Morreu a bailarina e professora Anna Mascolo, cuja vida se confundiu com a da história da dança em Portugal

"Foi uma figura incontornável na história da dança e sobretudo na história do ensino da dança”, destaca a directora artística da Companhia Nacional de Bailado. De Jorge Salavisa a Olga Roriz, formou alguns dos maiores nomes da disciplina em Portugal.

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Adriano Miranda
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Anna Mascolo fotografada em 2012 Pedro Cunha
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Morreu a professora e coreógrafa Anna Mascolo, uma bailarina italiana que se tornou uma das grandes divulgadoras da dança em Portugal. Tinha 88 anos e “era uma figura incontornável na história da dança e sobretudo na história do ensino da dança”, destaca ao PÚBLICO Sofia Campos, directora artística da Companhia Nacional de Bailado (CNB). Chegou a Lisboa já com Itália mergulhada na Segunda Guerra Mundial e ficou, primeiro a dançar e depois como professora de alguns dos mais relevantes intérpretes e coreógrafos portugueses — Jorge Salavisa, Vera Mantero, Olga Roriz. Teve “um percurso que se confunde com a história contemporânea da dança em Portugal”, como assinalou a ministra da Cultura numa nota enviada às redacções.

Anna Mascolo morreu neste sábado em Lisboa, segundo disse um amigo da bailarina à agência Lusa e como confirmou ao PÚBLICO Sofia Campos. Nasceu em Nápoles em Dezembro de 1930. O trabalho do pai tornou a sua infância um pouco nómada, conhecendo várias cidades até que aos 11 anos se mudaria para Lisboa, tentando escapar à guerra. Foi na capital portuguesa que passou a sentir-se em casa e onde apesar da discordância do pai, estudou dança — primeiro na Escola Italiana, depois já às escondidas do progenitor no Conservatório Nacional, onde se diplomou.

Acabaria por traçar, com o seu caminho, uma espécie de linha transversal do que foi a própria evolução da dança em Portugal, do ensino à sua prática — passou pelos tradicionais Bailados Verde Gaio, depois pelo mais inovador Círculo de Iniciação Coreográfica, viu passar pelo Teatro Nacional São Carlos as companhias que voltavam a circular no pós-Guerra, como os Ballets des Champs Elysées ou o New York City Ballet. Aos 28 anos de idade, fundava o Estúdio-Escola de Anna Mascolo, e viria a leccionar na Escola Superior de Dança de Lisboa, no Conservatório Nacional ou na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. Seria a responsável de um dos seminais grupos de dança nacionais — quando em 1971 se tornou directora artística do Grupo Experimental de Ballet, o gérmen do Ballet Gulbenkian. “Foi uma grande impulsionadora do ensino artístico integrado em Portugal”, detalha ainda a directora artística da CNB, e uma defensora do reconhecimento da especificidade da carreira artística e dos bailarinos.

A sua visão da pedagogia da dança veio de um dos vários cruzamentos profissionais que fez em Lisboa e depois na Europa — conheceu o importante coreógrafo George Balanchine numa das suas passagens pela capital portuguesa, foi estudar no Ballet do Marquês de Cuevas, chegando a ser sua solista, e também no Teatro alla Scala de Milão, cruzando-se com os grandes intérpretes ou coreógrafos da época (e da história) como Carla Fracci ou Bronislava Nijinska. “Segundo a própria Mascolo”, lê-se no seu site pessoal, “a Nijinska deve o que é ‘ver’ e ‘pensar’ a dança como bailarina, pedagoga, criadora e ser humano”.

Chegou a subir aos palcos do Teatro Nacional de São Carlos e dos Coliseus de Lisboa e Porto, como descreve a sua biografia, e a ser convidada para se candidatar a outras formações de renome internacional como o American Ballet Theatre, onde não chegou a ocupar o posto de prima ballerina — era casada. Anna Mascolo, como diria a própria ao PÚBLICO numa entrevista a propósito de ser reconhecida com o primeiro doutoramento honoris causa em Dança em Portugal, não teve dúvidas sobre o seu futuro na dança. “Eu dançava bem, mas não era uma intérprete espectacular. O meu corpo sempre teve consciência das suas limitações.”

Como professora no estúdio-escola com o seu nome, a sua filosofia transcendia o mero ensino — queria criar nos alunos “uma dignidade humana e artística”, como dizia no seu site. O seu papel como divulgadora, defensora da profissão e da disciplina leva a ministra da Cultura a elogiar “a dignidade e perseverança com que sempre lutou para que a dança fosse entendida como uma disciplina de rigor, cuidado e de pleno direito”. “Com Anna Mascolo escreveu-se a história da dança, desde a formação à coreografia, do ensino à defesa de uma política pública para a dança”, descreve Graça Fonseca na nota enviada este sábado.

“Não é preciso ter sido aluna de Anna Mascolo para sentir a sua perda. Ela dedicou toda a vida à dança, sobretudo ao ensino e de alta qualidade”, afirma a bailarina e coreógrafa Olga Roriz à agência Lusa. “Era uma mulher muito culta e reivindicativa. Nunca nada estava suficientemente bem para ela. Foi algo que também nos deixou, essa vontade de nunca desistir de lutar, de uma forma muito séria. Ela foi um exemplo”, acrescenta. “A dança era a sua missão na vida e cumpriu-a muito bem”.

Foi por duas vezes condecorada pela República Portuguesa — recebeu a Ordem do Infante Dom Henrique em 2004 e a Grande Oficial da Ordem da Instrução em 2018. Foi membro do Conselho Nacional Italiano da Dança da UNESCO e presidente da associação Centro Português de Bailado de 1966 a 1968. Foi casada com o arquitecto Vittorio Ferreira-David (1923-2006) e teve uma filha e um filho.

O funeral de Anna Mascolo realiza-se na sexta-feira, dia 5 de Abril, na Igreja do Campo Grande, em Lisboa, refere a agência Lusa. Está prevista, nesse dia, uma missa de homenagem às 14h, naquela igreja, e o corpo será transportado às 15h para o Crematório dos Olivais. Na quinta-feira, dia 4 de Abril, o velório decorre a partir das 17h, na capela da Igreja do Campo Grande.