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Prostituição no Canadá: “Não são vítimas, são trabalhadores do sexo”

Lindsay Irene
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Lindsay Irene

“Trabalho sexual é um trabalho como outro qualquer.” As palavras são da fotógrafa Lindsay Irene, autora da série de retratos The Daily Lives of Sex Workers, em entrevista ao P3. “Os trabalhadores do sexo merecem ter um rosto, merecem ser olhados como seres humanos que têm vidas normais.” Esse foi um dos motivos que levou a estudante canadiana a dedicar cerca de um ano ao projecto, que deverá assumir a forma de livro ainda em 2019. Mas este não é o seu único móbil. Lindsay, hoje com 33 anos, foi também, em tempos, trabalhadora do sexo e sentiu na pele o estigma inerente à profissão — que não é legal no Canadá, mas parcialmente descriminalizada pelo Estado. “É proibido publicitar trabalhos sexuais, é proibido solicitar os serviços de trabalhadores do sexo. Mas não é proibido realizar trabalho sexual, esse não é criminalizado”, conta, em conversa via Skype. Isso leva a que todos os trabalhadores sexuais tenham dificuldade em anunciar os seus serviços e faz com que os clientes se recusem a ser identificados, por medo de denúncia, o que torna o trabalho sexual mais perigoso.

A canadiana começou por retratar amigos e conhecidos. “Um dos pré-requisitos para integrar o projecto é que o retratado assuma, sem pudor, que é trabalhador do sexo”, explica. Essa premissa tem por base a ideia de transparência e desvelamento. O trabalho sexual está envolto em tabu, desconhecimento, preconceito, noções que Lindsay pretende desmontar com o projecto. “Acabei por fotografar mais indivíduos cisgénero, de raça branca, do que de qualquer outro perfil. Mas isso tem uma explicação. Pessoas de outras raças, de orientações sexuais e identidades de género não-normativas, são muito mais estigmatizadas em sociedade, pelo que a maioria opta por manter o anonimato.” A fotógrafa de Otava afirma ter perdido 80% dos indivíduos LGBTQI para o medo de repercussões negativas. “Ouvi histórias de pessoas que, após terem revelado que são trabalhadoras do sexo, perderam a custódia dos seus filhos, foram expulsas de casa, perderam empregos, foram alienadas por membros da família ou amigos.” Essas são situações que Lindsay considera rigorosamente desnecessárias e que espera, um dia, ver extintas do quotidiano dos trabalhadores do sexo. “São pessoas, seres humanos”, conclui. “Todos merecemos ser respeitados, viver em paz e trabalhar em segurança.”

Lindsay considera necessária uma mudança na lei canadiana, que deve, na sua opinião, deixar de tentar demover os trabalhadores do exercício da profissão. “Sinto que o Governo canadiano trata os trabalhadores como se fossem vítimas e prefere providenciar opções de fuga da indústria, em vez de tentar torná-la mais segura”, explica. “Existe uma diferença entre pessoas que estão neste negócio contra a sua vontade e aquelas que o fazem voluntariamente. Pessoas que são vítimas de tráfico humano são realmente vítimas e devem, obviamente, ser tratadas como tal. Os trabalhadores sexuais, por sua vez, estão apenas a tentar fazer o seu trabalho e a legislação actual torna praticamente impossível fazê-lo em segurança. A lei está a isolar os trabalhadores do sexo.” A fotógrafa defende que a profissão deve ser regulamentada e acredita que essa alteração irá estimular a inclusão deste tipo de profissionais na sociedade.

A prostituição é uma actividade rentável, o que se traduz numa vantagem para quem a pratica. Mas existem outros benefícios associados. Lindsay explica: “Alguns trabalhadores gostam de poder passar mais tempo com a família, outros gostam realmente do que fazem, são pessoas que gostam de sexo. Há ainda quem seja incapaz de manter um trabalho tradicional, dito ‘das nove às cinco’, devido a incapacidade ou a problemas de saúde mental, e recorre ao trabalho sexual como recurso.”

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