Opinião

Orientações sexuais em Portugal: o papel da família

As chamadas “terapias de reconversão” têm como objectivo conduzir os/as pacientes para uma vida heterossexual. Ora a investigação científica demonstra que as terapias de reconversão não são eficazes e que têm consequências altamente nefastas para a saúde mental e o bem-estar das pessoas.

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Aleksandar Vozarevic/Getty Images

Nas últimas décadas temos assistido a importantes mudanças na forma como pensamos a diversidade de orientações sexuais e de identidades de género. Cada vez menos pensamos os/as outros/as através de lentes rígidas e dicotómicas: homem-mulher, heterossexual-homossexual. Ainda que estas categorias persistam e que ainda assim tenham a sua relevância, as pessoas não são quase nunca apenas uma coisa ou outra coisa. Enquanto homens, por exemplo, podemos ser simultaneamente mais ou menos masculinos e mais ou menos femininos. As orientações sexuais também não se esgotam na dicotomia heterossexualidade-homossexualidade.

A hetero, a homo ou mesmo a bissexualidade dão nome a um padrão de desejos, atracções e comportamentos sexuais e ideais românticos que divergem apenas na pessoa a quem se dirigem: a alguém de sexo diferente, a alguém do mesmo sexo ou a pessoas de ambos os sexos. Há mais de 40 anos, a Associação Americana de Psiquiatria deixou de considerar a homossexualidade uma doença mental e por isso não passível de cura. Hoje em dia, são mais os países ocidentais que reconhecem e legitimam esta diversidade de orientações sexuais do que os que não a reconhecem. A título ilustrativo, em 2004, a orientação sexual foi introduzida no Artigo 13.º — Princípio de Igualdade da Constituição da República Portuguesa enquanto característica não passível de benefício ou de discriminação.

Não obstante as importantes mudanças legais, mas também ao nível das percepções e atitudes sociais, a aceitação da orientação sexual nem sempre se revela fácil no seio da família. Um pai ou uma mãe que descobre ter um filho gay ou uma filha lésbica pode sentir-se desiludido/a com esta revelação. E esta desilusão decorre, naturalmente, da idealização que pais e mães tendem a fazer sobre os/as seus/suas filhos/as. Desde a idealização do curso universitário, da profissão até à orientação sexual. E a orientação sexual envolve outras idealizações que podem ser comprometidas, como as que dizem respeito aos relacionamentos, ao casamento ou à parentalidade.

Para além desta possível desilusão, pais e mães podem também temer que os/as seus/suas filhos/as tenham a vida dificultada por uma sociedade cada mais vez mais aceitante, mas ainda desigual. Que não sejam capazes de proteger os/as seus/suas filhos/as de insultos ou injúrias. Que os/as seus/suas filhos/as sofram de discriminação e de assédio em função da sua orientação sexual. Todas estas preocupações são legítimas e reais para muitos pais e mães. Contudo, a escolha de como as enfrentar é determinante para o bem-estar da família e principalmente dos/as filhos/as.

Alguns pais e mães podem mesmo tentar resolver este “problema” procurando mudar o padrão de comportamentos sexuais e ideais românticos dos/as seus/suas filhos/as. As chamadas “terapias de reconversão”​ têm como objectivo conduzir os/as pacientes para uma vida heterossexual. Ora a investigação científica demonstra que as terapias de reconversão não são eficazes e que têm consequências altamente nefastas para a saúde mental e o bem-estar das pessoas, provocando problemáticas de depressão, de ansiedade, de isolamento, de solidão. Em alguns casos, o/a paciente pode até suprimir o contacto amoroso e sexual com pessoas do mesmo sexo, mas não deixa de se sentir atraído/a ou mesmo de se apaixonar por alguém do mesmo sexo. Isto porque estas terapias baseiam-se no pressuposto de que há uma cura para uma doença, que na verdade não existe, e que a cura é conseguida através da rejeição dos desejos e dos afectos, no fundo, da negação de uma parte importante da identidade.

A revelação da orientação sexual pode ser difícil de aceitar para pais e mães, mas também para irmãos/ãs, amigos/as, colegas. Mas é ainda mais difícil para os/as próprios/as, que terão de enfrentar uma sociedade que nem sempre é justa. Que terão eles/as próprios/as de se confrontar com as dificuldades em se libertar das próprias idealizações sobre os seus relacionamentos, casamento, parentalidade. O principal desafio para pais e mães é apoiarem e orientarem os/as seus/suas filhos/as nas escolhas futuras que lhes permitam ser felizes e realizados/as. E não terem medo de que o futuro seja diferente do que idealizaram. Porque seremos todos/as também mais felizes quando as nossas diferenças não forem anuladas ou toleradas, mas sim celebradas.