A vida de Josefina dentro de um livro de receitas

A mesa está posta na sala especial. Vinho, queijo da vizinha Amélia, biscoitos enfarta-brutos e bicas de farinha amassada com azeite. Abre-se o livro, de onde saltam histórias de Penha Garcia. Maias, adufe e festeiros, guloseimas da natureza e marouva, merendas e vassouras da Primavera, bodas e comida de todos os dias. "Digam lá se não é bonito viver assim."

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Penha Garcia. Rua da Alegria, número 4. “Quando arranjou dinheiro”, António Pires Nunes fez esta moradia com uma “sala especial”. “Servia uma vez no ano ou quando vinham visitas muito especiais”, diz Josefina Pissarra, a filha de 84 anos, que nos recebe como visitas muito especiais. Era onde se recebia no dia de Páscoa o senhor prior, que, de casa em casa, com sorrisos e palavras de paz, vinha de sobrepeliz e estola. Punha-se a toalha chinesa e o pratinho onde se colocava a moeda de prata. “Atrás do padre”, conta, “vinha alguém com um saco, guardava a moeda e abençoava-nos. Ficávamos em paz e a casa benzida para o ano todo.” Era uma sala reservada. Hoje, é a sala onde vamos conhecer as histórias que estão dentro de um livro de receitas.

A nossa vinda tinha sido anunciada. Valter Vinagre, que fotografara — e metera a colherada — nos pratos e travessas que enchem Sabores de uma Época - Tradições de uma Terra, premiado como Livro do Ano, na Feira do Livro de Lisboa, no âmbito do prémio Portugal Cookbook Fair 2018, telefonou pouco antes a avisar da chegada da Fugas. Na salinha parada no tempo — e no livro — está a toalha chinesa estendida e um pratinho onde cabe uma moeda. Há um móvel que é um rádio, um carrinho de chá fino com garrafinhas de licores (de amora, medronho, murta, marmelo...) e uma fruteira com bombons. “Isto já é meu”, sorri Josefina, que se orgulha de não ter modificado nada da casa que era dos seus pais. “Ficou tudo como estava”, diz, enquanto aponta para os quadros com fotografias de família e para as almofadas feitas com uma “toalha que estava rota”. Vivia em Lisboa, onde tem casa. Casou-se com um militar e, admite, não fazia nada. Andou 54 anos por outras terras. “Tinha uma vida fina que não era nada o meu género.” Por herança ficou com a casa dos pais. E voltou “às raízes” em 2008. “Eu, verdadeiramente, nunca parti dela. Comecei a ver que para ter qualidade de vida era aqui. Sabe tão bem a comida de tacho...”

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Na sala há um carrinho de chá fino com garrafinhas de licores e uma fruteira com bombons. Teresa Pacheco Miranda

Voltou para “a nova Penha Garcia”, que não “a velha” que deixara na mocidade. “Mas as pessoas e a partilha são iguais. Esta aldeia viveu sempre da partilha. Porque não havia dinheiro e por isso partilhávamos. Ainda há bocado veio uma vizinha trazer-me uma farinheira e uma morcela de botelha. De manhã veio uma vizinha trazer-me espinafres.” A mesa está posta — como na velha Penha Garcia. “Na nossa casa, quando alguém batia à porta, a primeira coisa que se fazia era pôr a mesa. Como não havia grande variedade para comer, punha-se o que havia”. Mais ou menos como hoje: vinho, chouriço, azeitonas, queijo da vizinha Amélia, “que faz os queijos em casa”, tangerinas, biscoitos (bolos das bodas, bolos para a banda, bolos “enfarta-brutos” para os festeiros) e pão, bicas “sem fermento, nem nada”, farinha amassada com azeite e cozida no forno comunitário com mais de 200 anos que era do avô António Pires Chamusca e que agora é gerido pela Adelaide, forneira desde sempre. “Estas coisas enchem-me o peito. Vivo aqui muito feliz. Digam lá se não é bonito viver assim? Com raízes. Aqui toda a gente tem recordações e histórias. Memórias.”

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É disso que Josefina fala quando conversa. De receitas e de histórias. “Para mim, cada receita encerra uma história”, escreveu no seu livro. Através deste “livro de histórias” dá a conhecer aspectos da alimentação “muito simples” e “riquíssima”, repleta de “sabores incríveis” e das tradições das famílias de Penha Garcia, nos anos 1930 e 40. “Em tudo o que escrevo, encontro-me com a minha família, a minha infância, outros afectos e recordações que sempre foram fundamentais na minha vida”, escreve num álbum onde se sente o “pulsar de recordações” e onde a autora recorda “pequeníssimas coisas”, “cheiros, cores, sons, olhares, até as lágrimas, que o tempo soube transformar em ternura”, receitas tão corriqueiras como as migas e os caldos com pão, receitas que “não necessitam de muitas perícias para ser preparadas”. “Necessitam apenas de amor e dedicação. E que os tempos de cozedura sejam respeitados.”

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"Na nossa casa, quando alguém batia à porta, a primeira coisa que se fazia era pôr a mesa." Teresa Pacheco Miranda

"Pouca cama, pouco prato e muita sola de sapato"

Numa aldeia auto-suficiente, no cimo das cristas quartzíticas da serra com o mesmo nome, Josefina, duas filhas reformadas, não cultiva nada — porque não sabe cultivar. “Só flores”, brinca. “Como couves todos os dias porque as tenho ali no quintal.” E come sopa ao pequeno-almoço todos os dias. Não come carne, não bebe leite, não come açúcar, não come sal. “Como o que é da época. Nunca fui muito habituada a comer carne. Aqui não se comia carne. O meu pai era uma pessoa remediada. Aqui não havia ninguém rico. Havia os pobres e uns remediados. Durante a semana comia-se o que havia. Sempre sopa. Chamava-se o caldo. Ao pequeno-almoço, o meu pai, que era ferreiro, comia sopa. Eu hoje como sopa ao pequeno-almoço. E sinto-me muitíssimo bem. Ao domingo comia-se melhor. Ao domingo tiro a barriga de misérias: como chouriço, como alheiras, como tudo. Não éramos viciados na carne. Porque não havia dinheiro para carne. O porco era quando se matava. E mais nada.” Na cozinha, como um museu, está uma panela cheia de sopa em cima do fogão. Há um frasco de mel atarraxado, uma corrente pendurada com fumeiro, os cântaros para a água, as panelas de alumínio que eram da mãe ("cozinhava e cuidava de nós"), as caldeiras de latão onde se faz o arroz-doce, os pesos e balança, o moinho de café, as rodilhas da cabeça, os cambos, o lavatório e o relógio despertador “dos pobrezinhos”. “Dou-lhe corda todos os dias”, diz Josefina, com “muitas saudades” da comida cozinhada na lareira em panela de ferro. “Tudo o que se faz para resultar bem, deve ser feito com cabeça e com verdade.”

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"Vivo aqui muito feliz. Digam lá se não é bonito viver assim?" Teresa Pacheco Miranda

“A escassez”, repete, “determinava os pratos. Assim como o nossa vida”. “Pouca cama, pouco prato e muita sola de sapato”, sublinha Josefina, sempre sorridente. Diz que em Penha Garcia, concelho de Idanha-a-Nova, não havia guloseimas. “Não as havia a vender”, lembra. Comia-se as pétalas da flor de marmeleiro, a chamada glauca, assim como as pétalas das estevas e das xaras com pintas vermelhas (dizia-se que eram as chagas de Cristo; que as outras estavam amaldiçoadas), os carrondos e as “patinhas de égua”, as amoras das silvas e os pêros dos pereiros bravos que cresciam espontaneamente nos campos. “A fruta em geral, a chamada marouva, era considerada naquele tempo uma guloseima.” Isto sem esquecer os esquecidos, uma “pequena jóia”, bolos feitos com ingredientes que, à época, eram escassos e raros, como a farinha de trigo, os ovos e o açúcar.

Há mais ou menos um ano, em dois dias, Josefina cozinhou tudo e empratou para Valter Vinagre fotografar. “Eu dava-lhe uma colher e ele comia uma colherada. ‘Ou tira fotografias ou não lhe dou a colher!'”, repetia-lhe a amiga Gracianda, que ajudou na produção. Sopa da matança junto às hortênsias, chanfana de costelas e lombo de porco à sombra da figueira, canja de perdiz no quintal, arroz de galo junto à cesta de tangerinas, arroz de lebre na mesa de xisto, coelho bravo com batatinhas na mesa de linho, migas de batatas de dois tombinhos ao lado da balança, espumas (farófias) na manta de retalhos, pudim de mel na mesa dos santinhos, caldudo de castanhas piladas no castanheiro e arroz-doce cremoso com leite de cabra pousado em cima da cama — como nos dias de boda; e porque nesses dias já não havia espaço nem na sala nem na cozinha — observado de perto pela Maia, tradicional boneca de trapos sem cara (está feita numa cruz; leva vestido duas baetas, o cueiro, o jaqué, o garruço e a touca) que é a deusa da Primavera e símbolo da fertilidade dos campos.

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“Já viu porque é que resolvi passar a velhice aqui?” A pergunta é retórica. “Aqui vive-se!”, garante Josefina Pissarra. Aqui vivem pessoas com mais de cem anos. “Em cada buraquinho se espeta uma flor.” Aqui ouve-se tocar o adufe, “o instrumento da nossa alma” como nos tempos da Ti Chitas. “Olhe! Se tiver alguém da família, digam-lhe para vir para cá passar a velhice. O acordar! É uma maravilha acordar em Penha Garcia. Não é só os passarinhos. Ainda estamos na cama e já se ouve ‘Ó Maria! Ó Tó, já te levantaste? Vai acendendo o lume!’ Estou na cama e já está tudo em movimento. Não há solidão. Às vezes, durante o dia nem me lembro que tenho família. Vive-se aqui muito bem.”

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