Opinião

Casa Nova

A relevância deste acontecimento – contra a lógica glamourosa do evento - é ser a consequência elaborada, na arquitectura e no que dentro dela seja encenado, de uma vida profissional projectada de muitos anos de prática regular de formas contemporâneas de discurso teatral.

O Tribunal de Contas avalizou as contas da Casa Nova do Teatro da Rainha, é uma notícia íntima e pública. O nosso trabalho não tem significado corporativo, são os destinatários que o legitimam, a nossa cena é a sala. É mais de uma década de luta pela casa digna e pelo direito a um “espaço vazio” que potencie a experimentação das linguagens do teatro. E são várias décadas de combate teatral pela democracia, por um teatro da democracia contra a religião consumista e por um pensamento social liberto das grilhetas do deus-dinheiro, por um teatro-serviço público.

A relevância deste acontecimento – contra a lógica glamourosa do evento - é ser a consequência elaborada, na arquitectura e no que dentro dela seja encenado, de uma vida profissional projectada de muitos anos de prática regular de formas contemporâneas de discurso teatral, tanto as da herança clássica, vivas porque contemporâneas, como as que radicalmente se inspiram nas tradições da encenação, disciplina jovem de um século e pouco.

O novo teatro do Teatro da Rainha dá corpo a um balanço de realizações feito de extremos. O TR foi sem-abrigo e foi rei, tem sido remediado, vive no pequeno estúdio, viveu no Garcia de Resende, residiu no São João, acampou no Sousa Bastos, apresentou-se no Trindade, Dona Maria, Sá de Miranda, representou em celeiros e praças, viveu em sótãos, realizou produções em parques, hibernou nas caldeiras do velho hospital, em Coimbra, foi cúmplice teatral no franco-português, no Instituto Alemão, esteve nas Ilhas, em Moçambique, na Roménia, Estados Unidos, Espanha, etc., viveu no Teatro da Casa Velha em Maputo, no Vila Velha em Salvador da Bahia, etc.

O edifício que surge é uma Casa Nova não por ser uma nova casa depois da última, a sala-estúdio, mas por ser uma invenção. É uma nova arquitectura, um vazio que resulta nas dimensões e arquitectura interior – o texto dramático está umbilicado a conformações espaciais concretas - da nossa prática de diferentes dramaturgias e da potenciação na nossa aprendizagem dessas diferenças – o dispositivo becketiano, a cena à italiana, o “teatro íntimo” de Strindberg, o podium brechtiano, a cena palaciana de Vicente, certa “frontalidade” à Crimp - e da nossa vida de muitas casas refeitas e adaptadas à possibilidade do exercício do teatro. Sim, construímos teias e fizemos chãos, fazemo-lo a cada criação por ser cada uma delas uma arquitectura efémera, outra casa.

A nova habitação é uma síntese do tudo e do todo que fomos sendo, o que resulta na ideia de um espaço vazio com uma volumetria única – a relação entre a profundidade, a largura e a altura é uma ciência, assim como os materiais acusticamente tratados do seu interior – e de um sistema de bancadas móvel, não estandartizado, portanto da possibilidade de inventar sempre uma relação de tensão enérgica cena/sala. E será um sistema de palcos: cave, palco-chão, palcos verticais e palco tecto, dizendo assim. Os espectadores estarão onde os actores podem vir a estar e vice-versa, são chamados a ser uma comunidade activa durante e pós espectáculos. O projecto do arquitecto Nuno Lopes é a obra concreta de uma ideia cívica qualificada que o teatro materializa.

De parabéns está também a Câmara Municipal das Caldas da Rainha, a vereação e a Assembleia Municipal e o seu presidente, dr. Tinta Ferreira que, ao longo dos anos, unanimemente e com lucidez rara, apoiaram de modo convicto este projecto único em termos nacionais e internacionais.

A primeira pedra vem aí.