Crítica

Não sobressai o autor, mas confirma-se o intérprete

Uma colecção de canções a que não faltam momentos inspirados, mas que falha em encontrar um centro.

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Tomás Monteiro

A constatação que há dois anos aqui se fazia relativamente a Excuse Me, o álbum de estreia de Salvador Sobral, é a que repetimos agora. Agora que Salvador Sobral ultrapassou o furacão eurovisivo, agora que gravou o disco que queria gravar, tivesse ou não havido Eurovisão, mergulhamos nas doze canções de Paris, Lisboa e a sensação mantém. Escrevíamos então: “aquilo que Excuse Me anunciava com cristalina certeza era a notável capacidade interpretativa de Salvador Sobral”.

Em Paris, Lisboa, o jazz canção em que assentava o álbum de estreia torna-se, no máximo, presença subliminar. Extravasando as estreitas fronteiras desse território tão povoado, o novo álbum oferece à voz e expressividade de Sobral mais estimulantes cenários. Ainda assim, deixa-nos no final com a mesma sensação. É realmente um intérprete notável, tão à vontade e sempre sincero no dramatismo de 180, 181 (catarse), quanto no romantismo sonhador de Cerca de del mar, tão certeiro na modulação dos versos quanto no saborear das palavras e na certeza dos improvisos vocais. Trai o álbum, porém, a dispersão por diversos ambientes sonoros e os saltos entre géneros, de que a multiplicação de línguas cantadas (português, inglês, francês, castelhano), o que não seria um problema em si mesmo, acaba por ilustrar. Falta-lhe, enfim, um centro que aglutine toda esta música e que dê a Paris, Lisboa um corpo definido — o que temos, no seu lugar, é uma colecção de canções que reflecte a diversidade de apreços musicais que conduz o gosto do autor.

Exemplarmente interpretado, com destaque para o trabalho do pianista Júlio Resende, mas sem esquecer os contributos de André Rosinha (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria), Paris, Lisboa arranca com a magnífica 180, 181 (catarse), canção pesadelo de um Lázaro em catarse (repita-se o parêntesis do título) que o violoncelo exacerba e na qual o piano abrirá uma frincha por onde se escapa um raio de luz redentora, beatífica. 180, 181 põe-nos em sentido, mas é de uma intensidade que não se repetirá ao longo do disco.

Privilegiando a liberdade expressiva sobre a compostura perfeita do estúdio, como se ouvíssemos a banda perante nós, ao vivo no estúdio, o que confere uma vivacidade cativante às interpretações, viajamos entre o Mediterrâneo e América Latina na exaltada e exaltante Cerca del mar, ouvimos um original de Lupicínio Rodrigues, mestre do samba canção, aproximar-se de standard de Cole Porter (Ela disse-me assim) e passamos à frente Playing with the wind, que se queda numa terra de ninguém entre a densidade emocional de Jeff Buckley e a emoção de papel de uns Keane. Admiramos o despojamento do dueto com Luísa Sobral, Prometo não prometer (a harpa de Eduardo Raón a iluminar o encontro das duas vozes), e da Mano a Mano partilhada com António Zambujo (ambos a entregarem-se ao poema de Maria do Rosário Pedreira com sábia discrição, deixando assim que os versos melhor façam em nós o seu caminho).

Paris, Lisboa tem um jazz canção a piscar o olho pop de forma demasiado convencional (Benjamin) e tem como faixa bónus a magnífica releitura de Anda estragar-me os planos, extraordinária canção que Joana Barra Vaz levou ao Festival da Canção 2018, que aqui surge interpretada com rajão madeirense e transformada em dança tropicalizada que Sobral vocaliza a preceito. Paris, Lisboa tem também uma doce e cândida La soufleusse que nos deixa com saudades da chanson francesa. Tem muita coisa o segundo álbum de solo de Salvador Sobral. Demasiada para que sobressaia nele a assinatura do autor, mas mais que o suficiente para que, voltemos ao início, se reconfirme a excelência do intérprete.