Caso dos e-mails: FC Porto alega interesse público, Benfica questiona influência da administração

Júlio Magalhães, director-geral do Porto Canal, garante que estação televisiva não retirou benefícios financeiros de picos de audiência.

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Júlio Magalhães foi ouvido esta quinta-feira no Porto Nelson Garrido

Esta quarta-feira, no Tribunal do Juízo Central Cível do Porto, foram ouvidas mais sete testemunhas do processo conhecido como “caso dos e-mails. O Benfica pede uma indemnização de 17,7 milhões de euros por danos alegadamente causados pelos “dragões” pela divulgação da correspondência electrónica das “águias” no programa Universo Porto - da Bancada do Porto Canal. Os réus são Francisco J. Marques, director de comunicação dos portistas, Diogo Faria, comentador no Porto Canal, Fernando Gomes, Pinto da Costa e Adelino Caldeira, administradores da SAD portista.

O interesse público das revelações feitas pelos e-mails foi a estratégia usada pelos advogados que representam os “dragões” para a defesa da divulgação da correspondência electrónica. Nesse sentido, o FC Porto convocou Domingos Andrade, director do Jornal de Notícias, Manuel Dâmaso, director da revista Sábado e Pedro Santos Guerreiro, ex-director do Expresso, órgãos que noticiaram as revelações feitas no Porto Canal. Para todos, não existe dúvida: o interesse público da correspondência electrónica justifica a sua divulgação.

“Obviamente que [os mails] se revestiam de interesse público, pelo facto de estar em causa o mundo do futebol, o maior clube português e uma possível viciação de resultados”, explicou Domingos Andrade, director do JN. Pedro Santos Guerreiro afirmou que, no caso do Expresso, a correspondência electrónica foi tida como uma fonte documental que, posteriormente, originou várias investigações. Mas fez questão de frisar que os e-mails “nunca foram reproduzidos na íntegra”.

Júlio Magalhães, director-geral do Porto Canal, fez questão de deixar bem clara a separação entre o carácter clubístico do canal e a vertente generalista da estação de televisão, propriedade do FC Porto: “Os conteúdos do clube são tratados por uma equipa específica. Diria que, da grelha do Porto Canal, 80% são programas generalistas e 20% direccionados ao FC Porto”.

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Diogo Faria será ouvido esta sexta-feira NELSON GARRIDO

Pedro Guerra e Adão Mendes convidados pelo Porto Canal

Durante o testemunho de Júlio Magalhães, a equipa de defesa do Benfica questionou o director-geral sobre a influência da administração portista no alinhamento do canal e a respectiva divulgação dos e-mails. “Em nenhuma reunião Adelino Caldeira me falou sobre isso”, advoga. Também garantiu aos advogados de defesa dos “encarnados” que o pico de audiências registado durante os programas onde se faziam as revelações dos e-mails não se converteu em ganhos financeiros, explicando que 90% das receitas do canal são provenientes do contrato assinado com a Altice.

Por último, quando se discutia a impossibilidade dos visados na correspondência electrónica responderem às acusações feitas no programa afecto aos “dragões”, Júlio Magalhães deu a garantia que o Porto Canal tentou que isso acontecesse. “Mandamos um e-mail a convidar Pedro Guerra e Adão Mendes para direito de resposta, apesar de eles terem à disposição espaços mediáticos muito maiores do que o Porto Canal. Até este dia, não obtivemos qualquer resposta”, finalizou.

Pedido de indemnização peca por escasso, diz Miguel Moreira

Uma das duas testemunhas arroladas pelos “encarnados” foi o director financeiro do Benfica. Miguel Moreira explica como se chegou ao valor da indemnização pedida do clube da Luz, assegurando que esta não é suficiente dado o valor actual da SAD benfiquista: “Um relatório divulgado pela KPMG [empresa de auditoria], na época 2015-16, avaliava o valor do Benfica em 340 milhões de euros. Um valor manifestamente inferior ao real valor e ao potencial do Benfica. Mas a base foi chegar a cinco por cento desse número. E esse valor peca por escasso. Hoje em dia, andará pelos 800 milhões. Consideramos esse número o limite mínimo de um dano enorme.”

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Pedro Santos Guerreiro foi ouvido ao início da tarde de quinta-feira NELSON GARRIDO

O director financeiro do Benfica garante que a divulgação dos e-mails foi um dos maiores contributos da perda de receitas da época 2016-17 para a 2017-18. Foram cerca de 20 milhões de euros que os “encarnados” encaixaram a menos de um ano para o outro. A defesa do FC Porto, porém, questionou o CFO benfiquista sobre se o desempenho nas competições europeias [que culminou numa eliminação com 0 pontos] não teria sido factor decisivo para os maus resultados financeiros. “Não se pode calcular as coisas dessa forma. Há variáveis que diminuíram e outras que aumentaram”, contrapôs Miguel Moreira.

José Cruz, Diogo Faria e Pedro Bragança, todos comentadores do programa em que ocorreu a divulgação da correspondência electrónica “encarnada”, serão ouvidos esta sexta-feira. As alegações ficaram marcadas para o dia 10 de Abril, da parte da tarde.