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Miguel Madeira
Reportagem

Pirâmides e paraísos num Egipto quase sem turistas (mas não por muito tempo)

Do Cairo a Luxor e a Hurghada, uma viagem por milénios de história, com praia e aventura à mistura. E quase sem turistas, que as multidões passaram a evitar o país por causa da segurança. Mas o Egipto quer recuperar terreno nos planos do mundo para as férias e aposta tudo em seduzir os viajantes.

Cairo
Uma capital em suspenso

Chove no Cairo. As gotas rebentam em círculos no alcatrão empoeirado, nos milhares de veículos empoeirados, vibram no Nilo e nas poças da estrada, encolhem orelhas entre casacos e hijabs de quem está pouco habituado a estes humores da meteorologia por aqui. Dizem que trouxemos a chuva, que dá sorte, que é raro. Tão raro que, no dia anterior, o guia Basem Talaat, Benjamin “de baptismo” e Benjamin daqui para a frente – é assim que se apresenta mal aterramos no Cairo, num português tão perfeito que desconcerta ao primeiro momento – ainda não saímos do aeroporto, ainda não vimos Egipto, e já só falamos de Portugal: não é que Benjamin tem um bar no Porto?

Mas dizíamos, dizia Benjamin, que no mar de edifícios que compõe o Cairo não vamos encontrar nenhum telhado – não há chuva que lhes dê utilidade na capital do Egipto. “Chuva só na costa do Mediterrâneo.” E, no entanto, morde a língua Benjamin, hoje chove no Cairo e amanhã também. Um aguaceiro intermitente, indeciso, como se pressentisse que não pertence aqui, incapaz de lavar a cor ocre da cidade mas suficiente para desvanecer o véu de poeira e poluição que filtrava o dia anterior. Não chega a ser um incómodo, só um bálsamo para as fotografias.

“A chuva é rara mas o trânsito é sempre assim”, há-de comparar Mohamed Mohsen Ismael, director do departamento do turismo do Egipto para a América Latina e Península Ibérica. Caótico, incessante, buzinadelas que nunca descansam, como se guiassem os condutores na cegueira que é este trânsito, noite e dia. Três faixas são sempre quatro ou cinco e um pedaço de passeio pode ser uma paragem de autocarro ou de minivan, por onde entram e saem passageiros sem que o veículo chegue a parar.

É um novelo de carros, táxis, minúsculas carrinhas, carroças, autocarros, motas, veículos de caixa-aberta, camiões, estradas, viadutos, cruzamentos, pontes e saídas sem sinalização. Até o condutor do autocarro onde seguimos se perde uma ou duas vezes. É um caos sem salvação e há que tê-lo em conta na hora de planear passeios pela cidade. Fora das excursões organizadas aconselham-nos a utilizar o metropolitano (embora só existam três linhas em funcionamento; quatro em construção) ou a Uber (num táxi normal vão sempre tentar enganá-lo, palavra de local).

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Vamos distraídos a olhar o trânsito, as lojas de tudo no rés-do-chão dos edifícios, as cabras que pastam entre escombros e lixeiras, os prédios em construção perpétua – “É uma lei muito antiga, se terminarem a construção por fora começam a pagar imposto ao Estado, mas por dentro está tudo arranjado” – quando vemos as pirâmides despontar em pano de fundo, qual miragem. Crescemos a vê-las isoladas nas fotografias, distantes no tempo e no espaço, mas afinal erguem-se logo ali, à saída do Grande Cairo.

Atrás delas, um deserto infinito de postal, nas nossas costas um oceano de casas – três cidades que foram crescendo até se transformarem numa só metrópole, berço de 20 milhões de pessoas (Cairo, Gizé e Qalyubia). Será por isso que o impacto não está a ser aquele que esperávamos? Quantas vezes – de quantas formas – já tínhamos visto as pirâmides de Gizé? A grande, a média e a pequena. Pai, filho e neto. Quéops, Quéfren e Miquerinos. Membros da quarta dinastia faraónica do império antigo. E, na sombra, mais algumas pirâmides minúsculas, “satélites” familiares, túmulos das mulheres e dos filhos que “sabiam que não iam governar o Egipto”.

Pirâmides para fotografias

Foram precisos quatro milhões de blocos de pedra para erguer a pirâmide de Quéops, a maior, a 146 metros de altura – seis toneladas as pedras mais pesadas, 500 quilos as mais leves. “São suficientes para construir um muro à volta do mundo, pelo Equador, com 80cm de altura.” Tal como as restantes, terá sido construída pelo povo durante as épocas de cheia no rio Nilo há mais de 4000 anos. “Não eram escravos, todos ajudavam o faraó porque era considerado filho de Deus e todos queriam ficar com Deus no paraíso após a morte.” No final do período de cheia, quando as faluas carregadas de pedra começavam a encalhar no leito do rio e os campos agrícolas voltavam a ficar a descoberto, férteis, os agricultores deixavam os trabalhos nas pirâmides para regressar à lavoura.

Benjamin vai debitando dados sobre a única sobrevivente das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, tentando dar magnitude a tudo o que vemos, mas a solenidade da História estilhaça-se sob os pés dos turistas, que se encavalitam pela estrutura acima, alguns de fato aprumado, outras de vestido imaculado, t-shirts e sombrinhas, indiferentes à História, concentrados nas poses para os fotógrafos e para as selfies. Egípcios de ar entediado e cigarro na ponta dos dedos vão-se sentando à sombra da pirâmide, tentando vender o que poucos param para comprar.

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É preciso subir por ali acima, escadinhas contemporâneas camufladas na pedra milenar gasta, para entrar no túmulo – não pela entrada original, maior, com pórtico em v invertido a surgir por entre a “fachada”, mas pela abertura mais pequena, feita pelos árabes quando chegaram ao Egipto. “Furaram para ver se havia algo para roubar, mas o túmulo foi saqueado ainda durante a época faraónica.” Para entrar no túmulo cavernoso e despido, paga-se um bilhete extra, mas Benjamin não aconselha –  “Não há nada para ver lá dentro” – e seguimos caminho.

Do miradouro, vêem-se todas as pirâmides de Gizé, ao longe, imaculadas. É paragem obrigatória para fotografias, com um flanco de bancadas de souvenirs e uma “central” de passeios de camelo para turistas. “Em frente a 5000 anos de história, uma Pizza Hut e um KFC”, aponta Benjamin ao chegarmos junto à esfinge, que se acredita representar o faraó Quéfren. Em volta, estão a ser demolidos alguns prédios, num deles, parcialmente destruído, ainda se vê uma cama de colcha colorida e móveis despedaçados. “Não havia controlo e as pessoas construíram como quiseram.” Agora o Governo está a deitá-los abaixo para criar “uma passarela” ao longo de todo o complexo histórico.

A ideia é que a nova alameda comece junto ao Grande Museu Egípcio, que vemos erguer-se à entrada do planalto de Gizé, entre a cidade e as pirâmides, e que acolherá o acervo de estátuas, múmias e pertences faraónicos do actual museu (localizado junto à Praça Tahrir), incluindo os tesouros do túmulo de Tutankamon. O edifício, de proporções colossais, vai integrar “aproximadamente 300.000 peças”, além de salas de conferências, workshops, restaurantes e “muitas outras actividades”, enumera Mohamed Salama, director-geral do departamento para o turismo internacional. A data de abertura tem falhado sistematicamente as previsões avançadas, mas o representante do Ministério do Turismo aponta um “soft opening” para 2020.

Regresso dos turistas

É só junto à esfinge, no templo funerário em ruínas que agora percorremos para chegar à varanda mais próxima da estátua milenar, que sentimos a massa de turistas comprimir – mais pela falta de espaço no minúsculo terraço do que pelo número de visitantes. Encontramos alguns grupos de turistas, europeus, muitos asiáticos, mas também muitas famílias egípcias que aproveitam as férias escolares para passear com os mais pequenos.

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Depois do melhor ano de sempre ao nível do turismo, em que o Egipto recebeu um recorde de 14 milhões de turistas (dos quais 22 mil eram portugueses), os tumultos que se seguiram à Primavera Árabe, o golpe de Estado feito pelos militares em 2013, a instabilidade política na região e os ataques terroristas deixaram o país deserto de estrangeiros de câmaras fotográficas em punho.

Seis anos depois das revoltas de 2011, os números ficavam-se pela metade: 8 milhões de turistas em 2017 (cerca de 10 mil portugueses). Mas o sector parece recuperar terreno. Os dados de 2018 ainda não estavam fechados no início de Fevereiro mas as previsões apontavam para 11 milhões de turistas e a expectativa do Governo é que o número continue a aumentar. “Estamos concentrados no turismo cultural do vale do Nilo, porque nos últimos anos temos recebido mais turistas na área do mar Vermelho”, avançava Mohamed Salama.

Talvez por isso Benjamin seja taxativo: “Sou contra a Primavera Árabe”. “Foram todos para a Praça Tahrir sem noção do que ia acontecer, mas eu sabia que ia acontecer isso: a queda da economia”, resume. Durante dois anos ficou sem trabalho no sector do turismo. “A política não existe neste mundo. Para o povo não interessa que seja o político x ou o partido y [no poder], interessa é dormir com a barriga cheia. Isso é que faz a diferença.”

Há duas décadas que Benjamin é guia turístico. “Éramos quatro irmãos, um advogado e três guias”. Licenciou-se em História e Línguas, tirou um diploma de turismo. Aos 20 anos começou a trabalhar como guia em português e espanhol. Grande parte das férias era passada em Portugal, entre descanso, amigos e negócios (em 2009 abriu um bar egípcio no Porto, Khan el Kalili, que ainda mantém). “Nessa altura, não havia muitos jovens a viajar de Portugal, eram todos de idade e não traziam dólares, só marcos alemães.” Hoje, a maioria dos grupos que recebe é brasileira. Muitos vêm pelos roteiros de turismo religioso, pelo Nilo até ao Monte Sinai, “trazem padre e tudo”.

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Luxor
Uma colmeia de templos e túmulos

Partimos de Hurghada ainda de madrugada, o sono a bater contra o vidro da noite. São quatro horas de distância, 300km para vencer por entre as montanhas áridas do mar Vermelho e depois junto aos campos agrícolas que flanqueiam um fio desviado do rio Nilo. No primeiro posto de controlo, sobe ao autocarro o polícia que há-de acompanhar-nos durante todo o dia – fato, óculos escuros, arma escondida à cintura. Será sempre assim mal pomos o pé fora do resort (à excepção do Cairo) – medida de segurança prevista para todos os autocarros turísticos.

“Podem dizer que é falta de liberdade, mas se for para a segurança da minha família vou aceitar porque é melhor para mim”, há-de comentar Ali Bekhit, da agência de turismo egípcia Travel Ways. À entrada dos espaços museológicos e dos hotéis, o ritual já se tornou automático: mochilas pela máquina de raio-x, telemóvel no cesto, corpo pelo detector de metais, que parece apitar sempre, apesar da indiferença dos seguranças.

Junto ao Nilo, as margens ganham vida pela manhã. Há quem já trabalhe os campos de cana-de-açúcar, as plantações de tomate. Cruzam carroças e burros e moto-táxis e carrinhas com as mercadorias a desafiar as leis da gravidade. Junto às dezenas de pontes que unem uma margem à outra, quase sempre o mesmo cenário: uma grelha, um bidão de água, um alpendre para o culto e uma dupla de guardas de espingarda ao ombro. Ali, três a fumar shisha acocorados na sombra da ponte.

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O templo de Carnaque é a primeira paragem da viagem a Luxor (entrada: 150 EGP). O complexo de santuários, capelas, pilares e outros edifícios começou a ser construído há quatro mil anos e foi sofrendo alterações e acrescentos ao longo dos séculos seguintes. O recinto principal – e o único aberto a visitas – é dedicado ao deus Amon-Rá, o “deus sol” no culto local da antiga Tebas, a segunda capital mais importante do Egipto Antigo (depois de Mênfis), apelidada de Luxor quando os árabes tomaram o território. “Quando encontraram os templos, acharam que eram palácios. Daí o nome Luxor, que quer dizer ‘palácios’ em árabe”, explica o guia Shahat Alhwy num português autodidacta de sotaque nordestino carregado.

É entre um labirinto de ruínas, colunas e o único obelisco que se mantém de pé que ouvimos falar de Hatshepsut pela primeira vez. O templo da “primeira mulher faraó” da história do Antigo Egipto será uma das últimas paragens (entrada: 100 EGP), antes de terminarmos o passeio junto aos Colossos de Memnon (acesso livre), duas estátuas de pedra com 18 metros de altura, únicas sobreviventes do templo de Amenhotep III, destruído por um terramoto pouco depois de ter sido construído. Ao lado, um grupo de agricultores colhe molhos de favas e de canas-de-açúcar.

O peso dos hieróglifos

Por esta altura, já perdemos o fio à meada de deuses, faraós, dinastias, símbolos e enredos milenares. Deixamo-nos antes fascinar pelas colmeias de túmulos esburacados nas montanhas – ali junto ao Templo de Hatshepsut, acolá no vale dos Artesãos, nos vales dos Nobres e das Rainhas (onde não chegamos a ir), no incontornável Vale dos Reis.

Tão forte era a crença no Paraíso – e na necessidade de manter corpo e pertences intactos para o regresso da alma e viagem até à eternidade – que vieram esperá-la aqui, na aridez tórrida do deserto. Toupeiras faraónicas aterradas com a possibilidade de os saqueadores chegarem antes da última viagem. E, no entanto, a história repete-se: só o túmulo de Tutankamon chegou intacto à modernidade, escondido sobre outro túmulo já saqueado, catapultando para a fama o faraó menino que pouco terá governado e importado para a história do Antigo Egipto.

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Só no Vale dos Reis foram encontrados 63 túmulos, embora o guia Shahat acredite que “o chão ainda guarde muito”. Para entrar no túmulo do rei-menino há que pagar um bilhete extra (250EGP). Mas, como não temos tempo, ficamo-nos pelos três túmulos acessíveis actualmente com o bilhete geral (existem dez túmulos abertos ao público, mas apenas três estão acessíveis alternadamente, a entrada custa 200 EGP): Merenptah IV, Ramses IX e Ramses IV.

O primeiro desce a 85 metros de profundidade, os outros estão praticamente ao nível da entrada: percorremos um corredor e terminamos na primeira câmara, ainda com a primeira camada do sarcófago de pedra trabalhada ao centro. As paredes e os tectos estão cobertos de hieróglifos coloridos e é nos desenhos – tão nítidos, tão garridos de vermelho, amarelo, azul – que o olhar se demora.

Para tirar fotografias é preciso outro bilhete (sim, até mesmo com o telemóvel; não, não vale rodar a máquina pelo grupo; e há que ter os dois bilhetes sempre na mão porque basta um clique e logo aparece um segurança a perguntar por eles; custa 300 EGP). São muito poucos os turistas de câmara na mão e, talvez por isso, é aqui que nos sentimos mais perto da História. Ainda não tínhamos visto estas imagens milhares de vezes antes de aqui chegarmos. A surpresa – e o impacto dos milénios reflectido nos hieróglifos imaculados – é o que trazemos de mais precioso do Antigo Egipto.

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Hurghada
Um paraíso turístico em terra de pescadores

Quando o peixe começou a escassear no rio Nilo, os pescadores da região viram-se obrigados a descer ao Mar Vermelho à procura de sustento, 200km para leste, começando a povoar uma zona árida, espaço de disputas com países vizinhos, “pouco popular”. Se no Norte os egípcios sempre tiveram uma ligação muito forte ao mar Mediterrâneo, no Sul os povos “tentavam afastar-se” o mais possível do mar Vermelho, o “segundo mais salgado” do planeta. O Nilo é como um cordão umbilical que alimenta a vida do Egipto – para lá das suas margens começa o deserto, geográfico, económico, social. Ainda hoje, apenas 5% dos cerca de 95 milhões de habitantes vivem longe do rio.

Estávamos no início do século XX e Hurghada não era mais do que um porto de barquinhos de madeira e um punhado de casas à beira-mar. “Depois descobriram petróleo e vieram os alemães e outros. Quando acabou, pensaram em transformá-la numa cidade de turismo”, conta o guia Karim Tarek, enquanto a lancha vai navegando em direcção à ilha de Giftun.

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Há cinco anos que Karim trocou Alexandria por Hurghada, tinha então 22 anos. A equação foi simples: “Aqui há mais turistas”. Ainda que naquela altura, três anos volvidos desde as primeiras manifestações da Primavera Árabe, fossem poucos os estrangeiros que se mantinham fiéis às férias mergulhadas nas águas cálidas do mar Vermelho. “Cerca de 80% eram russos, só depois é que o mercado começou a reabrir a outros países.” Regressaram os alemães, os polacos, os checos.

Só agora estão a ser retomados os trabalhos de construção de muitos prédios e hotéis na cidade – para onde quer que olhemos, há esqueletos de edifícios por terminar, alguns em tal estado de abandono que dificilmente serão concluídos. Contava Ali Bekhit que, em 1999, existiam apenas dois hotéis em Makadi (uma das três cidades que compõem a região de Hurghada, todas elas voltadas – e erguidas – quase exclusivamente para o turismo: Hurghada, Makadi e El Gouna).

Hoje existem 19 resorts naquela cidade e mais de 85 mil quartos para alojamento turístico em toda a região. Apesar da retoma do turismo, Karim não quer ficar no país “a vida toda”, vai dizendo. “Nunca vi o Egipto livre.” Sonha mudar-se para a Finlândia: “É muito perto da Rússia, as pessoas são calmas e o salário é muito bom.” No Egipto, “as oportunidades não são assim tão boas”, contrapõe.

Da derrota no deserto ao paraíso

A linha de costa vai-se expandindo à medida que nos afastamos, sem que a cidade ceda ao deserto. “Tudo o que se vê é Hurghada, só lá ao fundo, à esquerda, é que é Makadi.” Fica a oito quilómetros de distância da cidade principal, cerca de 50 minutos de carro, onde se concentra a maioria dos hotéis, lojas, restaurantes, bares, centros comerciais, mercados. No Verão, quando as temperaturas sobem aos 45ºC durante o dia, os estabelecimentos ficam abertos durante 24 horas e é ver as ruas encherem-se de gente mal o sol se põe, contava Ali. Para lá dos resorts e das compras, a oferta turística reparte-se, essencialmente, por passeios no deserto e passeios de barco (com paragem numa ilha privada e sessão de snorkeling).

A incursão pelo deserto em moto4 foi um verdadeiro fracasso, teremos de admitir. Talvez a caravana de jornalistas portugueses onde seguimos não esteja talhada para a rudeza da paisagem, mas as ondas do chão desértico são mais duras ao corpo do que qualquer mar revolto, os dentes batem ao falarmos e todos os órgãos parecem balançar dentro de nós.

A marcha vai branda de mais, por este andar nunca chegaremos à aldeia de beduínos que fica para lá das montanhas – tentamos mas a cordilheira não parece querer aproximar-se. Karim está furioso, tudo chocalha cá dentro, a derrota é mais do que certa. Não beberemos chá com o povo beduíno, não passearemos nos camelos nem compraremos bugigangas. A avaliar pela frustração de quem nos guia, o falhanço é inédito ou, pelo menos, raro. Fica a vontade de regressar e experimentar de novo.

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Michael Winfrey/Reuters

É Inverno em Portugal e talvez por isso o corpo pede mais por praia e água morna, transparente. E é isso que a ilha de Giftun oferece, dividida em três zonas privadas de areal. A nós calha-nos Paradise e que bem que lhe assenta o nome: esquadria de chapéus de palha com puffs e colchões, um restaurante (buffet) lá ao fundo, banca de massagens, espectáculos de dança pela tarde e sessão de snorkeling antes do almoço.

Durante a última guerra contra Israel, em 1973, a cidade de Hurghada foi evacuada e as ilhas paradisíacas junto à costa tornaram-se território de bunkers e sistemas antiaéreos. As estruturas ainda lá estão, acocoradas no ocre seco da ilha, mas os areais são agora tomados por turistas que correm desalmados pela água e posam para o fotógrafo da estância balnear nas posições mais mirabolantes. A ilha mantém-se propriedade do exército – a partir das 16h ninguém pode aqui ficar.

Mas a manhã ainda é menina e o sol queima o suficiente para um escaldão. Na água cristalina junto ao areal, vemos pouco mais do que algumas alforrecas (não há problemas em tocar-lhes, garante Karim). Mas a sessão de snorkeling junto aos corais, noutra zona da ilha, promete peixes de mil cores e tamanhos: uns completamente negros, outros em tons cinza, verde e lilás, vemo-los aproximarem-se da superfície da água quando alguém no convés lhes atira comida. Na praia, um painel reúne as espécies que ali se podem avistar. Contamos mais de 60. É um paraíso de mergulho. Podemos ficar?

A Fugas viajou ao Egipto a convite da Soltrópico e da Solférias