Trás-os-Montes e Alto Douro: espelho de um país cada vez mais moderno e também vazio de gente

Viver hoje em Trás-os-Montes e Alto Douro já não tem nada de desterro. A região modernizou-se e deixou de poder queixar-se da falta de acessibilidades. Hoje, o grande problema é mesmo o despovoamento e o envelhecimento da população, embora haja cada vez mais investidores a olhar para Trás-os-Montes como uma terra de oportunidades.

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Adriano Miranda

Fim de tarde, o sol a começa a aproximar-se das costas do horizonte, mas ainda há luz suficiente para fazer rebrilhar os fraguedos da serra da Padrela e aquecer a solidão da aldeia de Cubas, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, Vila Real. Há duas ou três casas recuperadas, outras tantas abandonadas, olivais e hortas bem granjeadas, soutos desfolhados. Quando acaba a terra arável, já na lomba soalheira da Padrela, começa um outro mosaico, uma sucessão de sobreiros, pinheiros, pedra, carvalhos, pedra, carvalhos cada vez mais pequenos, pedra, pedra e, por fim, torres eólicas a fazer de capelas no cimo da serra.

Cubas fica a meia encosta da Padrela, com vistas desafogadas sobre o imenso vale de Vila Pouca. A sede de concelho dista 17 quilómetros. “Os meus filhos estão sempre a dizer que isto é o fim do mundo, mas para mim é um paraíso”, filosofa Francisco Costa, 77 anos e um dos dois únicos habitantes da aldeia. O outro é a mulher, Maria Alves, que conheceu quando, com 17 anos, chegou a Cubas para “servir um patrão”. Na altura, recorda, “viviam cá mais de 40 pessoas”.

A dada altura, já com uma “carrada” de filhos, Francisco fez o que sempre fizeram os diferenciados do interior rural, aqueles que não se contentam em repetir a mesma vida de pobreza dos antepassados: emigrou. Ao fim de 15 anos em França, já com algum dinheiro e uma pequena reforma, regressou a Cubas para retomar o seu destino. “Agora, só saio daqui para Valoura [aldeia vizinha e onde fica o cemitério da freguesia]”, diz Francisco.

Foi em Cubas que o brasileiro Neni Glock filmou, para a RTP, parte do belíssimo documentário Transmontanos, um retrato do quotidiano de duas aldeias (a outra foi Cerdedo, no concelho de Boticas, já nos píncaros do Barroso) que é também o retrato de Trás-os-Montes. Uma região de paisagens belíssimas, fértil em ar puro, água e terra arável, servidas por túneis e autoestradas de última geração, porta de entrada na Europa, mas cada vez mais vazia de gente.

Em Trás-os-Montes, o Inverno demográfico é tão pesado como o Inverno climático. O fenómeno torna-se real quando a taxa de natalidade não repõe de forma consistente o nível de mortos. Um país, para repor a sua população e crescer, deve manter uma taxa de fertilidade de 2,1 filhos por mulher. Em Trás-os-Montes, é menos de metade desse valor. Menos gente significa menos potencial de riqueza. Em regra, cerca de 80 por cento da riqueza gerada na economia advém do capital humano.

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No final de 2017, residiam em Trás-os-Montes e Alto Douro 387.755 pessoas. Para este cálculo, considerou-se a soma das populações das três comunidades intermunicipais em que se divide hoje a região: Alto Tâmega, Terras de Trás-os-Montes e Douro. Juntas, Juntos, estes ocupam uma área total de 11.667 quilómetros quadrados, o que dá bem a ideia da baixíssima densidade populacional da região.

Os 387.755 residentes dividiam-se assim: 87.157 no Alto Tâmega, 192.046 no Douro e 108.547 nas Terras de Trás-os-Montes. Em relação a 2011, o Douro perdeu 13.856 pessoas, o Alto Tâmega cerca de 9500 pessoas e as Terras de Trás-os-Montes quase 7 mil. Pior: todos os concelhos perderam habitantes. Até mesmo Vila Real e Bragança, que durante muito tempo foram servindo de cidades-tampão e captando população dos concelhos vizinhos, encolheram. Vila Real baixou de 51.850 para tinha 49.951 residentes, menos 0,24% do que em 2011, e Bragança regrediu 0,29%, passando de 35.341 habitantes para 33.668. “Precisamos de um plano nacional de longo prazo que fomente o investimento público mas também a captação de investimento privado, com mais apoios à fixação da mão-de-obra qualificada e às explorações agrícolas familiares, que olhe de outra forma para a floresta e a agricultura e estimule a emergência de projectos na zona de fronteira, de modo a travarmos esta hemorragia demográfica”, defende Jorge Nunes, ex-presidente da Câmara Municipal de Bragança e actual quadro da Comissão de Coordenação da Região Norte. O problema demográfico é transversal ao país, mas “é muito mais preocupante para o interior, porque leva ao despovoamento do território e o despovoamento leva à fragilização dos serviços e da actividade económica, à desertificação e à desqualificação do território. E nenhuma região, por si só, consegue reverter o declínio demográfico”, sustenta Jorge Nunes.

A região não só está a esvaziar-se como também está a envelhecer acima da média nacional e até da região Norte, onde há 158,3 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 crianças ou jovens com menos de 15 anos. Só Vila Real tem um índice de envelhecimento ligeiramente inferior: 156,9. Todos os outros municípios estão bem acima. Em Vinhais, por exemplo, a situação assume já proporções dramáticas: Por cada 100 jovens, há 580 idosos.

A situação tende a agravar-se, porque os nascimentos continuam em regressão. A taxa bruta de natalidade (nados-vivos por cada 1000 habitantes) no país era de 8,4, em 2017. No Alto Tâmega era de 5,7 nados-vivos, no Douro de 6,1 e nas terras de Trás-os-Montes de 6,3.

O fecho massivo de escolas primárias também ajudou ao esvaziamento e envelhecimento da região. As razões pedagógicas, associadas ao baixo números de alunos, podem ser atendíveis, mas, como sublinhou um dia ao PÚBLICO Rui d’Espiney, sociólogo e com uma larga experiência no desenvolvimento de projectos de combate ao isolamento das escolas em zonas rurais, o efeito foi devastador. “Tirar as crianças das zonas rurais acelerou a sua desertificação. A partir do momento em que as crianças saíram, os pais também saíram. As comunidades ficaram mais pequenas, isoladas e perdidas”, afirmou.  Mesmo com a construção de modernos centros escolares, o número de alunos não tem parado de diminuir. Só os nove municípios da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes perderam mais de metade dos alunos, desde o infantário ao secundário, em 17 anos, passando de mais de 23 mil em 2001 para cerca de onze mil em 2017.

Jovens precisam-se

Há mais números pouco simpáticos para a região. Por exemplo, o PIB per capita de Trás-os-Montes também é dos mais baixos do país. Cada residente contribui apenas com 12.680 euros no Alto Tâmega, 13.458 euros no Douro e 13.615 em Terras de Trás-os-Montes. Porém, olhando para lá das estatísticas, é inegável que a qualidade de vida é hoje muito melhor em Trás-os-Montes. Mesmo as muitas Cubas e Cerdedos que existem na região já dispõem das infraestruturas básicas para uma vivência digna. A imagem de uma região isolada e miserável já não pode ser atribuída a Trás-os-Montes. A região modernizou-se e ficou mais próxima do resto do país e da Europa.

Durante décadas, julgou-se que a resolução dos problemas de Trás-os-Montes passava por desencravar o território, por acabar com o seu isolamento em relação ao resto do país. No II Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, realizado em 1941, já era essa a grande reivindicação. Foi nesse congresso que Miguel Torga apresentou, em jeito de fábula, o famoso texto Reino Maravilhoso, que viria a fixar referentes identitários sobre a região e os transmontanos, com os famosos “para lá do Marão mandam os que lá estão" e o “entre quem é”.

Era o tempo em que se demorava sete horas de Bragança a Lisboa e em que era necessário perder um dia para ir de comboio de Miranda ao Porto. A região era mesmo isolada. As estradas eram más e, para agravar, os comboios começaram a fechar. Primeiro foi a Linha do Sabor, depois a do Tâmega, a seguir a do Corgo. Antes, já tinha fechado o troço da Linha do Douro entre o Pocinho e Barca de Alva. Também foram fechando as minas (Borralha, Jales, Moncorvo) e desfeito o sonho agrícola criado em torno do complexo do Cachão.

Com a chegada dos fundos comunitários, foi feito um investimento gigantesco em infra-estruturas básicas. As estradas demoraram a chegar mas chegaram. Primeiro foi o IP4. Depois o IP4 passou a auto-estrada, deixando Bragança a duas horas do Porto e Vila Real a uma. Fizeram-se também a A24, que liga Chaves-Vila-Real-Régua-Lamego a Viseu; a A7, que a partir de Vila Pouca e passando por Ribeira de Pena, liga a A24 a Guimarães; o IP2, que liga a A4, a partir de Macedo de Cavaleiros, à A25, em Celorico da Beira; o IC5, que passa por Alijó, Carrazeda de Ansiães, Vila Flor, Alfândega da Fé, Mogadouro e termina em Miranda do Douro; e, finalmente, foi derrubada a grande barreira física e psicológica de Trás-os-Montes, com a construção do túnel do Marão, que colocou Vila Real a cerca de 45 minutos do Porto.

Ao mesmo tempo, o Douro tornou-se navegável e abriu caminho a um verdadeiro boom de turistas fluviais. E tanto Vila Real como Bragança passaram a dispor de ligações aéreas para Lisboa.

Vila Real, Bragança e Chaves foram também contempladas com grandes investimentos do programa Polis, que tornou as cidades mais bonitas, limpas e habitáveis. E todas as sedes de concelho foram requalificadas e equipadas com bibliotecas, piscinas, pavilhões gimnodesportivos, museus e auditórios. Construíram-se hospitais (só em Vila Real há três: um público e dois privados), teatros, conservatórios de música e centros de congressos e exposições nas principais cidades — e até em algumas vilas.

Vila Real e Bragança tornaram-se também dois importantes pólos de ensino superior. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) tem perto de sete mil alunos e o Instituto Politécnico de Bragança possui ainda mais: 8300 alunos inscritos (com os que estão em mobilidade, o número total de alunos sobe para 9 mil), um terço dos quais são estrangeiros. “Em termos percentuais, somos a instituição de ensino superior do país com mais alunos internacionais, assegura Luís, vice-presidente do IPB. Há também ensino superior em Chaves (uma escola de enfermagem da Cruz Vermelha e alguns cursos profissionais ministrados pelo Instituto Politécnico de Bragança), em Mirandela (um pólo do IPB) e em Lamego (pólo do Instituto Politécnico de Viseu. A dada altura, chegou haver também ensino superior em Miranda do Douro e em Macedo de Cavaleiros, mas estes pólos acabaram por fechar, por falta de alunos.

Atrair estudantes estrangeiros é, de resto, uma das grandes apostas da academia transmontana. O IPB está a fazê-lo com muito sucesso. “Há mais de uma década que temos vindo a apostar na internacionalização”, até porque “nos custos de estudar e de viver nesta região somos muito competitivos”, sublinha Luís Pais. A UTAD tem estado pior (entre chineses, sul-africanos e africanos de países de língua portuguesa, tem apenas cerca de 600 alunos estrangeiros).  “Precisamos de captar a nova geração de emigrantes”, defende o reitor da UTAD, Fontainhas Fernandes, que tem feito “road-shows” por França. Na sua opinião, o grande desafio passar por atrair mais gente de fora e também por criar condições para “fixar quadros na região”.

Sem gente, sobretudo quadros mais qualificados, fica mais difícil atrair novos investidores, como sublinha Paulo Fernandes, responsável máximo da Faurécia Bragança, a maior fábrica de Trás-os-Montes. A unidade da multinacional francesa constrói sistemas de escapes automóveis para as principais marcas automóveis da Europa, emprega 850 pessoas e no último ano facturou perto de 500 milhões de euros. Apenas menos 56 milhões de euros do que facturou toda a região duriense na venda de vinho do Porto e DOC Douro em 2018 (no contexto vitivinícola nacional, 556 milhões de euros é um valor importante, mas a riqueza do Douro, onde 33 por cento dos viticultores do Douro têm mais de 65 anos e 92% dos lavradores possuem menos de cinco hectares de vinha, está cada vez mais concentrada em torno de um pequeno número de empresas; com o preço das uvas em valores ridículos, a maioria dos produtores sobrevive apenas). O gestor reconhece que não foi fácil recrutar tanta gente. Mesmo assim, Paulo Fernandes garante que a empresa está para “ficar muitos anos em Bragança”, não vendo razões para não se investir hoje no interior e poder ser competitivo.

Gonçalo Quadros, o fundador e CEO da Critical Software, pensa da mesma maneira. A empresa tornou-se uma estrela mundial na indústria do software a partir de Coimbra e os planos de crescimento da empresa passam por abrir centros de engenharia em várias capitais de distrito. Um deles será instalado em Vila Real. Vai ter 120 trabalhadores e funcionará na antiga sede distrital da empresa Infraestruturas de Portugal. 

Depois da Faurécia e, antes, da Kathrein Automotive (empresa alemã situada em Vila Real e que produz antenas para marcas como a BMW, a Mercedes, a Volvo, a Audi ou a Ford, empregando mais de 500 trabalhadores e facturando perto de 100 milhões de euros), a chegada da Critical Sotware a Vila Real foi, talvez, a melhor notícia que aconteceu em Trás-os-Montes nos últimos anos. O recrutamento já começou e a falta de engenheiros em Trás-os-Montes não assusta Gonçalo Quadros. “O nosso mote é: ‘não precisamos que vocês venham ter connosco; nós vamos ter convosco’. As pessoas querem trabalhar na cidade onde têm raízes, junto das pessoas de quem gostam, da família. (…) Só não vão trabalhar para lá porque não encontram oportunidades, não têm desafios que as preencham e, portanto, têm de sair”, afirmou numa entrevista recente ao PÚBLICO. 

O exemplo da Critical Software pode, de resto, ser inspirador e levar outros investidores a seguir o mesmo caminho. Coincidência ou não, duas outras empresas tecnológicas mais pequenas já mostraram interesse em instalar-se em Vila Real, segundo o reitor da UTAD, que diz não poder revelar ainda os nomes. Numa primeira fase, as duas novas empresas deverão ficar instaladas no campus da universidade, que, finalmente, começa a abrir-se e a trabalhar mais directamente com o sector empresarial.

Já sob a direcção de Fontainhas Fernandes, foi instalado no (também novo) Régia Park de Vila Real um Centro de Excelência da Vinha e do Vinho. Este centro veio por fim às “capelas” que existiam na UTAD e acabar com as investigações avulsas, juntando numa mesma plataforma e debaixo de objectivos comuns cerca de 100 investigadores. No Régia Park vai ficar também instalado um centro Fraunhofer, uma parceria da UTAD com o Centro IKTS da Fraunhofer em Dresden para actuar no domínio da agricultura de precisão, nomeadamente nas áreas do vinho e da vinha. A Fraunhofer-Gesellschaft é a maior organização de investigação aplicada na Europa e mais prestigiada da Alemanha. Tem uma equipa de cerca de 25 mil pessoas distribuídas por mais de 80 centros de investigação em todo o mundo.

A UTAD vai acolher ainda dois dos 11 Laboratórios Colaborativos (estruturas que juntam em consórcio centros de investigação, laboratórios associados, instituições do ensino superior, centros tecnológicos, empresas e diversas instituições locais) que vão ser criados na região Norte: um dedicado à vinha e aos vinhos portugueses e outro à gestão integrada da floresta e do fogo. O Instituto Politécnico de Bragança também vai acolher um Laboratório Colaborativo, com o sugestivo nome de “Montanhas de Investigação”, e que irá actuar em sectores tão diferentes como a conservação da biodiversidade, agro-indústria, floresta, alterações climáticas, património histórico e cultural e turismo.

Como se vê, em Trás-os-Montes não faltam hoje parques tecnológicos, nem escolas, nem hospitais, nem equipamentos culturais, nem muito menos boas acessibilidades. Se há algo que ainda falta, além de gente, é uma banda larga ainda melhor. “A conectividade da banda larga em Trás-os-Montes é dez vezes mais baixa do que no Porto”, queixa-se o reitor da UTAD. E a conectividade é na actualidade um elemento crítico na captação de investimento. Porque com uma boa rede digital é possível trabalhar e criar riqueza a partir de qualquer lugar. Até mesmo a partir da pacatez de aldeias como Cubas. Afinal de contas, o mundo está hoje à distância de um clique.