Análise

Theresa May: com acordo e com glória?

Nesta quarta-feira, ao contrário de todos as previsões, o palco acabou por ser dela, retirando os holofotes dos “votos indicativos” que pretendiam devolver aos Comuns o controlo político do “Brexit”.

1. Theresa May pagou nesta quarta-feira aos radicais anti-europeus do Partido Conservador o preço que eles pediam para aprovar o acordo de saída que negociou com Bruxelas. Acedeu ao seu principal objectivo: abandonar Downing Street de forma a ser outro líder a negociar os termos da futura relação do Reino Unido com a União Europeia. A decisão da primeira-ministra britânica já era esperada, apesar da determinação com que se apresentou nesta quarta-feira, nos Comuns, a defender o seu acordo. Se, finalmente, vier a ser aprovado – o que ainda não é garantido, porque os Conservadores não têm a maioria, dependem dos votos dos Unionistas da Irlanda do Norte e há entre eles convictos pró-europeus e fanáticos de uma saída sem acordo –, a líder britânica acaba de averbar uma assinalável e inesperada vitória politica. Nesta quarta-feira, ao contrário de todos as previsões, o palco acabou por ser dela, retirando os holofotes dos “votos indicativos” que pretendiam devolver aos Comuns o controlo político do “Brexit”.  

Durante meses, May teimou para além de qualquer aparente racionalidade, que o acordo negociado com Bruxelas era o único possível para respeitar o resultado do referendo de 2016 e o melhor para preservar os interesses do seu país. Apresentou-se perante os Comuns para dizer que ainda não desistiria de o fazer aprovar. Sofreu três derrotas que não poderiam ser mais eloquentes – o seu acordo foi, por duas vezes, esmagadoramente derrotado; e aquela que conduziu à chamada “apropriação” do “Brexit” pelo Parlamento, abrindo o caminho para os “votos indicativos”. Joga agora a sua última cartada, que ainda pode ganhar. 

As suas armas foram sempre as mesmas: ameaçar a ala radical dos Tories de que a alternativa seria, provavelmente, tudo aquilo que eles não desejavam: um adiamento sine die da saída, um outro referendo de resultado incerto, ou mesmo a permanência de o Reino Unido na União Europeia. A manifestação de sábado passado, que reuniu em Londres um milhão de pessoas pedindo que a decisão fosse “devolvida ao povo”, pode ter sido o seu mais convincente argumento. Nesta quarta-feira, exibiu o derradeiro: a possibilidade de o Reino Unido ter de participar nas eleições europeias de final de Maio e de elas se transformarem numa espécie de segundo referendo, cujo resultado poderia não agradar aos “ hard brexiteers”. 

2. Com a sua promessa de demissão, obteve mais uma pequena vitória: baralhar o jogo que nesta quarta-feira decorreu no Parlamento em torno dos “votos indicativos” com outras tantas saídas possíveis para o imbróglio criado pelo “Brexit”. Arrisca-se a sair de cena como vitoriosa e não como derrotada. Mas também se arrisca a ficar na História como a líder política que, em boa medida, sacrificou a união dos britânicos em torno de um “soft Brexit” aos interesses e aos jogos de poder do Partido Conservador.

David Cameron ficará na História como o líder britânico que jogou o futuro do seu país na roleta russa das facções anti-europeias do Partido Conservador com o mero intuito de apaziguá-los e salvar a sua liderança. A sua sucessora conduziu uma negociação que, independentemente de ela própria considerar que serve os interesses do seu país, também partiu da tentativa de “apaziguar” a mesma facção radical com as célebres “linhas vermelhas” de Chequers, que afastaram qualquer hipótese de permanência na União Aduaneira e conduziram directamente à barreira intransponível do backstop irlandês. 

3. Esta quarta-feira, o seu acordo com os Conservadores retirou a Jeremy Corbyn boa parte do oxigénio que recuperara na segunda-feira. A ambiguidade com que o líder do Labour geriu uma questão vital como o “Brexit” acabou por tornar-se numa armadilha. A jogada de May arrisca-se a fazê-lo tropeçar. Durante o debate dos “votos indicativos”, a divisão nas suas próprias fileiras era evidente. Uma parte do governo-sombra de Corbyn preparava-se para se revoltar contra a sua proposta de sujeitar a referendo um acordo sobre o “Brexit” - o de May ou outro qualquer. Do outro lado, um número muito considerável de deputados ameaçava rebelar-se contra a exclusão de um novo referendo que contemple a possibilidade de ficar. A manifestação de Londres, onde não compareceu, foi mais um aviso contra a sua falta de clareza e o preço que o Labour poderá vir a pagar por ela.

May anunciava ter a intenção de “abandonar mais cedo [Downing Street] para fazer aquilo que está certo” para o seu país e para o seu partido.” Corbyn apenas conseguiu repetir o que já dissera: que a primeira-ministra só tem em conta o partido e não o país; que é um “embaraço nacional” e que chegou a hora de o Parlamente preparar um “Plano B”. Um líder da oposição que fosse desde a primeira hora um defensor da União Europeia teria tido outro discurso e outra força: aquela que esteve nas ruas de Londres, porventura a maior manifestação a favor da Europa jamais vista num país da União Europeia.