O Vinho Verde também é para o jantar em casa do sogro

Estratégia de comunicação oficial da região assume a mudança no estilo e na qualidade. Passa a apostar no valor, nos vinhos mais secos, complexos, estruturados e adequados aos diversos momentos de consumo.

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Adriano Miranda

É como que o fim da negação. Não vem de agora a mudança no estilo e na qualidade nos Vinhos Verdes, que há muito deixaram de ser todos levezinhos, gasosos e docinhos, mas essa é uma evolução que tem avançado quase no anonimato. Na sombra oficial e quase à margem, e é, por isso, uma boa notícia a mudança de estratégia.

É com uma nova campanha que remete agora para o contexto de vinhos de gama premium que a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) assume a faceta de vinhos mais encorpados, complexos, estruturados e com potencial de guarda. Uma mudança que acrescenta valor, mas que traz também verdade ao mercado, mostrando o que realmente é hoje o Vinho Verde. Ou melhor, o que há muito deixou de ser.

E convém recordar que esta é uma mudança que não é de agora. Veja-se o caso de produtores como a Quinta do Ameal, Casa de Celo, Anselmo Mendes, Aphros ou Quinta da Covela, que desde sempre se afirmaram no mercado da qualidade. E isto só para citar alguns, e já para não falar da afirmação dos Alvarinho de Monção e Melgaço, cuja qualidade antecipou até o estatuto de emancipação.

Lembre-se também que até já antes desta onda de afirmação a última década do século passado tinha assistido nos Vinhos Verdes ao nascimento dos vinhos de quinta, em muitos casos mostrando também o potencial das castas típicas da região. Quem não se lembra dos Quinta de Azevedo, Solar das Bouças, Casa de Sezim, Camélia (Mosteiro de Landim), Quinta do Tamariz ou até o já então reconhecido Palácio da Brejoeira? Vinhos cujo potencial gastronómico e de guarda era já evidente, e que, de alguma forma, foram até precursores dos vinhos de quinta ou de produtor que depois se alastraram a todo o país.

Uma revolução que é agora alargada, consequência também da renovação de adegas, evolução e modernização da enologia e viticultura. A vinha em latada ou de bordadura é hoje uma imagem mais ou menos arqueológica e a aposta na qualidade generalizada. E a tudo isto não é também alheio o crescente sucesso dos Vinhos Verdes. Depois do Alentejo (33%), é a região com maior conta de mercado nacional (18%), que não tem parado de crescer. Além disso, exporta mais de metade da produção e com preços acima da média nacional (à volta dos 3€) e que nalguns mercados dos países nórdicos ou nos EUA mais do que duplicam.

É o reconhecimento da qualidade e atractividade de uma região que começa a ver chegar também a aposta de algumas das grandes casas produtoras nacionais, com investimentos de monta.

É por tudo isto que também a CVRVV muda a agulha, tendo apresentado uma nova campanha de promoção. “A marca Vinho Verde evolui agora para uma comunicação que reflecte a evolução enológica e o aparecimento de diferentes perfis de vinhos e o potencial de envelhecimento ainda por explicar”, revela aquela comissão de viticultura, anunciando o “objectivo de inscrever o Vinho Verde no topo das preferências dos consumidores nacionais”.

Uma estratégia que passa por mostrar que o Vinho Verde tem diferentes expressões que se adequam aos diversos momentos de consumo. Mostrar, no fundo, que há mais Verdes do que o consumidor imagina, e que, a par dos vinhos jovens e refrescantes, há também sempre o Vinho Verde para levar para um jantar em casa do sogro.  

A par do novo posicionamento para o mercado nacional, o presidente da CVRVV, Manuel Pinheiro, deu também a conhecer um consórcio com a região de Verona, em Itália, para a promoção conjunta em alguns mercados externos, casos da Dinamarca, França e Alemanha. Também no mercado português caberá aos Vinhos Verdes associar os Vini Veronesi à promoção dos seus vinhos.

“A União Europeia beneficia as regiões que façam trabalho conjunto e fomos, por isso, à procura de um noivado com o qual pudéssemos majorar os apoios”, explicou Manuel Pinheiro para dar conta de um orçamento de 3,4 milhões para três anos de promoção conjunta com gestão a cargo da CVRVV.