Os lamentos de Beth Gibbons como nunca os escutámos

Um encontro improvável, ou talvez não. A voz dos Portishead interpreta a Sinfonia nº3 do compositor polaco Górecki e o resultado é admirável.

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Os anos 1990 não foram marcantes apenas para Beth Gibbons, quando através dos Portishead de álbuns como Dummy (1994) ou Portishead (1997) se tornou numa das cantoras mais reverenciadas desses tempos.

Foi também uma época determinante para o polaco Henryk Górecki. Em meados dessa década, a Sinfonia nº 3 (Sinfonia das Canções Tristes), de 1976, transformou-se na peça mais famosa de um compositor vivo. Uma gravação de 1992, com a London Sinfonietta e a soprano Dawn Upshaw sob a direcção de David Zinman, vendeu mais de um milhão de cópias e em pouco tempo o seu nome ficou conhecido à escala mundial, junto de um público transversal, que extravasava o círculo da música erudita.

Agora é bem possível que um público ainda mais ecléctico venha a ser seduzido, com o lançamento pela inglesa Domino (Arctic Monkeys, Animal Collective, Franz Ferdinand), de um álbum e um filme-concerto registado em 2014, resultante de um espectáculo no Teatro Nacional da Ópera, em Varsóvia, onde a Symphony nº3 (Symphony Of Sorrowful Songs) foi interpretada pela voz de Gibbons com a Orquestra Sinfónica da Rádio Nacional Polaca sob direcção de Krzysztof Penderecki.

É até certo ponto um projecto surpreendente. Mas só em parte. O percurso da cantora e da obra de Górecki têm sido tudo menos lineares. É verdade que Gibbons não é uma soprano com aprendizagem formal. É uma empírica, mas com uma voz e uma intensidade emocional que se parecem acomodar a qualquer modelo musical. Aconteceu assim com os Portishead nos dois primeiros álbuns de estúdio, numa linha de envolvimento semitecnológico, ou quando o grupo gravou um álbum ao vivo em Nova Iorque com uma orquestra (Roseland NYC Live de 1988), ou ainda quando os Portishead regressaram aos originais, com Third, em 2008, com a voz de Gibbons envolvida por um corpo musical mais abrasivo, revolto e dissonante.

Pelo meio existiram colaborações, entre elas com o português Rodrigo Leão, e um álbum a meias com Paul Webb (Rustin Man), num registo de ambientes crepusculares, algo mais pastoral e folk, exposto em Out Of Season (2002). Em 2008, numa entrevista, Geoff Barrow, o arquitecto do som Portishead, caracterizava-nos assim Gibbons: “É desconcertante. É brutalmente honesta, com o que isso gera de fascínio e surpresa. Não estamos habituados a lidar com pessoas assim no dia-a-dia.” E três anos mais tarde, em conversa com o terceiro Portishead, Adrian Utley, este dizia-nos que “mesmo nos ensaios, a Beth coloca uma gravidade emocional na sua interpretação que é realmente tocante.”

Ela não brinca. Daí que quando foi desafiada a interpretar Górecki tenha dito de imediato que sim, mas exigiu tempo, tendo havido um intenso processo de preparação, incluindo o desafio de aprender o texto original sem dominar a língua. De resto, tudo aconteceu de forma algo discreta.

Se existe algo que liga Gibbons a Górecki é também essa sobriedade, e até reticencia, em relação à fama. No caso do compositor, que faleceu em 2010 aos 76 anos, o inesperado sucesso da Sinfonia nº3 – que conduziu a colaborações posteriores com o Kronos Quartet e à utilização da música em bandas-sonoras de filmes – projectou-o junto de um público mais alargado, mas nunca se deixou deslumbrar. “Fico contente que as pessoas fora do mundo da música clássica comprem a minha peça”, haveria de dizer mais tarde, com ironia à mistura. “Se comprarem o meu disco em vez de cigarros, estarei a salvar vidas o tempo todo.”

Se as suas obras iniciais haviam sido marcadas pela linguagem radical da vanguarda, pela violência sonora e pelos acordes dissonantes, na Sinfonia das Canções Tristes enveredou pelo regresso à simplicidade e ao idioma tonal, ao mesmo tempo que se aproximava do chamado “minimalismo religioso” numa linha paralela à de compositores como Arvo Pärt ou John Tavener. Para uns a obra, de forte componente emocional, constituiu um tributo às vítimas do Holocausto. Para outros o tema central é a maternidade e a separação dos entes queridos por causa da guerra.

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Certo é que foi escrita por Górecki para orquestra e soprano, recorrendo em cada um dos seus três andamentos a cantos sobre textos polacos: um lamento atribuído à Virgem Maria escrito no século XV, uma mensagem escrita por uma adolescente nas paredes de uma prisão polaca da Gestapo no contexto da II Guerra Mundial e uma melodia do folclore da Silésia que relata o desespero de uma mãe que procura o seu filho perdido.

O primeiro andamento, de 25 minutos, dura quase tanto como os dois outros juntos, entrando a voz de Gibbons na segunda secção, para mostrar de imediato que a intensidade dramática transportada pela voz é a que reconhecemos de sempre. Como em tantas outras ocasiões podemos imaginá-la: olhos fechados, uma forma tão íntegra quanto vulnerável perante o microfone, aquela voz que parece suspender o tempo envolta pelos violinos, numa multiplicação acelerada de emoções.

O segundo andamento oferece um contraste imediato com o sombrio tom de elegia do primeiro, com a linha melódica, e o acompanhamento envolvente, propondo um cenário triste mas lírico, enquanto no terceiro movimento somos transportados pela pureza expressiva e humanidade da voz, com a cantora a mostrar total controlo vocal e a incarnar o leque emocional de sugestões. Nada que já não a tivéssemos visto fazer noutros contextos. Mas que nunca ouvíramos daquela forma.

Com o sucesso da Sinfonia nº3, Górecki comprou uma casa de campo nas montanhas, na fronteira entre a Polónia e a Eslováquia. Dizia-se que, no final da vida, era em contacto com os camponeses e músicos das montanhas, aos quais se juntava por vezes tocando violino, que se sentia mais feliz.

Por sua vez Gibbons continua a viver no campo com a família. Não dá entrevistas. Não porque queira criar mitos. Mas porque acredita realmente que a música fala por si. De vez em quando, nos últimos trinta anos, de forma quase sempre inesperada e discreta, seja com os Portishead ou sozinha, tem vindo até à cidade. Foi o que aconteceu nesse dia em que resolveu cantar Górecki num teatro da capital da Polónia.