Entrevista

“Vamos encontrar a cura para o VIH, mas é impossível dizer quando”

Aos 50 anos, o médico alemão responsável por curar o paciente de Berlim, diz-se animado com a notícia de outros doentes em remissão do VIH.

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Gero Hütter Miguel Manso

Antes de ser o médico responsável por tratar Timothy Ray Brown — o primeiro doente infectado pelo VIH a ser curado —, o hematologista Gero Hütter não se interessava particularmente pela doença (e estava longe de ser especialista). “Sempre tive medo do vírus”, recorda. “Quando era estudante de medicina, no início dos anos 1990, não havia terapia anti-retroviral. Vi tanta gente, jovens e velhos, a morrer. Foi muito assustador.”

Ainda assim, quando recebeu Brown, com um diagnóstico de leucemia (e VIH), lembrou-se de já ter lido sobre a mutação que acontece no gene que comanda o fabrico de uma proteína, a CCR5, que o VIH usa como porta de entrada para a célula a partir da qual se replica. Esta mutação faz com que a pessoa seja naturalmente imune ao vírus. E, assim, fez um transplante com a medula óssea de um dador que possuía esta mutação.

Mais de uma década depois do sucesso, outro paciente, agora de Londres, está em remissão do vírus. Os resultados também são promissores para um outro que está a ser acompanhado no Reino Unido, um de Düsseldorf e outro de Dresden. Em conversa com o PÚBLICO, durante a sua participação numa conferência em Lisboa, Hütter não parece ter grandes dúvidas de que vai ser encontrada uma cura para a doença. “No fim de contas, é só um vírus. Já encontrámos a cura para muitas coisas antes”, garante. 

No início de Março foi anunciado que há mais um paciente, desta vez de Londres, em remissão de VIH, o que indica que pode estar curado. Como é que recebeu a notícia?
Foi muito bom. Fui contactado através de um grupo que recolhe todos os casos, o IciStem. É algo preliminar, mas é um candidato promissor. Também há outros. Há um terceiro paciente de Düsseldorf, na Alemanha, que não toma medicação [para o VIH] desde Novembro de 2018. Provavelmente ainda é cedo. Temos de esperar mais uns seis meses [para fazer o anúncio oficial]. E eu sei que há outros dois pacientes que também receberam o transplante. São o número quatro e o número cinco. São casos completamente diferentes do Timothy Brown, mas o resultado é o mesmo.

Havia alguma incerteza de que a cura de Brown podia dever-se a alguma coisa nele e não no tratamento?
Existiu um paciente de Berlim antes do meu, cerca de dez anos antes. Tinha VIH e um linfoma e recebeu quimioterapia. Nessa altura, a terapia anti-retroviral não estava bem estabelecida e depois do transplante não havia mais vírus. Porém, não tinha desaparecido completamente. Os médicos conseguiam medi-lo como pró-vírus [uma forma latente do vírus], mas não havia replicação. Foi um caso muito raro. Achava-se que tinha alguma coisa a ver com a quimioterapia. Repetiram isto com outros pacientes e não funcionou. Anos depois, percebeu-se que o paciente tinha algo nos genes que permitia controlar o vírus. Por isso, a comunidade associada ao VIH ficou muito céptica quando eu disse que tinha curado o VIH. Agora estamos mais confiantes de que o procedimento é a razão do controlo do vírus e não algo que está associado ao paciente. 

Porque é que demorou tanto entre o paciente de Berlim e o de Londres?
A questão é que o paciente de Berlim sobreviveu a uma recaída da leucemia e recebeu um segundo transplante ao qual sobreviveu. Do ponto de vista de um hematologista, é muito mais surpreendente que ele tenha sobrevivido à leucemia do que se tenha livrado do VIH. Muitas coisas podem acontecer. E houve um momento em que finalmente foi possível falar de uma cura. Mas é um caminho tão longo que não é muito surpreendente que tenha demorado tanto. Podia ter demorado um ano depois do paciente de Berlim, mas todos os pacientes tiveram complicações. É normal em oncologia.

Como é que se lida com a frustração constante de ver pessoas a morrer com a doença?
Para os médicos de doenças infecciosas, o VIH é uma doença crónica. Fico muito surpreendido como algumas pessoas são pouco cuidadosas ao ponto de ficarem infectadas. Há pessoas que já estão a contar que isso vai acontecer, mas não alteram o seu estilo de vida. É algo surpreendente para quem as trata. Há formas de se protegerem, mas elas não aceitam isso. A taxa de infecção desceu nos anos 1980, porque toda a gente ficou assustada e viu que esta podia ser uma doença mortal. Mas com a terapia anti-retroviral começou a ver-se que as pessoas não eram perfeitamente saudáveis mas que podiam viver e a taxa de novas infecções voltou a aumentar.

Pensa que é possível encontrar uma cura que seja aplicável a toda a gente?
Porque não? No fim de contas, é só um vírus. Já encontrámos a cura para muitas coisas antes. Claro que isto não é nada fácil, mas, em termos de pesquisa e desenvolvimento, estamos a fazer coisas que seriam impensáveis há 40 anos. Vamos encontrar a cura para o VIH, mas é impossível dizer quando. 

Estava nos seus planos trabalhar nesta área antes do Timothy Brown?
Não. Sempre tive medo do VIH. Quando era estudante de Medicina, no início dos anos 1990, não havia terapia anti-retroviral. Vi tanta gente, novos e velhos, a morrer de VIH… Foi muito assustador. Depois decidi ir para oncologia, que não é muito melhor. Mas não era um assunto [que me interessasse]. Também não era algo que fosse uma especialidade no nosso hospital. 

Como é que tudo começou?
Com a admissão do Timothy no nosso hospital, uma coisa rotineira. Foi anunciado como um paciente com leucemia. O que não era habitual era o facto de ele também ter VIH. O nosso hospital não era muito especializado em VIH. Tínhamos um departamento de doenças infecciosas, mas a combinação de VIH e leucemia é muito pouco comum. Eu nunca tinha tido outro paciente semelhante. Nem o director do serviço. Foi algo novo.

Começámos com um tratamento normal, como todos os pacientes recebem. Mas da primeira vez que o vi pensei que, caso fosse necessário fazer um transplante (algo que era muito óbvio que ia acontecer), devia haver uma possibilidade de optimizar o processo ao ponto dele receber células resistentes ao VIH. 

Então já sabia que existia essa possibilidade?
Sim, eu tinha lido um artigo uns anos antes que falava de uma mutação que ocorre naturalmente em 1% dos europeus. Uns dias depois de começarmos o tratamento fizemos um pedido para dadores de células estaminais e encontrámos um dador com esta mutação. Mas neste intervalo de tempo o paciente [Timothy] decidiu que não queria fazer o transplante. 

Porquê?
Porque durante a última sessão de quimioterapia ele teve febres muito altas e teve de ser internado nos cuidados intensivos. Ficou tão assustado que pensou que o transplante podia ser pior. Ficou muito ansioso e decidiu não prosseguir. Voltou cerca de meio ano depois com uma recaída. Foi em 2006. E já era uma situação em que não há outra opção a não ser o transplante.

Começámos de novo, mas já tínhamos o dador. Ele recebeu o transplante em Fevereiro de 2007 e tudo correu bem. Saiu do hospital duas semanas depois e voltou a trabalhar. Durante este período íamos tirando sangue para testar para o VIH. Algo muito interessante é que logo dois meses depois, quando o transplante tomou quase conta da produção de sangue, o pró-vírus desapareceu completamente. Isto foi muito interessante. Não estava à espera.

Foi surpreendente?
Sim, fiquei surpreendido. Pensei que as células infectadas no estado latente ficariam a circular durante muito, muito tempo. Durante vários anos, provavelmente. Não esperei que fosse tão rápido. Mas um ano depois do transplante, o paciente voltou com anemia e fadiga e percebemos que a leucemia tinha voltado. Recomeçámos o processo. Ele recebeu um segundo transplante do mesmo dador. Curiosamente, o primeiro transplante foi muito fácil. Quase que o podíamos ter feito em ambulatório. Mas no segundo ele teve muitas complicações. Mas também funcionou e continuou sem sinais de VIH. Tudo parecia estar bem. O problema é que ele desenvolveu sintomas neurológicos. Tonturas, sonolência, falta de memória e não conseguia levantar-se.

Porquê?
Não fazíamos ideia. Somando tudo parece que esta condição e a forma como foi piorando, foi causada por um efeito tóxico da quimioterapia e da radiação. É um efeito secundário deste tipo de terapia. Felizmente, este efeito tóxico é parcialmente reversível. Depois disto, ele foi readmitido num hospital de reabilitação onde reaprendeu a andar e a falar. Foi um caminho longo para ele. A sua condição melhorou de uma maneira que nunca esperei. Ele redireccionou toda a sua vida. Antes disto, o VIH não era um assunto importante para ele. Depois, percebeu que é alguém muito especial e único. Começou a aprender mais sobre o VIH, leu muitas coisas e manteve-se em contacto com investigadores nos Estados Unidos. Tornou-se um pequeno especialista.

Este paciente pode voltar a infectar-se ou é imune?
Ele pode ficar infectado com uma variante do vírus. Felizmente, as pessoas com esta mutação estão quase completamente protegidas. Mas apenas quase. Há casos de pessoas com esta mutação que são infectadas. Mas pode contar-se pelas duas mãos. É muito pouco comum, mas teoricamente possível. 

Como é que se explica o que aconteceu no corpo do Timothy para que ficasse curado?
Tendo a usar a analogia dos ponteiros do relógio que giramos para trás. O que fizemos foi remover o seu antigo sistema imunitário e colocar um novo, que é resistente. Claro que ele tinha vírus depois do transplante, mas o vírus não tem para onde ir. Só há células CCR5 negativas. Estamos a voltar ao momento antes de ele ser infectado e passa a ficar na mesma situação que as pessoas que têm esta resistência natural. Se ele tivesse replicação durante os primeiros momentos antes do transplante, o vírus iria parar ao sangue, mas não iria encontrar as CCR5, seria eliminado e não conseguiria continuar a infectá-lo.

Há pacientes que o contactam para que os cure?
Sim, todas as semanas. São pessoas que só têm VIH. Mas eu acho que, actualmente, esta não é uma opção para esses pacientes. Sugiro que esperem quando mais pessoas tiverem feito o tratamento e se confirmem os resultados. Há um grupo de pessoas infectadas, sem problemas oncológicos, que também poderão ser candidatas a estes transplantes. Serão, por exemplo, pacientes que estão mais perto do estado de sida. Ou que não podem tomar a sua medicação. E que têm uma esperança média de vida muito curta. Acho que esta é uma questão ética que também tem de ser discutida com o paciente. Sobre se aceitam o tratamento que é arriscado, mas que poderá ser capaz de os curar. Ou preferem ficar assim e esperar morrer de sida. 

Podem morrer com o tratamento?
Sim. O risco é cerca de 5%. É elevado, mas há que equilibrar riscos e benefícios.

Em quantos pacientes é que já tentaram fazer este tipo de tratamento?
No IciStem temos um grupo de 45 pacientes e julgo que 39 já receberam um transplante. Desses, seis tinham esta mutação na proteína CCR5 [nas células transplantadas]. Dois já morreram. Outro é o paciente de Londres, outro, o de Düsseldorf, e há um terceiro, também do Reino Unido, e um quarto, de Dresden. 

O que é que faz hoje em dia?
Estou envolvido em investigação sobre transplantes com o grupo IciStem, que é um grupo de especialistas em VIH e hematologistas de Madrid, Barcelona, Hamburgo, Paris, Utrecht... Estamos a recolher estes casos, a fazer trabalho de pesquisa, a testar para vírus residual. Estamos a tentar construir uma base de dados destes pacientes. Para encontrar as coisas em comum. A minha ocupação principal é produzir células estaminais para transplantes e desenvolver terapias para oncologia.