Opinião

Diário

Vasco Pulido Valente escreve que "os professores começam a irritar as pessoas".

23 de Março

Os professores na rua, com a mesma intransigência e a mesma arrogância. Um dia destes, alguém terá de lembrar a Mário Nogueira que ele não foi eleito primeiro-ministro, e que o primeiro-ministro é António Costa.

A tentativa de submeter o poder político ao poder sindical falhou sempre na Europa civilizada. Assisti, em Inglaterra, entre 1970 e 1975, a parte dessa guerra, que acabou, como se sabe, na derrota dos mineiros e no triunfo de Margaret Thatcher.

O governo é que decide como e quando se gastam os dinheiros do Estado, não é nenhum sindicato profissional, por muito que julgue ter a justiça do seu lado. E não há governo que possa contrair cegamente encargos para o futuro, sobretudo em ano de eleições. Os professores fariam bem em se guardar para 2020. Começam a irritar as pessoas.

24 de Março

O procurador Mueller entregou o seu relatório. Trump e o seu pessoal são absolvidos de qualquer cumplicidade com a Rússia na tentativa de influenciar o resultado das eleições presidenciais de 2016. E, na prática, também da suspeita de terem querido conscientemente obstruir a justiça.

Isto foi, como se calculará, uma enorme derrota para o Partido Democrático, para a CNN, para a NBC e para a tropa fandanga do “politicamente correcto”. Como reagiram eles? Com uma desesperada exploração de todas as lacunas e com uma atenção perversa a todos os pormenores, até aos mais insignificantes. A CNN mostrou fanático atrás de fanático a vociferar com a mesma raiva as mesmas baboseiras. Gostei do espectáculo.

25 de Março

Toda a gente anda por aí a falar das “famílias” do governo. É verdade que eles não conhecem mais ninguém. E, pior ainda, nunca quiseram conhecer mais ninguém. Só que não podemos olhar isto com complacência. Nunca houve em Portugal, nem no século XIII, um governo destes. E também nunca houve um governo destes na Europa moderna. As desculpas de António Costa não valem: a originalidade lusitana não é um consórcio de parentes e amigos.

Só entrei num governo. Mas, nesse governo, não passaria pela cabeça de ninguém encher o Estado com as pessoas com que o PS o encheu. Existia, nessa altura, o que se pode chamar decência comum: “se a minha mulher está no governo, não devo estar eu”; “se a minha filha está no governo, não devo estar eu”. Nada mais simples.

26 de Março

Para que é que serve o défice zero? Os comentadores hesitam. No fundo, não há aqui nada de complicado. Não se trata de professores, de enfermeiros, de funcionários, ou de investimento. Todos nós podemos fantasiar sobre a distribuição de um imaginário monte de dinheiro. Mas chegará sempre o dia em que temos de provar alguma honestidade.

A dívida absoluta aumentou. O futuro é duvidoso. O interesse de Portugal é aparecer como um Estado bom pagador. É para isso que serve o défice zero: para aumentar e solidificar o nosso crédito. Não queremos com certeza, se as coisas correrem mal, andar outra vez com o chapéu na mão a mendigar a caridade de Bruxelas.

27 de Março

Dia do Teatro. Espero que seja prestada a Palmira Bastos e à sra. D. Amélia Rey Colaço a homenagem que merecem. A sua versão de como deve ser o português falado continua viva no teatro, no cinema e, principalmente, na telenovela.

28 de Março

Vítor Constâncio na Assembleia da República. Se julgavam que o homem ia ser caça fácil, enganaram-se. Como todos os outros, ele teve sempre à mão um artigo da lei que o ilibava ou o mandava ficar calado. Contra esta espécie de teólogos (Carlos Costa é outro) os senhores deputados fazem figura de ingénuos. Hão-de cair as muralhas de Constantinopla e Mariana Mortágua continuará a discutir o sexo dos anjos.