Adi Goldstein/Unsplash
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Megafone

Eu, muitas e demasiado silêncio

Hoje perdi a vergonha de dizer que também eu fui vítima de abusos numa relação de intimidade tóxica. Porque nunca devia ter sido eu a sentir vergonha ou culpa, a sentir-me a causa do que me aconteceu.

Hesitei muito em escrever este texto. Hesitei mais ainda em publicá-lo. Vivemos envoltas em polaridades que nos roubam o direito a falar do que não se encaixa na ideia do que somos. Ou somos mulheres fortes ou fracas. Ou somos mulheres auto-suficientes ou dependentes. Ou somos heroínas ou invisíveis. Como se nunca nos permitíssemos ver-nos como gradação de muitas coisas, como se não nos fosse autorizado sermos uma multitude de coisas.

De diversos modos nos é dado a entender que não podemos ser mulheres independentes e, ao mesmo tempo, em certo momento das nossas vidas, darmos por nós numa teia consumidora da força e da energia que temos e que somos. Mas podemos, acreditem que sim. Somos todas potenciais vítimas e, com sorte, sobreviventes de relações tóxicas e de abuso. Na verdade, antes de mais, peço desculpa a todas as mulheres que não compreendi. A todas aquelas com as quais não soube ser empática, só soube ser julgadora e lançar-lhes um olhar de ridícula superioridade, “porque só lhes acontece o que acontece porque deixam”. Trabalho todos os dias para que esta minha desumanidade não se volte a instalar.

Sei que hoje não estou numa relação tóxica, esvaziadora de mim, da minha energia e força, da minha auto-estima e confiança. Mas sei que já passei por lá. Não se sai sozinha, não se consegue sair sem a força e o afecto dos que verdadeiramente nos amam. Hoje perdi a vergonha de dizer que também eu fui vítima de abusos numa relação de intimidade tóxica. Porque nunca devia ter sido eu a sentir vergonha ou culpa, a sentir-me a causa do que me aconteceu. Mas foi o que senti durante muito tempo, tal como tantas outras mulheres. O percurso que nos leva à perda de nós próprias é longo. Entranhou-se em mim um processo de me ver e às minhas acções como sistemáticas falhas e erros, como não estando nunca à altura. Quem falhou, quem não esteve à altura, foi quem me foi roubando paulatinamente a confiança, com as críticas sistemáticas, a manipulação, a falta de transparência e o desapoio, com o seu narcisismo e comportamentos alimentados por um absurdo auto-centramento, mesmo se sempre dizendo que gostava de mim. Afinal, foi-me sugando toda a minha enorme generosidade relacional, devolvendo quase nada ou uns vagos restos.

Reconstruo-me um dia atrás do outro. Aprendi a dizer-me sobrevivente aos poucos. Perdi a vergonha, que nunca devia ter tido, de ter sido vítima. Falo porque o silêncio é o nosso pior inimigo a seguir a quem nos faz mal. Sem hematomas, sem facas apontadas, sem corpo maltratado ou assassinado. Só me foi morrendo a alma e a vontade de ser eu própria durante muito tempo, num discreto e cruel processo. Obrigando-me a ser socialmente apta, competente, completa, mas, na verdade, a desfazer-me por dentro. Porque uma mulher forte não pode ser vítima de uma relação abusiva. Dizem os juízes, diz o suposto senso comum, diz a sociedade em que vivemos, dizem até algumas pessoas próximas. E é mentira: eu sou uma mulher forte e sou sobrevivente de uma relação de intimidade abusiva. Os hematomas guardei-os todos nas minhas pele e carne interiores: na minha auto-estima, na confiança em mim, nas lutas sistemáticas para não ser o lixo que alguém, que afirmava gostar de mim, me fazia sentir. Todas estas agressões invisíveis, mas assustadoramente reais, existiram nesta relação e existem em muitas relações ditas e vistas como normais. Contra este peso enorme das violências invisíveis resta-nos a empatia e a força de quem nos ama, a sororidade que descobrimos noutras mulheres, as redes que se tornam cada dia mais importantes, mas também a necessidade fundamental de chamarmos as coisas pelos nomes.

Chamo-me Patrícia, sou uma sobrevivente de uma relação tóxica e abusiva e hoje passou mais um dia deste meu longo processo de reencontro, de tomada de consciência, de me curar e de me cuidar. Não preciso, não precisamos da vossa pena. Só exigimos que cada pessoa perceba a naturalização sistemática que destinamos às muitas violências que as relações de intimidade podem conter. Que não se calem em relação ao que sofrem, que não guardem silêncio em relação ao sofrimento que vêem ou intuem ver ao vosso redor. Chega de uma sociedade cúmplice e desculpabilizadora dos agressores, quase sempre socialmente tão competentes e normais. Existem palavras e acções tão violentas como murros. Pode-se morrer de dentro para fora, com as palavras e os actos que nos destinam aqueles em quem confiámos e amámos um dia.