Crítica

Crepuscular

Emboscada Final pensado para o grande ecrã com Newman e Redford, acabou na Netflix com Costner e Harrelson — por aí não se perde nada, mas fica-se a pensar o que Eastwood teria feito disto.

Um “último hurra”: <i>Emboscada Final</i>
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Um “último hurra”: Emboscada Final
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Há tanta história de Hollywood a rondar este filme que põe a cabeça à roda. Emboscada Final é a perseguição a Bonnie e Clyde, os míticos fora-da-lei dos anos 1930, contada pelo ponto de vista dos dois rangers do Texas que saíram da reforma para os apanhar quando o FBI de J. Edgar Hoover provou ser incapaz de o fazer. Ao filme “revisionista” de 1967 de Arthur Penn que deu o “tiro de partida” para a Nova Hollywood opor-se-ia, então, agora, uma leitura “anti-revisionista”, conservadora, vista pelos veteranos de guerras americanas que não percebem todo o bruáá mediático à volta destes assassinos de polícias endeusados pelos mais jovens.

Vamos complicar mais ainda as coisas: o argumento de John Fusco (Hidalgo) foi originalmente escrito há 15 anos com Paul Newman e Robert Redford na cabeça, formando uma espécie de “círculo perfeito” com Dois Homens e um Destino, onde aquela dupla interpretava os lendários fora-da-lei Butch Cassidy e Sundance Kid. A doença e morte de Newman impediram o projecto de ser levado a bom porto. E, poucos meses depois de vermos Redford como um assaltante cavalheiro no excelente O Cavalheiro com Arma de David Lowery, eis o guião de Fusco filmado para a Netflix, com Kevin Costner e Woody Harrelson nos papéis que teriam sido de Newman e Redford, e sob a direcção de John Lee Hancock, autor dos argumentos de Um Mundo Perfeito e Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal para Clint Eastwood.

Não é em vão que o nome de Eastwood é aqui invocado — Emboscada Final tem tudo do ambiente crepuscular, de “fim de uma época”, que os seus melhores filmes desde Imperdoável têm tido; centra-se em personagens que parecem estar a ser deixadas para trás pelo avanço do progresso mas que continuam a ter uma palavra a dizer no admirável mundo novo que as está a engolir. E é por toda esta história que é pena que Emboscada Final tenha acabado nas mãos de um cineasta que tem consciência desse peso sem tem forçosamente os braços para o transportar. Hancock é muito bom com os actores — foi ele que dirigiu o Óscar de Sandra Bullock em Um Sonho Possível e que fez de Tom Hanks Walt Disney em Ao Encontro de Mr. Banks — e tem o savoir-faire suficiente para saber que os actores são meio caminho andado para que o filme resulte. Ainda por cima, tanto Costner como Harrelson envelheceram muito bem e não precisam de inventar: basta uma postura, um olhar, uma presença para vermos ali toda uma vida de tiroteios, dúvidas, certezas, cavalgadas e perseguições. E Hancock não hesita em recorrer àquela vasta galeria de secundários em que o cinema americano continua a ser brilhante (é ver como William Sadler, John Carroll Lynch e Kathy Bates são capazes de desenhar uma personagem com duas, três cenas). Mas essa gravitas que o filme transporta, e até invoca, é sublinhada a algum traço grosso; falta a Hancock o “golpe de asa”, a eficácia, a segurança que saberia fazer o filme à imagem das suas personagens (se David Lowery conseguiu contar a sua história em 90 minutos, não há razão para Hancock levar 135 longos e inchados minutos para contar a sua).

Emboscada Final não deixa, ainda assim, de ser um objecto simpático a valer uma visão, e que mereceria algo mais do que esta “segunda divisão” do “directo-a-VOD” em que tanta da produção própria da Netflix se deixa cair. Mas de certo modo até é apropriado que assim seja. É um filme sobre o “último hurra” de “velhotes” num mundo que os está a deixar para trás, ou de uma certa Hollywood que ficou para trás mas que teima em não desaparecer. Será quixotesco ou antiquado, sim, mas não é razão para lhe passarmos ao lado.