentar o declínio de populações de anfíbios porque a monitorização de populações selvagens é rara antes de os surtos serem detectados. “Uma boa vigilância e seguimento contínuo do estado de saúde das populações é crucial, permitindo a detecção subclínica de doenças e adopção atempada de medidas de gestão e conservação.”

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Rã da espécie Duellmanohyla soralia Jonathan E. Kolly

Mas a preocupação de Gonçalo M. Rosa não se resume à quitridiomicose.  “A crescente emergência de doenças infecciosas apresenta-se como um dos maiores riscos do século para a saúde pública, segurança alimentar e a biodiversidade”, assinala. “Este aumento sem precedentes de doenças frequentemente promovido pela globalização, bem como a degradação do meio ambiente, é agora reconhecido como um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade em todo o mundo.”

Além da quitridiomicose, nos anos 90 houve em Portugal um surto de ranavirose (doença causada pelo ranavírus) no Parque Nacional da Peneda-Gerês que levou à morte de centenas de tritões e de outros anfíbios. No final de 2011, a ranavirose também emergiu na Serra da Estrela. “A partir desse ano, várias foram as espécies que sofreram declínios no parque natural vendo as suas populações reduzidas. Na verdade, a Península Ibérica é a região mais afectada da Europa tendo em conta o impacto da emergência das formas letais de ambas as doenças: a quitridiomicose e a ranavirose.”

Mesmo assim, o investigador frisa um dos resultados do trabalho na Science como uma “luz ao fundo do túnel”: ainda que lentamente, 12% das espécies de anfíbios que sofreram declínio estão a mostrar sinais de recuperação.